O Rival Amado II
Capítulo 2 — O Atelier Como Campo de Batalha
por Davi Correia
Capítulo 2 — O Atelier Como Campo de Batalha
O ateliê de Léo no Leblon era um santuário, um espaço amplo e iluminado por janelas imensas que davam para um jardim interno exuberante. As paredes eram revestidas de telas inacabadas, pincéis e tintas espalhados em uma desordem organizada que só ele entendia. Era o seu refúgio, o lugar onde a alma de Léo ganhava forma e cor. Mas naquele dia, o cheiro familiar de terebintina e óleo de linhaça parecia menos um convite à criação e mais um presságio de tempestade.
Helena o esperava na porta, o olhar preocupado. "Léo, você está bem? Você sumiu por horas."
Léo tentou um sorriso, mas ele não alcançou seus olhos. "Estou bem, Helena. Só... precisei clarear a cabeça." Ele evitou o contato visual, focando na paisagem verde que transbordava pelas janelas. A verdade era que a imagem de Arthur não saía de sua mente, e o reencontro na praia o desestabilizara de uma forma que ele não conseguia disfarçar.
"O cliente de São Paulo ligou de novo. Ele está impaciente", Helena insistiu, entrando no ateliê e o seguindo. A voz dela, geralmente animada e cheia de energia, carregava um tom de urgência que não passou despercebido por Léo.
"Eu sei, Helena. Eu vou resolver isso. Só me dá um momento." Léo caminhou até uma grande tela em branco, um cavalete imponente que parecia zombar de sua inércia criativa. Ele pegou um pincel, mas a mão tremia levemente. A ideia de pintar algo, de dar vida a uma tela, parecia impossível naquele momento. Sua mente estava um turbilhão, dominada pela figura de Arthur.
Ele se lembrava de Arthur no ateliê, em momentos de intimidade e cumplicidade. Arthur, sentado em uma poltrona antiga, observando Léo pintar, com um olhar de admiração que aquecia a alma de Léo. Arthur, ajudando-o a escolher as cores, comentando sobre as texturas, compartilhando a paixão pela arte que os unia tão profundamente. Agora, essas memórias pareciam cruéis, um contraste doloroso com a realidade.
"Léo, você precisa se concentrar. Essa exposição é importante para nós dois. Para o ateliê", Helena insistiu, sua voz suave, mas firme. Ela sabia o quanto Léo se dedicava ao seu trabalho, o quanto ele via o ateliê como a extensão de sua alma.
"Eu sei, Helena. Eu sei", Léo repetiu, a voz embargada. Ele fechou os olhos, tentando banir a imagem de Arthur. Mas o perfume dele parecia pairar no ar, uma lembrança olfativa persistente. Seria sua imaginação? Ou Arthur, de alguma forma, sabia onde encontrá-lo?
Ele abriu os olhos e pegou um tubo de tinta vermelha, uma cor vibrante e intensa que, geralmente, o inspirava. Mas hoje, o vermelho parecia agressivo, uma cor de alerta. Ele o colocou de volta na bancada, o som seco ecoando no silêncio.
"O que aconteceu na praia, Léo?", Helena perguntou, a voz agora tingida de preocupação genuína. Ela era a única pessoa que sabia sobre o fim do relacionamento de Léo com Arthur, embora Léo nunca tivesse entrado em detalhes. Sabia que fora algo que o machucara profundamente.
Léo hesitou. Contar a Helena seria como abrir a ferida novamente, expô-la à luz do dia. Mas o peso do segredo estava se tornando insuportável. "Eu vi o Arthur", ele disse, a voz baixa.
Helena suspirou, seus ombros relaxando levemente. "Ah, Léo. Eu sinto muito."
"Não, você não entende. Ele estava com outra pessoa. Rindo, feliz. E eu... eu senti como se o mundo estivesse caindo aos meus pés de novo." As palavras saíram de Léo em um jorro, a dor contida explodindo. Ele se virou para Helena, os olhos marejados. "Eu achei que já tinha superado isso, Helena. Que já tinha enterrado essa dor. Mas ao vê-lo... tudo voltou."
Helena se aproximou e colocou uma mão reconfortante em seu ombro. "Eu sei que dói, Léo. Mas você precisa lembrar do porquê vocês se separaram. Você não pode deixar que isso te consuma de novo."
"Mas e se ele... e se ele não estiver feliz? E se ele estiver apenas fingindo?", Léo perguntou, a esperança surgindo em sua voz, uma esperança tola e perigosa.
Helena o olhou com compaixão. "Léo, você não pode viver no passado. O Arthur que você conheceu, o Arthur que você amava, pode ter mudado. E você também mudou."
"Eu não sei se mudei", Léo confessou, a voz um sussurro. "Eu ainda o amo, Helena. Eu sei que é loucura, que é doloroso, mas eu ainda o amo."
Naquele momento, a porta do ateliê se abriu com um leve rangido. Léo e Helena se viraram, surpresos. E lá estava ele. Arthur.
Ele parecia um pouco perdido, como se não tivesse certeza se estava no lugar certo. Seus olhos percorreram o ateliê, parando por um instante em Léo. O mesmo olhar de surpresa, talvez um pouco de constrangimento. Ele não estava mais com o grupo da praia. Estava sozinho.
"Com licença", Arthur disse, a voz ligeiramente tensa. "Eu... eu acho que me perdi."
Léo sentiu o sangue gelar nas veias. O mundo parou. Arthur, em seu ateliê. A ironia era cruel.
Helena, percebendo a tensão, deu um passo à frente. "Olá. Em que posso ajudar?"
Arthur olhou para Helena, e depois para Léo. "Eu estou procurando por... por um amigo. Ele mencionou que estaria por aqui." A hesitação em sua voz era palpável.
"Um amigo?", Helena perguntou, olhando para Léo, que estava paralisado, incapaz de articular uma palavra.
Arthur pigarreou. "Sim. Um amigo. Ele disse que... que vinha aqui às vezes." Seus olhos pousaram novamente em Léo, e havia uma pergunta não dita ali.
Léo finalmente conseguiu falar, a voz seca e trêmula. "Arthur?"
O nome saiu como um sopro. Arthur assentiu lentamente, um pequeno sorriso se formando em seus lábios. "Léo. Que coincidência."
Coincidência? Para Léo, parecia mais um golpe do destino, um teste cruel de sua capacidade de resistir à dor e à tentação.
Helena, sentindo que sua presença ali poderia ser incômoda, deu um passo para trás. "Eu vou deixar vocês conversarem. Léo, me avise sobre o cliente de São Paulo."
"Claro, Helena", Léo respondeu, sem desviar o olhar de Arthur.
Assim que Helena se afastou para o escritório nos fundos, o silêncio se instalou entre eles, denso e carregado de significados não ditos. Arthur olhou para as telas, para a desordem artística que era o reflexo da alma de Léo.
"Você tem pintado muito?", Arthur perguntou, a voz ainda um pouco tensa.
"O suficiente", Léo respondeu, a voz seca. Ele se aproximou de uma de suas pinturas, um retrato abstrato, as cores vibrantes e caóticas. "Trabalho. É a única coisa que me mantém ocupado."
"Eu sei que você é apaixonado pelo seu trabalho", Arthur disse, seus olhos percorrendo a tela com interesse genuíno. "Sua arte sempre teve uma força incrível."
Um elogio vindo de Arthur era como um bálsamo e um veneno ao mesmo tempo. Léo sentiu um aperto no peito. A arte era a única coisa que lhe restava, a única coisa que ele tinha certeza que ainda era sua.
"Você... você está bem, Arthur?", Léo arriscou, a pergunta saindo de seus lábios antes que ele pudesse detê-la.
Arthur deu uma risada curta e um pouco sem jeito. "Eu estou bem, Léo. A vida segue, não é?"
A vida segue. Uma frase simples, mas que ressoou em Léo com a força de um trovão. A vida dele, de fato, estava seguindo. Mas com Arthur fora dela, parecia uma melodia incompleta, um quadro sem a cor principal.
"Você... você está trabalhando em algum projeto novo?", Léo perguntou, tentando preencher o silêncio constrangedor.
"Sim. Um prédio residencial em Ipanema. Nada muito ousado, mas é um bom desafio", Arthur respondeu. Ele deu um passo à frente, aproximando-se de uma tela que Léo estava trabalhando antes da chegada de Arthur. Era um esboço de um casal, com traços delicados e cores suaves. "Isso é bonito, Léo."
Léo sentiu um rubor subir pelo pescoço. Era uma imagem que ele havia começado a pintar inspirado em lembranças, mas que havia deixado inacabada. "É só um rascunho."
"Você sempre teve um dom para capturar a emoção nas pessoas", Arthur disse, a voz suave, quase um sussurro. "Eu me lembro de quando você pintou o pôr do sol na varanda do nosso apartamento. Aquela luz, aquelas cores... era como se você tivesse pintado a própria alma daquele momento."
A menção do apartamento, da varanda, do pôr do sol, atingiu Léo como um soco. Ele se lembrou daquela noite, da cumplicidade, do amor que transbordava entre eles. As palavras de Arthur, carregadas de uma nostalgia que Léo sentia em sua própria pele, eram perigosas.
"Eu... eu tenho que terminar aquele quadro para São Paulo", Léo disse abruptamente, tentando se afastar da memória.
Arthur assentiu, o olhar ainda fixo na tela. "Claro. Não quero atrapalhar." Ele hesitou por um momento, como se quisesse dizer algo mais, mas se conteve. "Foi... foi bom te ver, Léo."
"Igualmente", Léo respondeu, a voz baixa.
Arthur deu um último olhar para Léo, um olhar que parecia carregar um misto de melancolia e resignação, e então se virou e saiu do ateliê, fechando a porta suavemente atrás de si.
Léo ficou parado, o pincel ainda em sua mão, o coração batendo descompassado. O ateliê, que antes era um santuário, agora parecia um campo de batalha, onde as lembranças de Arthur o haviam atacado sem piedade. A presença dele, mesmo que breve, fora suficiente para abalar as fundações de sua frágil paz. A exposição de São Paulo, a necessidade de se concentrar, tudo parecia secundário diante da avalanche de emoções que Arthur havia desencadeado. Ele se sentiu exposto, vulnerável, como se suas defesas tivessem sido derrubadas. E, no fundo, uma pequena e perigosa chama de esperança, que ele acreditava ter extinguido, começou a acender novamente.