O Rival Amado II
Capítulo 14 — O Confronto Inesperado e o Legado de um Amor
por Davi Correia
Capítulo 14 — O Confronto Inesperado e o Legado de um Amor
O ar na galeria de Lucas Almeida parecia ter ficado rarefeito. A visão de Daniel, em carne e osso, parado em frente à entrada, era tão surreal que Lucas por um momento pensou estar delirando. O choque inicial deu lugar a uma onda de adrenalina e a um medo gelado que se espalhou por suas veias. Ele, que passou meses tentando conquistar Isabella, que lutou contra a sombra de um homem que ele acreditava estar morto, agora o via ali, vivo.
Daniel, sentindo um olhar sobre si, virou-se e encontrou Lucas na janela. O reconhecimento foi instantâneo. Os olhos de ambos se encontraram, e naquele instante, uma tensão elétrica, carregada de anos de dor e saudade, preencheu o espaço entre eles. Daniel deu um passo hesitante para trás, como se tivesse sido atingido por um golpe invisível.
Lucas, sem pensar duas vezes, saiu de seu escritório e foi em direção à porta principal da galeria. Ele a abriu com um solavanco, o som ecoando no silêncio da noite. "Daniel?", ele chamou, a voz rouca de incredulidade e uma raiva contida.
Daniel permaneceu imóvel por um momento, o peso do olhar de Lucas sobre ele. Ele deu um passo à frente, como se estivesse reunindo coragem. "Lucas", ele respondeu, a voz surpreendentemente calma, apesar da turbulência que sentia. "Eu... eu não esperava te encontrar aqui."
"E eu não esperava te encontrar em lugar nenhum, Daniel", Lucas retrucou, a voz ganhando um tom mais afiado. "Todos pensavam que você estava morto."
Um sorriso amargo cruzou o rosto de Daniel. "A morte tem sido uma companheira incômoda nos últimos tempos. Mas eu sobrevivi. Por um motivo."
"Um motivo?", Lucas riu, um som seco e sem humor. "E qual seria esse motivo, Daniel? Vir aqui, atormentar a vida de Isabella mais uma vez?" A possessividade em sua voz era evidente, e ele não tentou escondê-la.
Daniel deu mais um passo à frente, aproximando-se da galeria, mas sem invadir o espaço de Lucas. "Eu vim por ela, Lucas. Para vê-la. Para saber se ela estava bem."
"Ela está bem", Lucas disse, cruzando os braços. "E ela seguiu em frente. Encontrou alguém que a ama de verdade." A implicação era clara, e Daniel a sentiu como um soco no estômago.
"Eu nunca deixei de amá-la, Lucas", Daniel disse, a voz ganhando uma profundidade que fez Lucas hesitar. "E ela... ela sabe disso."
"Ela está confusa", Lucas rebateu. "E você, com sua aparição repentina, só vai piorar as coisas."
Daniel olhou para a fachada da galeria, para o nome de Lucas em destaque. Um arrepio percorreu sua espinha. Ele se lembrou de suas conversas com Isabella, de como ela falava de Lucas, de sua arte. O ciúme, que ele tanto tentara reprimir, voltou com força total.
"Você... você está com ela, Lucas?", Daniel perguntou, a voz embargada.
"Estou tentando", Lucas respondeu com firmeza. "E você, com sua volta inesperada, pode arruinar tudo."
Um silêncio pesado caiu entre eles, pontuado apenas pelo barulho distante do tráfego da cidade. Os dois homens, rivais em mais de um sentido, se encaravam sob a luz fraca da rua, cada um defendendo o seu lugar no coração de Isabella.
"Eu não vim para arruinar nada, Lucas", Daniel disse, após um longo momento. "Eu só preciso vê-la. Preciso saber se ela está feliz. E preciso que ela saiba que eu não a esqueci."
Lucas sentiu uma pontada de simpatia por Daniel, apesar de toda a raiva. Ele podia ver a dor em seus olhos, a sinceridade em sua voz. Ele sabia que a chegada de Daniel era um golpe devastador para seus planos com Isabella. Mas, ao mesmo tempo, ele sentia uma responsabilidade.
"Ela está em casa, Daniel", Lucas disse, com uma voz mais suave. "Ela precisou de um tempo. De espaço para pensar."
Os olhos de Daniel se arregalaram. "Tempo? Por quê? Ela está pensando em mim?"
"Ela está pensando em tudo", Lucas corrigiu. "Em você, em nós, em seu futuro. Ela está lutando, Daniel. Luta para superar a dor, e você... sua volta pode ser mais um peso para ela carregar."
Daniel sentiu um nó na garganta. Ele nunca quis ser um peso para Isabella. Pelo contrário, ele sempre quis ser seu porto seguro. "Eu não sabia que ela estava sofrendo tanto assim", ele sussurrou.
"Ela sofreu", Lucas concordou. "E eu tentei estar lá para ela. Tentei oferecer um novo começo. Mas o passado, Daniel, é um fantasma poderoso."
Daniel olhou para o céu noturno, para as estrelas que pareciam distantes e frias. Ele se lembrou da primeira vez que viu Isabella pintando, da paixão em seus olhos, da forma como a arte a transformava. Ele sabia que não podia simplesmente desaparecer novamente.
"Eu preciso falar com ela, Lucas", Daniel disse, sua voz firme. "Eu preciso que ela me veja. Que ela saiba que eu estou vivo."
"E o que você espera que aconteça?", Lucas perguntou, a raiva retornando. "Que ela te abrace e esqueça tudo o que passou? Que ela te perdoe por ter desaparecido?"
"Eu não espero perdão imediato", Daniel respondeu. "Eu espero uma chance. Uma chance de explicar. Uma chance de mostrar que eu mudei. Que eu ainda a amo."
Lucas o encarou, a mente acelerada. Ele sentia a ameaça, mas também a inevitabilidade da situação. A presença de Daniel era um fato, um fato que mudava tudo. Ele não podia mais esconder Isabella dele, nem competir com a memória de um amor que, aparentemente, ainda vivia.
"Eu não posso te impedir de falar com ela, Daniel", Lucas admitiu, a voz carregada de resignação. "Mas eu te peço uma coisa. Não a machuque mais. Ela já sofreu o suficiente."
Daniel assentiu, a gratidão misturada à dor em seus olhos. "Eu nunca faria isso, Lucas. Você tem a minha palavra."
Os dois homens ficaram em silêncio por mais um momento, uma trégua tácita firmada sob a luz da galeria. Então, Daniel se virou, pronto para ir encontrar Isabella.
"Espere", Lucas chamou. Daniel parou e o olhou. "Se você ama Isabella de verdade, você vai querer que ela seja feliz. Seja qual for a decisão dela."
Daniel assentiu e se afastou, desaparecendo na escuridão. Lucas o observou ir, sentindo um vazio no peito. Ele sabia que havia perdido uma batalha, mas talvez não a guerra.
Na manhã seguinte, Isabella recebeu um telefonema inesperado. A voz do outro lado era rouca, carregada de emoção, mas inconfundivelmente familiar. Era Daniel.
"Isabella?", ele disse, a voz trêmula. "Sou eu. Daniel."
Isabella congelou. O telefone escorregou de sua mão, caindo no chão com um baque surdo. Ela sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Daniel. Vivo. Ali. A saudade que ela achava que estava começando a superar explodiu em seu peito, avassaladora.
Ela pegou o telefone, as mãos tremendo. "Daniel?", ela sussurrou, as lágrimas começando a rolar por seu rosto. "É... é você mesmo?"
"Sim, meu amor. Sou eu", ele respondeu, as lágrimas também em sua voz. "Eu voltei para você."
O encontro deles foi inevitável. Naquela tarde, Daniel a encontrou em um parque isolado, um lugar que eles costumavam frequentar em seus dias de glória. A cena era carregada de emoção. Isabella, com os olhos vermelhos e inchados, encarava Daniel, que parecia mais magro, com olheiras profundas, mas com a mesma intensidade em seu olhar.
Eles se aproximaram lentamente, como se estivessem pisando em terreno minado. O primeiro abraço foi hesitante, mas logo se tornou um abraço apertado, desesperado, como se estivessem tentando recuperar o tempo perdido, as vidas que foram roubadas deles.
"Eu pensei que você estivesse morto", Isabella soluçou, enterrando o rosto em seu peito.
"Eu também pensei que tinha perdido tudo", Daniel respondeu, a voz embargada. "Mas eu precisava voltar. Por você."
Ele a segurou firme, sentindo a fragilidade dela, mas também a força que ela havia encontrado para seguir em frente. Ele sabia que tinha muito a explicar, que a dor que ele causou era imensa. Mas naquele momento, ver Isabella ali, viva, o encheu de uma esperança que ele não sentia há muito tempo.
"Eu te amo, Isabella", ele disse, afastando-se um pouco para olhá-la nos olhos. "Eu sempre te amei."
Isabella olhou para ele, a confusão e a dor ainda presentes, mas algo mais também começou a emergir: uma faísca de amor, um eco do passado que se recusava a morrer. Ela estava em um dilema cruel. Lucas, o homem que a acolheu em sua dor, que a amou quando ela se sentia mais perdida. E Daniel, o amor de sua vida, o homem que ela acreditava ter perdido para sempre.
O legado de um amor estava ali, em jogo. E Isabella sabia que a decisão que ela tomaria mudaria o curso de suas vidas para sempre. A aparição de Daniel havia jogado uma bomba em sua vida, e agora, ela teria que lidar com as consequências, para o bem ou para o mal. O confronto inesperado havia acontecido, e o futuro, outrora incerto, agora se apresentava como um campo de batalha de corações.