Cap. 7 / 25

O Rival Amado II

Capítulo 7 — O Fio Invisível da Memória e do Desejo

por Davi Correia

Capítulo 7 — O Fio Invisível da Memória e do Desejo

Rafael caminhava pelas ruas de Ipanema, a brisa noturna acariciando seu rosto como um consolo frio. A conversa com Thiago ainda reverberava em sua mente, cada palavra, cada olhar trocado, gravado a fogo em sua memória. Ele sabia que havia ferido Thiago com suas acusações, mas a necessidade de confrontá-lo, de expor a verdade que ambos tentavam enterrar, era mais forte do que o medo de machucar.

Ele parou em frente ao Arpoador, o som das ondas quebrando na areia um ritmo familiar que sempre o acalmava. Olhou para o mar escuro, as luzes da cidade refletidas na água como estrelas cadentes. Pensou em Thiago, no seu sorriso torto que ele raramente mostrava, na sua paixão pela arte que o consumia, na sua capacidade de amar com uma intensidade que deixava Rafael sem fôlego.

"Por que você se fecha tanto, Thi?", ele sussurrou para o vento, a pergunta ecoando em seu próprio vazio. Ele se lembrava das noites que passaram juntos, dos planos sussurrados sob o céu estrelado, da certeza de que estavam destinados um ao outro. E então, a ruptura. A covardia, a incompreensão, a dor que se transformou em ressentimento e, para Thiago, em uma muralha intransponível.

Enquanto isso, no apartamento de Thiago, a quietude era pesada. Ele ainda segurava o pincel, o pequeno pedaço de tela em sua mão como um amuleto. As palavras de Rafael o atingiram em cheio, desenterrando fantasmas que ele jurava ter exorcizado. "Um erro", ele repetia para si mesmo, a frase soando oca e mentirosa. Não havia sido um erro. Tinha sido amor, puro e avassalador, e o medo de perder tudo o que o fez recuar.

Ele olhou para a janela, para o mesmo poste de luz que iluminava a rua e, indiretamente, o rosto de Rafael. Lembrou-se do dia em que se conheceram, um encontro casual que se transformou em uma conexão instantânea. A arte que os unia, a sensibilidade que compartilhavam, a forma como se entendiam sem precisar de palavras. E Rafael, com sua ousadia e seu jeito de ver o mundo, o desarmava completamente.

A imagem de Rafael, ali, em seu apartamento, desafiando-o, pedindo uma "segunda chance", era ao mesmo tempo aterrorizante e excitante. Ele sentia o desejo borbulhando sob a superfície da sua raiva, um desejo que ele lutava para reprimir com todas as suas forças. Afinal, Rafael era o "rival amado". Aquele que o fez duvidar de si mesmo, que o jogou em um turbilhão de emoções e que, no final, o deixou com um coração partido.

No dia seguinte, o sol escaldante do Rio de Janeiro anunciava mais um dia de calor intenso. Rafael decidiu que não podia deixar as coisas como estavam. Ele precisava entender o que se passava na mente de Thiago. Sabia que a arte era a porta de entrada para o universo do pintor, e foi com essa ideia que ele se dirigiu ao atelier de Thiago, um lugar que ele conhecia bem dos tempos em que eram inseparáveis.

Ao chegar, o cheiro de tinta a óleo e terebintina o envolveu, trazendo consigo uma onda de memórias. O atelier era um caos organizado, telas espalhadas, pincéis em potes, esboços pregados nas paredes. E ali, no centro de tudo, estava Thiago, imerso em uma nova obra, a testa franzida em concentração.

Rafael pigarreou, anunciando sua presença. Thiago levantou os olhos, a surpresa ainda presente, mas agora misturada com uma resignação. "Você voltou", ele disse, sem um tom de pergunta, mas de constatação.

"Eu não sou de desistir fácil, Thiago", Rafael respondeu, um sorriso leve nos lábios, tentando quebrar a tensão. "E eu acho que temos mais para conversar."

Thiago pousou o pincel e limpou as mãos em um pano sujo de tinta. "Conversar sobre o quê, Rafael? Sobre como você invadiu o meu espaço e me acusou de ser covarde?"

"Sobre o que você sente, Thiago. Sobre o que nós tivemos. E sobre por que você se recusa a admitir que foi real." Rafael se aproximou, circulando a tela, observando a obra em andamento. Era uma paisagem urbana, as cores vibrantes e a pincelada forte, característica de Thiago. "Isso é lindo. Você está cada vez melhor."

Thiago o observou de perto, a admiração de Rafael era sincera, e por um momento, a rigidez em seu semblante vacilou. "É apenas um trabalho", ele respondeu, mas a voz estava menos dura.

"Não, não é. Para você, nunca é 'apenas um trabalho'. É parte de você. Assim como nós fomos parte um do outro." Rafael parou em frente a Thiago, olhando-o nos olhos. "Eu não estou aqui para te culpar, Thiago. Eu estou aqui para tentar entender. Para tentar reacender algo que, eu sei, ainda está aí."

"Você está se enganando", Thiago disse, mas seus olhos se desviaram por um instante. "Eu segui em frente. Construí a minha vida. E você não faz mais parte dela."

"E se o que você construiu for uma armadilha?", Rafael insistiu, a voz mansa, mas firme. "E se você estiver vivendo uma mentira, apenas para provar algo para si mesmo?"

Thiago deu uma risada curta e amarga. "Uma mentira? A minha arte é uma mentira? O meu sucesso é uma mentira? Eu não sou mais o garoto assustado que você conheceu, Rafael."

"Eu nunca disse que era. Eu sei que você se tornou um artista incrível, respeitado. Mas a sua arte, Thiago, é feita de emoção. E eu sei que você ainda tem muita emoção aí dentro. E parte dela é sobre nós." Rafael estendeu a mão, hesitantemente, para tocar o ombro de Thiago. Desta vez, Thiago não se afastou.

A pele de Thiago estava quente sob os dedos de Rafael. Uma corrente elétrica percorreu os dois. Era um toque simples, mas carregado de anos de história, de desejo reprimido, de anseio. Thiago fechou os olhos, respirando fundo, o perfume de tinta misturado com o cheiro de Rafael, uma combinação que o remetia a um passado que ele lutava para esquecer, mas que, ao mesmo tempo, o atraía irremediavelmente.

"Você não deveria fazer isso", Thiago sussurrou, a voz embargada pela emoção.

"Por quê?", Rafael perguntou, os olhos fixos nos de Thiago, buscando uma resposta genuína. "Porque você não quer? Ou porque você quer, mas tem medo?"

Thiago abriu os olhos, e Rafael viu neles um turbilhão de sentimentos conflitantes: desejo, confusão, dor, e uma faísca de esperança. "Eu não sei", Thiago admitiu, a voz quase inaudível. "Eu não sei mais o que eu quero, Rafael. Você virou o meu mundo de cabeça para baixo de novo."

"Talvez seja hora de o seu mundo virar de cabeça para baixo", Rafael disse, a voz suave, mas cheia de convicção. "Talvez seja hora de você deixar a arte falar o que a sua boca não consegue. Talvez seja hora de você se permitir sentir. E se permitir ser feliz."

Ele apertou levemente o ombro de Thiago, um gesto de apoio e de carinho. A conexão entre eles era inegável, um fio invisível que, apesar dos anos de separação e da dor, ainda os unia. Thiago não se afastou. Ele se permitiu sentir o toque de Rafael, a familiaridade reconfortante que ele pensou ter perdido para sempre.

"Eu preciso pensar", Thiago disse, a voz um pouco mais firme, mas ainda carregada de incerteza.

"Eu estarei aqui", Rafael respondeu, com um sorriso que emanava esperança. "E desta vez, eu não vou embora."

Rafael deixou o atelier, sentindo uma mistura de alívio e apreensão. Ele havia plantado uma semente, mas a terra ainda estava árida. Thiago, por sua vez, permaneceu parado, a mão no ombro onde Rafael o tocara, o toque ainda vibrando em sua pele. Ele olhou para a tela em branco à sua frente, as cores vibrantes de sua pintura agora parecendo um reflexo do turbilhão de emoções que ele sentia. O rival amado havia voltado, e com ele, a possibilidade de um amor reescrito, ou a dolorosa repetição de um passado que ele jurava ter deixado para trás.

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