Amor Inesperado II
Amor Inesperado II
por Davi Correia
Amor Inesperado II
Autor: Davi Correia
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Capítulo 1 — O Silêncio que Grita
O sol da manhã invadia o quarto de hotel, pintando listras douradas no edredom amarrotado. Lucas se remexeu, um gemido escapando de seus lábios entreabertos. O cheiro de café fresco e a brisa salgada que entrava pela janela aberta traziam consigo a promessa de um novo dia, mas o peso em seu peito era um lembrete constante do ontem. Ontem. Um dia que se gravou em sua memória com a força de um raio.
Ele abriu os olhos lentamente, a confusão inicial dando lugar a uma melancolia familiar. A cidade de Salvador, com seu ritmo vibrante e cores que pareciam dançar no ar, o acolhia em uma tentativa desajeitada de consolo. Ele estava ali para um congresso, uma oportunidade de ouro para sua carreira em ascensão na advocacia, mas a cidade também guardava o eco de um passado que ele tentava desesperadamente silenciar.
Levantou-se da cama, o corpo ainda pesado pelo cansaço e pela emoção reprimida. Caminhou até a varanda, o piso frio sob seus pés descalços. A vista era de tirar o fôlego: o azul profundo do oceano se misturando ao céu, as embarcações coloridas pontilhando a paisagem, o som das ondas quebrando suavemente na praia. Era a beleza que contrastava cruelmente com a tempestade em sua alma.
Há quanto tempo não sentia essa paz? Era uma pergunta que se repetia em seus pensamentos, como um mantra doloroso. A vida, nos últimos anos, tinha sido uma corrida desenfreada, uma busca incessante por reconhecimento, por provar seu valor. Ele se dedicara ao trabalho com uma ferocidade que beirava a obsessão, fugindo de si mesmo, de suas próprias vulnerabilidades.
Uma batida na porta o tirou de seus devaneios. Era o seu colega de trabalho, Daniel, com um sorriso largo e uma energia contagiante.
“Bom dia, dorminhoco! O café te espera lá embaixo. O evento começa em uma hora e você ainda está de pijama!” Daniel riu, apoiando-se no batente da porta. Daniel era o oposto de Lucas: leve, otimista, sempre com uma piada na ponta da língua. Uma amizade improvável, forjada em horas de trabalho e em algumas noites regadas a vinho e conversas sinceras.
Lucas sorriu, um sorriso forçado que não alcançava seus olhos. “Bom dia, Dan. Já vou. Só precisava de um pouco de ar.”
“Ah, o ar de Salvador! Faz milagres, meu amigo. Vai ver que ele vai te dar aquele brilho todo para impressionar a banca de advogados, hein?” Daniel piscou, entrando no quarto sem ser convidado, o que era seu costume. Ele jogou uma toalha sobre o ombro de Lucas. “Vamos, o café tá bom, mas a moqueca do almoço é melhor ainda.”
Enquanto se arrumavam, Lucas tentava manter a conversa leve, respondendo às provocações de Daniel com um aceno de cabeça ou um murmúrio. Mas sua mente vagava, voltando às lembranças que teimavam em assombrá-lo. Aquele olhar. Aquele toque. Aquelas palavras que se perderam no vento.
Descendo para o café da manhã, o burburinho de pessoas e o aroma de comidas típicas invadiram seus sentidos. Lucas se sentou em uma mesa afastada, o prato à sua frente quase intacto. Daniel, percebendo seu silêncio, tentou puxar assunto sobre o congresso, os palestrantes, as novidades jurídicas.
“E aí, Lucas, viu a programação? O Dr. Vasconcelos vai falar sobre a nova lei de recuperação judicial. Dizem que ele é um monstro na área.”
Lucas assentiu, forçando-se a prestar atenção. “Sim, eu vi. Interessante.”
“Você vai arrasar, cara. Sua tese sobre o tema é fantástica. Aposto que vai fazer um milhão de contatos e fechar vários negócios.” Daniel comeu com apetite, comendo por dois.
“Espero”, Lucas respondeu, a voz baixa. O que ele realmente esperava era que o trabalho o consumisse, que o mantivesse ocupado o suficiente para não pensar em nada mais.
De repente, um som familiar fez seu corpo gelar. Uma risada melodiosa, profunda, que ele não ouvia há anos, mas que ressoava em sua alma como um sino. Lucas ergueu o olhar, o coração disparado, o ar faltando em seus pulmões. E lá estava ele.
Sentado em uma mesa próxima, conversando animadamente com um grupo de pessoas, estava Gabriel. O mesmo Gabriel de antes. Cabelos escuros e rebeldes, um sorriso que iluminava seu rosto, olhos castanhos que pareciam guardar segredos antigos. A pele bronzeada, o corpo atlético visível sob a camisa de linho clara. Era como se o tempo tivesse parado para ele, ou melhor, como se o tempo tivesse se curvado à sua beleza.
Lucas sentiu o sangue gelar. A cafeteria, antes vibrante, tornou-se um borrão. A conversa de Daniel sumiu. Tudo o que existia era aquele homem. Gabriel. O amor da sua vida. O homem que o despedaçou.
Gabriel riu de algo que uma mulher disse, e o som parecia um eco do passado. Lucas o observava, escondido atrás do cardápio que ele fingia ler. Cada detalhe nele era uma memória. O jeito que ele franzia a testa quando pensava, o movimento das mãos ao falar, a forma como seus olhos brilhavam.
Por que ele estava ali? Em Salvador? O destino, cruel e irônico, parecia gostar de brincar com seus sentimentos. Lucas fechou os olhos com força, tentando controlar a avalanche de emoções que o atingia. Raiva. Saudade. Dor. E, para seu desespero, uma pontada inconfundível de desejo.
“Terra chamando Lucas!”, Daniel o sacudiu levemente. “Você ficou pálido de repente. Tudo bem?”
Lucas abriu os olhos, o olhar fixo em Daniel, mas sua mente ainda estava presa à visão de Gabriel. “Sim, estou bem. Só… um pouco sem sono.”
“Ah, a vida noturna de Salvador te pegou, né? Mas o congresso é mais importante agora. Vamos lá, antes que você perca o café da manhã e a chance de causar uma primeira impressão matadora.” Daniel o puxou pela mão, e Lucas se deixou levar, o corpo sem força para resistir.
Enquanto se afastavam, Lucas lançou um último olhar para a mesa de Gabriel. Seus olhares se cruzaram por um instante. Gabriel não o reconheceu, ou fingiu não reconhecer. Seus olhos passaram por Lucas sem detecção, como se ele fosse apenas mais um rosto na multidão.
Um alívio gelado e uma decepção profunda se misturaram em Lucas. Ele estava seguro. Mas a imagem de Gabriel, tão perto e tão inacessível, havia aberto uma ferida antiga que ele pensava ter cicatrizado. O silêncio em sua alma agora parecia gritar.
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Capítulo 2 — O Eco de um Beijo
O auditório fervilhava de gente. Ternos impecáveis, vestidos elegantes, o burburinho de conversas eruditas e a expectativa pairando no ar. Lucas tentava se concentrar na apresentação do primeiro palestrante, um renomado jurista cujas palavras deveriam ser a epítome do conhecimento. Mas sua mente estava em outro lugar, em outra pessoa. Gabriel.
O reencontro inesperado havia desestabilizado todos os seus planos, todas as suas defesas construídas com tanto esforço. Ele se sentia como um equilibrista em uma corda bamba, e a aparição de Gabriel havia sido o vento forte que o desequilibrou.
Daniel, ao seu lado, cochichou: “Impressionante, né? Pensei que o Dr. Vasconcelos seria mais… tradicional.”
Lucas apenas assentiu, sem realmente ouvir. Ele podia sentir a presença de Gabriel no salão, uma energia sutil que o atraía e o repelia ao mesmo tempo. A cada movimento, a cada risada, ele sentia um arrepio percorrer sua espinha. Era como se estivessem conectados por um fio invisível, uma corrente elétrica que teimava em mantê-lo preso ao passado.
Durante os intervalos, Lucas se esquivava de qualquer contato, inventando desculpas para ficar sozinho, vagando pelos corredores do centro de convenções, observando as pessoas sem realmente vê-las. Ele precisava de um momento para respirar, para tentar colocar seus pensamentos em ordem.
Ele se sentou em um banco em um pátio interno, observando as palmeiras dançarem ao vento. A brisa era refrescante, mas não era o suficiente para apagar o calor que sentia nas bochechas ao pensar em Gabriel. Aquele olhar que cruzaram. Foi um flash, um segundo que pareceu uma eternidade. Ele tinha certeza de que Gabriel o vira, mas a falta de reconhecimento em seus olhos era um punhal em seu peito.
O que ele esperava? Que Gabriel o abraçasse, que dissesse que sentiu sua falta? Oito anos haviam se passado. Oito anos de silêncio, de dor, de reconstrução. Eles eram apenas fantasmas um do outro agora, ecos de um passado que não existia mais.
Daniel o encontrou ali, um copo de água na mão. “Te procurei, cara. Estava pensando em almoçar em um lugar mais tranquilo. Essa muvuca toda me deixa doido. Quer vir?”
Lucas hesitou. Sair para almoçar significava correr o risco de encontrar Gabriel novamente. Mas ficar ali, sozinho com seus pensamentos, também era torturante. “Tá bom, Dan. Só não me leve para um lugar muito barulhento.”
Eles foram a um restaurante à beira-mar, um lugar charmoso com mesas espalhadas pela areia. O som do mar e o aroma de peixe fresco envolviam o ambiente, criando uma atmosfera relaxante. Lucas pediu um peixe grelhado, mas sua fome havia desaparecido.
“Você anda estranho hoje, Lucas”, Daniel disse, observando-o com atenção. “Desde que viemos para cá, você está… distante. Algum problema com o congresso? Ou é alguma coisa pessoal?”
Lucas respirou fundo, lutando para manter a compostura. “Não é nada, Dan. Só… um pouco cansado. A viagem, o trabalho… você sabe.”
Daniel descruzou os braços, arqueando uma sobrancelha. “Sei. Mas você sabe que pode falar comigo, né? Somos amigos, e eu sou um ótimo ouvinte. Inclusive, adoro fofocas.”
Lucas sorriu levemente. Daniel era genuíno em sua preocupação, e isso o aquecia. Mas como explicar a Daniel que o homem que ele mais tentava esquecer estava a poucos metros de distância, vivendo sua vida como se Lucas fosse apenas uma memória distante?
“É só… a cidade me lembra algumas coisas”, Lucas disse, a voz embargada. “Coisas antigas.”
Daniel o encarou por um instante, o olhar perspicaz. Ele parecia querer perguntar mais, mas se conteve. “Entendo. Salvador tem essa coisa, né? Cidades com história, com alma, sempre carregam um peso. Mas às vezes, o peso é bom. Ajuda a gente a lembrar quem a gente é.”
Lucas não respondeu. Ele sabia quem era. Era um advogado bem-sucedido, um homem que havia superado adversidades, que construiu uma carreira sólida. Mas no fundo, ele ainda era aquele garoto que se apaixonou perdidamente, que teve seu coração partido em mil pedaços.
O almoço transcorreu em um silêncio confortável, pontuado pelas observações de Daniel sobre a paisagem e a comida. Lucas se esforçava para manter a conversa, mas sua mente continuava a vagar para aquele olhar no auditório. Aquele olhar… não parecia totalmente alheio. Havia um lampejo de reconhecimento, uma dúvida que ele não soube decifrar. Ou seria apenas sua esperança falando mais alto?
Depois do almoço, voltaram ao centro de convenções. A tarde de palestras foi longa e exaustiva. Lucas participou de um painel, apresentou um estudo de caso e respondeu a perguntas com a precisão e a eloquência que lhe eram características. Ele era bom no que fazia, e o reconhecimento dos seus pares era um bálsamo para sua alma ferida.
No final do dia, enquanto o sol se punha, pintando o céu com tons alaranjados e rosados, Lucas decidiu dar uma volta pela orla. A praia era um convite à introspecção, e o som das ondas era uma melodia suave para seus pensamentos agitados.
Ele caminhava sem rumo, observando as pessoas, os artistas de rua, as barracas de acarajé exalando um aroma irresistível. Foi então que ele o viu. Gabriel estava sentado em uma das barracas, conversando com um homem e bebendo uma caipirinha. A luz do entardecer banhava seu rosto, realçando seus traços.
Desta vez, não havia como fugir. O destino parecia ter um senso de humor macabro. Lucas parou, o coração disparado. Gabriel ergueu o olhar, e desta vez, o reconhecimento foi inegável. Os olhos castanhos se arregalaram ligeiramente, e um misto de surpresa e algo mais, algo que Lucas não soube identificar, cruzou seu rosto.
Gabriel se levantou, a caipirinha esquecida em sua mão. Ele caminhou em direção a Lucas, o passo hesitante. O homem com quem ele conversava observava a cena com curiosidade.
“Lucas?”, Gabriel disse, a voz embargada pela emoção.
Lucas engoliu em seco. Aquela voz. A mesma voz que o embalou em noites de paixão, que sussurrou promessas de amor eterno. “Gabriel.”
O silêncio que se seguiu foi carregado de anos de saudade, de mágoas, de perguntas sem resposta. Gabriel parecia ter envelhecido, mas a mesma aura de mistério e sedução o cercava. Havia linhas de expressão ao redor de seus olhos, mas eles ainda brilhavam com a mesma intensidade.
“Não… não esperava te ver aqui”, Gabriel disse, um sorriso hesitante surgindo em seus lábios.
“Nem eu”, Lucas respondeu, a voz rouca. “O que… o que você faz em Salvador?”
“Eu moro aqui. Trabalho com arquitetura. E você? Veio para o congresso?”
Lucas assentiu, sem conseguir desviar o olhar. Havia tanta coisa que ele queria dizer, tantas perguntas que ele queria fazer. Por que ele desapareceu? Por que nunca mais o procurou?
“Sim, vim para o congresso”, Lucas conseguiu dizer. “É… bom te ver, Gabriel.” A última frase saiu quase como um sussurro.
Gabriel sorriu, um sorriso genuíno desta vez, que alcançou seus olhos. Um sorriso que fez o coração de Lucas disparar novamente. “Bom te ver também, Lucas.”
A brisa do mar soprou, trazendo consigo o cheiro de sal e de esperança. O eco de um beijo que parecia ter sido roubado pelo tempo pairava no ar.
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Capítulo 3 — A Ponte do Passado
O sol se espreguiçava preguiçosamente sobre o horizonte, tingindo o céu de Salvador com tons vibrantes de laranja e rosa. Lucas observava a paisagem da varanda do seu quarto, o café da manhã intocado em uma mesinha ao lado. As conversas com Gabriel na noite anterior ainda ecoavam em sua mente, como um sonho vívido que se recusava a desaparecer.
Ele não conseguia acreditar. Gabriel. Em Salvador. E a forma como eles se reencontraram, quase como um roteiro de novela. Aquele olhar no auditório, a conversa hesitante na praia… tudo parecia ter sido orquestrado pelo destino para colocá-los frente a frente novamente.
Daniel o encontrou, como de costume, com um sorriso nos lábios e uma energia que contrastava com a melancolia de Lucas. “E aí, dorminhoco! Pronto para mais um dia de ‘advocacia de ponta’? Ou você ainda está sonhando com a noite de ontem?” Daniel piscou, o tom malicioso evidente.
Lucas sorriu, um sorriso mais leve desta vez. “Bom dia, Dan. Sem sonhos, só muita coisa para processar.”
“Ah, é a cidade? Ou alguma moça baiana te roubou o coração?”, Daniel provocou, sentando-se na cama.
“Não é nada disso”, Lucas respondeu, sentindo um rubor subir ao rosto. Ele não podia contar a Daniel sobre Gabriel. Não ainda. Era um assunto muito delicado, muito pessoal. “Só… a cidade me inspira, digamos assim.”
“Se te inspira a ficar pálido e distante, prefiro que a inspiração te dê um pouco mais de cor!”, Daniel brincou, pegando uma fruta da fruteira. “Mas sério, você parece diferente hoje. Mais… leve. A noite de ontem te fez bem?”
Lucas ponderou por um instante. A verdade é que o reencontro com Gabriel, por mais doloroso que fosse, também havia libertado algo dentro dele. A energia reprimida, a saudade guardada, a raiva que ele tentava sufocar. “Talvez sim”, ele admitiu, um suspiro escapando de seus lábios.
O congresso seguiu seu curso, e Lucas se dedicou ao trabalho com uma paixão renovada. As palestras, os debates, as conexões que ele fazia pareciam ter um novo significado. Ele ainda sentia a presença de Gabriel em algum lugar da cidade, como um farol que o guiava e o assustava ao mesmo tempo.
Durante o almoço, ele se permitiu um pequeno luxo. Em vez de ir com Daniel ao restaurante habitual, ele pegou um táxi e se dirigiu a um bairro que Gabriel havia mencionado, um lugar conhecido por seus bares e restaurantes charmosos. Ele não sabia exatamente o que esperava encontrar, talvez apenas a esperança de um novo encontro casual, ou talvez apenas a necessidade de estar perto do universo de Gabriel.
Ele escolheu um pequeno bistrô, com mesas na calçada e um clima boêmio. Pediu um chopp gelado e ficou observando o movimento, o coração antecipando um vislumbre de Gabriel. Cada pessoa que passava, ele a observava com atenção, um misto de ansiedade e esperança.
E então, ele o viu. Gabriel saía de uma loja de artesanato, sorrindo para a vendedora. Estava vestindo uma camisa amarela vibrante, que realçava ainda mais sua pele bronzeada. Lucas sentiu um frio na barriga, uma mistura de euforia e pânico. Deveria ir até ele? Ou fingir que não o viu?
Antes que ele pudesse decidir, Gabriel o avistou. Seus olhos se encontraram, e um sorriso genuíno iluminou seu rosto. Ele se aproximou da mesa de Lucas, com um ar de quem não se importava com as convenções.
“Lucas! Que coincidência adorável.” A voz dele era suave, melodiosa.
Lucas se levantou, o coração batendo forte. “Gabriel. Que bom te ver de novo.”
“O destino parece estar nos juntando, não é?”, Gabriel disse, com um brilho divertido nos olhos. “Você está livre para o almoço?”
Lucas assentiu, incapaz de dizer não. “Sim, estou. E você?”
“Com certeza. A vida é muito curta para desperdiçar encontros inesperados.” Gabriel se sentou à mesa, e a proximidade dele fez o corpo de Lucas formigar.
O almoço foi leve e descontraído. Eles conversaram sobre tudo e nada. Gabriel contou sobre seu trabalho como arquiteto, sobre os projetos que o encantavam, sobre sua paixão por Salvador e sua energia contagiante. Lucas, por sua vez, falou sobre o congresso, sobre sua carreira, sobre seus objetivos. Mas entre as palavras, havia um subtexto, uma corrente subterrânea de emoções não ditas.
“Você parece… diferente, Lucas”, Gabriel comentou, estudando seu rosto. “Mais… sereno. De uns anos para cá.”
Lucas sorriu, um sorriso melancólico. “A vida nos ensina, Gabriel. A gente aprende a lidar com as coisas.” Ele hesitou por um momento, antes de ousar perguntar. “E você? Como você tem estado?”
Gabriel suspirou, o brilho divertido em seus olhos diminuindo um pouco. “A vida tem seus altos e baixos, como para todo mundo. Tive meus momentos difíceis também.” Ele desviou o olhar por um instante, como se estivesse revivendo memórias dolorosas. “Mas aprendi a seguir em frente.”
O silêncio pairou entre eles, um silêncio pesado com as palavras não ditas, com as perguntas que ambos queriam fazer, mas que não tinham coragem. Aquele beijo. Aquela despedida. Os anos de silêncio.
“Por que você foi embora, Gabriel?”, Lucas perguntou, a voz embargada pela emoção que ele não conseguia mais conter.
Gabriel engoliu em seco, seus olhos fixos nos de Lucas. A dor em seu olhar era palpável. “Foi complicado, Lucas. Muito complicado. Eu era jovem, assustado… e as circunstâncias eram… adversas.”
“Adversas? Para quem, Gabriel? Para nós?”, Lucas insistiu, a voz ganhando um tom de mágoa.
Gabriel fechou os olhos por um instante, como se reunindo forças. “Para mim. Para a minha família. Havia muitas expectativas, muitas pressões. Eu não sabia como lidar com tudo aquilo. E o pior erro que eu cometi foi fugir. Fugir de você, fugir de nós.”
Lágrimas se acumularam nos olhos de Lucas. Aquele silêncio de Gabriel, a forma como ele desapareceu sem deixar rastros, havia sido um dos golpes mais duros de sua vida. “Você nem sequer me procurou, Gabriel. Nem uma carta, nem um telefonema. Nada.”
“Eu sei”, Gabriel disse, a voz rouca. “E eu me arrependo amargamente disso todos os dias. Eu fui um covarde. Mas você precisa entender, Lucas… na época, eu achava que era o melhor a fazer. Que eu estava te protegendo.”
“Protegendo de quê, Gabriel?”, Lucas perguntou, a voz embargada. “De amar?”
Gabriel o encarou, seus olhos castanhos marejados. “De tudo. De uma vida que eu não tinha certeza se poderia oferecer. De um futuro incerto. E, principalmente, de me expor a um julgamento que eu não estava preparado para enfrentar.”
A menção de “julgamento” fez Lucas recuar um pouco. Ele sabia a que Gabriel se referia. Naquela época, a sociedade ainda era muito mais conservadora, e a ideia de um relacionamento entre dois homens era vista com desaprovação por muitos.
“Mas nós não precisávamos de ninguém, Gabriel. Precisávamos apenas um do outro”, Lucas sussurrou, a voz falhando.
Gabriel estendeu a mão, hesitante, e a pousou sobre a de Lucas, que estava sobre a mesa. O toque foi elétrico, um choque que percorreu todo o corpo de Lucas. “Eu sei. E eu nunca me perdoei por não ter percebido isso na época. Eu perdi o melhor que a vida poderia me dar.”
Os dois homens ficaram ali, as mãos entrelaçadas, os olhares fixos um no outro. O barulho do restaurante parecia ter desaparecido. Era como se o tempo tivesse voltado atrás, para o momento em que seus corações bateram em uníssono, antes que o medo e as convenções os separassem.
“Eu sinto tanto a sua falta, Lucas”, Gabriel sussurrou, a voz embargada.
Lucas fechou os olhos, sentindo as lágrimas quentes rolarem por seu rosto. A dor de anos se misturava a uma esperança recém-descoberta. “Eu também, Gabriel. Eu também.”
A ponte entre o passado e o presente parecia ter sido finalmente construída. A conversa, dolorosa e honesta, havia aberto as feridas, mas também plantado as sementes para uma possível cura. O amor inesperado, que havia retornado para assombrá-lo, agora parecia oferecer uma nova chance.
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Capítulo 4 — A Sombra da Dúvida
Os dias seguintes em Salvador foram um turbilhão de emoções para Lucas. As manhãs eram dedicadas ao congresso, onde ele se destacava com sua inteligência e eloquência, conquistando a admiração de seus colegas. As tardes e noites, porém, eram preenchidas por encontros com Gabriel.
Eles se revezavam entre o charmoso bistrô onde se reencontraram e passeios pela cidade histórica. Caminhavam de mãos dadas pelas ladeiras de Pelourinho, o som dos tambores ecoando ao fundo, as cores vibrantes das igrejas e casarões servindo de cenário para a reconstrução de seu amor. Gabriel mostrava a Lucas os seus lugares favoritos, os cantos que ele frequentava, os espaços que ele havia transformado com seu talento de arquiteto.
A cada encontro, a cada conversa, as barreiras que os separavam pareciam desmoronar. A dor de anos dava lugar a uma cumplicidade renovada, a um desejo que se reacendia com uma força avassaladora. Os beijos que trocavam eram intensos, urgentes, como se quisessem recuperar o tempo perdido em uma única noite. As carícias eram carregadas de saudade e de um amor que, apesar de tudo, nunca havia morrido.
“Eu não consigo acreditar que estamos aqui, Lucas”, Gabriel dizia, a voz rouca de emoção, enquanto eles se abraçavam em uma das varandas com vista para o mar. “Parece um sonho.”
“É real, Gabriel”, Lucas respondia, acariciando o rosto de Gabriel. “É real.”
No entanto, por trás da euforia e da paixão avassaladora, uma sombra persistente começava a se infiltrar na mente de Lucas. A dúvida. A pergunta que martelava em sua cabeça: seria Gabriel realmente capaz de mudar? De superar o medo que o fez fugir anos atrás? Ou seria este reencontro apenas um breve interlúdio, antes que a realidade o forçasse a se afastar novamente?
Daniel, percebendo a mudança em Lucas, tentava sondá-lo, mas Lucas se mantinha evasivo. Ele não queria expor seu novo relacionamento, nem as incertezas que o acompanhavam.
“Você está mais radiante, Lucas”, Daniel comentou em uma noite, enquanto jantavam. “Parece que a cidade baiana te fez mais do que bem. E aí, quem é a sortuda?”
Lucas sorriu, disfarçando a tensão. “Ninguém, Dan. Só estou… feliz. Pela primeira vez em muito tempo.”
“Entendi”, Daniel disse, com um sorriso que não escondia a desconfiança. “Mas se um dia essa ‘felicidade’ tiver nome e sobrenome, e não for uma advogada de terninho, me conta, tá?”
A preocupação de Daniel era válida. Lucas sabia que a revelação de seu relacionamento com Gabriel poderia gerar questionamentos, e ele não estava preparado para enfrentá-los, nem para lidar com o possível julgamento.
Certa tarde, enquanto caminhavam pela praia, o sol se pondo em um espetáculo de cores, Gabriel parou e segurou o rosto de Lucas entre as mãos.
“Lucas, eu preciso te dizer uma coisa”, ele começou, a voz séria. “Eu sei que fui um covarde anos atrás. E sei que te causei muita dor. Mas eu nunca te esqueci. Nunca. E agora que te reencontrei, eu não quero mais fugir. Eu quero construir algo com você. Eu te amo, Lucas.”
As palavras de Gabriel atingiram Lucas como um raio. A confissão, tão esperada, era ao mesmo tempo reconfortante e assustadora. Ele amava Gabriel, disso não havia dúvida. Mas a sombra da dúvida ainda pairava.
“Eu também te amo, Gabriel”, Lucas respondeu, a voz embargada. “Mas… o que você disse sobre a família? Sobre as pressões? Elas ainda existem?”
Gabriel suspirou, o olhar desviando por um instante. “As coisas mudaram um pouco, mas… sim, ainda existem. Minha família é bastante tradicional, e eles têm expectativas sobre mim. Mas eu não quero mais que isso me defina. Eu não quero mais que isso me afaste de você.”
Lucas sentiu um aperto no peito. A confirmação das suas maiores inseguranças. Aquele amor que parecia tão promissor, corria o risco de ser novamente engolido pelas circunstâncias que os separaram no passado.
“Eu não sei, Gabriel”, Lucas disse, a voz baixa. “Eu quero acreditar em você. Mas o passado… ele é um fantasma difícil de apagar.”
Gabriel apertou a mão de Lucas com mais força. “Eu sei. E eu não te peço para apagar o passado, Lucas. Eu te peço para construir um futuro comigo. Um futuro onde nós sejamos mais fortes que qualquer medo, mais fortes que qualquer pressão.”
Eles se beijaram ali, na beira do mar, um beijo carregado de promessas e de incertezas. O amor era inegável, mas a sombra da dúvida persistia, sussurrando em seus ouvidos que o caminho à frente não seria fácil.
Na noite seguinte, Lucas e Gabriel foram a um evento do congresso. Era uma recepção formal, com música ao vivo e muitas personalidades importantes. Lucas estava apresentando um caso complexo e esperava fazer contatos valiosos. Gabriel, por sua vez, estava ali como seu acompanhante, um suporte que o deixava mais confiante.
Enquanto conversavam com um dos diretores de um grande escritório de advocacia, Lucas sentiu um olhar fixo sobre ele. Virou-se e viu, do outro lado do salão, um homem de meia-idade, com um semblante severo e um olhar de desaprovação. Ele não conhecia o homem, mas sentiu uma onda de desconforto.
Gabriel, percebendo a distração de Lucas, perguntou: “Tudo bem?”
“Sim, tudo bem”, Lucas respondeu, desviando o olhar do homem misterioso. “Só me senti observado.”
Mais tarde, quando eles estavam pegando uma bebida, o homem se aproximou deles.
“Com licença”, ele disse, dirigindo-se a Lucas. “Você deve ser o Dr. Lucas Almeida, certo? Ouvi falar muito bem do seu trabalho. Sou o Dr. Arnaldo Vasconcelos.”
Lucas estendeu a mão, um pouco surpreso. Arnaldo Vasconcelos era uma lenda no mundo jurídico, um dos mais respeitados advogados do país. “Dr. Vasconcelos, é uma honra. Sou um grande admirador do seu trabalho.”
“O prazer é meu”, Vasconcelos respondeu, mas seu olhar se fixou em Gabriel, que estava ao lado de Lucas. Uma expressão de surpresa, seguida de algo que parecia repulsa, cruzou seu rosto. “E quem seria seu… acompanhante?”
Lucas sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A forma como Vasconcelos pronunciou a palavra “acompanhante” foi carregada de um tom sutil, mas inconfundível, de julgamento.
Gabriel, percebendo a tensão, deu um passo à frente e ofereceu a mão. “Gabriel Silva. Prazer em conhecê-lo.”
Vasconcelos apertou a mão de Gabriel com firmeza, mas com um certo desdém. “Silva. Interessante.” Ele voltou seu olhar para Lucas. “Dr. Almeida, fiquei sabendo que você tem um histórico… digamos, complicado. Algumas questões pessoais que podem afetar sua reputação.”
O sangue de Lucas gelou. Como aquele homem sabia disso? E o que ele insinuava? A sombra da dúvida se transformou em um medo palpável.
“Não sei a que o senhor se refere, Dr. Vasconcelos”, Lucas disse, com a voz firme, mas o coração disparado.
“Não se faça de desentendido, Dr. Almeida”, Vasconcelos retrucou, um sorriso irônico brincando em seus lábios. “O mundo jurídico é pequeno. E todos sabemos sobre as suas… inclinações.”
Gabriel se posicionou mais perto de Lucas, um gesto protetor. “Com todo o respeito, Dr. Vasconcelos, as inclinações pessoais do Lucas não dizem respeito ao seu trabalho, que é impecável.”
Vasconcelos ignorou Gabriel e voltou a encarar Lucas. “Eu não estou aqui para julgar, Dr. Almeida. Estou apenas te alertando. Uma carreira tão promissora como a sua pode ser arruinada por escândalos. Especialmente no nosso meio.” Ele deu um último olhar de advertência para Lucas, antes de se virar e se afastar.
Lucas ficou parado, o corpo trêmulo. Aquele encontro, aquela conversa, havia plantado uma semente de dúvida ainda maior em seu coração. O medo de que Gabriel, assim como anos atrás, fosse a causa de sua própria ruína.
Gabriel o abraçou, sentindo a tensão de Lucas. “Lucas, não dê ouvidos a ele. É um velho preconceituoso.”
“Mas como ele soube, Gabriel? Como ele sabe sobre nós?”, Lucas perguntou, a voz embargada. “Ele disse que nosso relacionamento poderia arruinar minha carreira. Você acha que… que isso é verdade?”
Gabriel o apertou mais forte. “Lucas, não deixe que o medo te domine. O que tivemos anos atrás foi por causa do meu medo. Eu não vou deixar isso acontecer de novo. Eu te amo, e nós vamos superar isso juntos.”
Mas Lucas não conseguia apagar a imagem do rosto de Vasconcelos, a insinuação de seu aviso. A sombra da dúvida se tornara uma escuridão ameaçadora.
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Capítulo 5 — A Fenda na Armadura
Os dias que se seguiram foram tingidos por uma tensão sutil. Lucas tentava se manter focado no congresso, nos seus compromissos profissionais, mas a conversa com Dr. Vasconcelos ecoava em sua mente como um presságio sombrio. A cada olhar que recebia, Lucas se perguntava se as pessoas sabiam, se comentavam, se julgavam. A fama de Vasconcelos no meio jurídico era tão grande que suas palavras pareciam ter um peso e uma credibilidade que Lucas não podia ignorar.
Gabriel, percebendo a apreensão de Lucas, fazia o possível para confortá-lo. Ele o buscava após as palestras, o abraçava com força, sussurrava palavras de amor e encorajamento. Mas Lucas, apesar de sentir o amor de Gabriel, não conseguia afastar completamente o medo.
“Lucas, você precisa parar de se preocupar com o que os outros pensam”, Gabriel disse em uma noite, enquanto eles estavam em um restaurante mais afastado, longe dos holofotes do congresso. “Nós sabemos o que temos. E isso é o que importa.”
“Eu sei, Gabriel”, Lucas suspirou, mexendo no prato sem fome. “Mas é difícil. Dr. Vasconcelos é uma figura tão influente. E se ele estiver certo? Se nossa relação, se o fato de sermos… nós, puder realmente prejudicar tudo o que eu construí?”
Gabriel segurou a mão de Lucas sobre a mesa. “Prejudicar como, Lucas? Porque você ama um homem? Porque você escolheu viver sua verdade? Isso não é um problema do seu trabalho, é um problema da mentalidade ultrapassada de algumas pessoas como o Vasconcelos.”
“Mas e a sua família, Gabriel?”, Lucas insistiu, a voz carregada de preocupação. “Você disse que ainda existem pressões. E se eles descobrirem? E se isso te trouxer mais problemas? Eu não quero ser a causa de mais sofrimento para você.”
O olhar de Gabriel se tornou mais sério, mas um brilho de determinação surgiu em seus olhos. “Lucas, eu já cometi o erro de deixar o medo me controlar uma vez. Eu não vou cometer o mesmo erro de novo. Minha família pode ter suas opiniões, mas o meu amor por você é mais forte do que qualquer desaprovação. Eu escolho você, Lucas. E se houver barreiras, nós vamos derrubá-las juntos.”
A sinceridade nas palavras de Gabriel era palpável, mas a fenda na armadura de Lucas já havia sido aberta. A insegurança, alimentada pelas décadas de repressão e pela influência de figuras como Vasconcelos, era profunda.
No dia seguinte, Lucas teve um encontro marcado com um dos sócios de um escritório de advocacia de renome. Era uma oportunidade única, um passo importante em sua carreira. A reunião aconteceu em um dos escritórios mais luxuosos da cidade, com vista panorâmica para o mar.
O sócio, Dr. Fernando Costa, era um homem cordial e profissional. A conversa fluía bem, e Lucas sentiu que estava impressionando-o. No entanto, quando a reunião estava chegando ao fim, Dr. Costa fez uma pergunta inesperada.
“Dr. Almeida, posso fazer uma pergunta um tanto pessoal, mas que considero importante para avaliarmos nossa possível parceria?”
Lucas assentiu, o coração acelerado. “Claro, Dr. Costa.”
“Ouvi rumores, vindos de fontes bastante confiáveis, sobre sua… relação pessoal com um arquiteto local. Algo que pode ter sido comentado no congresso. Isso procede?”
Lucas sentiu o chão sumir sob seus pés. A sombra de Vasconcelos pairava sobre aquela sala, sobre aquela pergunta. Ele podia negar, inventar uma história. Mas a verdade é que a ideia de mentir para Dr. Costa, de mais uma vez esconder quem ele era, parecia insuportável.
Ele olhou para Dr. Costa, buscando algum sinal de receptividade, de compreensão. “Sim, Dr. Costa, procede. Eu estou em um relacionamento com Gabriel Silva.”
Dr. Costa assentiu lentamente, seu rosto impassível. “Entendo. Agradeço sua honestidade, Dr. Almeida. Isso nos dá mais um ponto para considerarmos.”
Lucas saiu do escritório com um misto de alívio e apreensão. Ele havia sido honesto, mas a resposta de Dr. Costa foi ambígua. Ele não sabia se isso significava um avanço ou um retrocesso.
Naquela noite, Lucas decidiu ser totalmente transparente com Gabriel. Eles estavam sentados na varanda do hotel, observando as luzes da cidade.
“Gabriel, eu… eu fui honesto com o Dr. Costa hoje”, Lucas disse, a voz trêmula. “Eu contei a ele sobre nós.”
Gabriel se virou para ele, os olhos cheios de expectativa. “E o que ele disse?”
“Ele foi… vago. Mas eu sinto que isso pode ter complicado as coisas. Aquele aviso do Dr. Vasconcelos… ele pode ter plantado uma semente de dúvida em outras pessoas também.” Lucas se cobriu com os braços, como se sentisse frio. “Eu não quero te prejudicar, Gabriel. Eu não quero que você seja o motivo de eu perder essa oportunidade.”
Gabriel se aproximou e o abraçou com força. “Lucas, por favor, não pense assim. O que temos é algo especial. E se esse homem, ou qualquer outro, te julgar por amar quem você ama, o problema não é seu, é deles. É a fraqueza deles, não a sua.”
Ele se afastou um pouco, segurando o rosto de Lucas. “Eu te amo. E não vou deixar que o medo de ninguém nos separe. Se essa oportunidade for realmente para você, ela virá. E se não vier, é porque o destino tem algo melhor guardado para nós. Mas nós vamos enfrentar isso juntos, com a cabeça erguida.”
Lucas olhou nos olhos de Gabriel, buscando a força que ele emanava. Aquele amor, por mais inesperado e turbulento que fosse, era a âncora que o mantinha em pé. A fenda em sua armadura ainda estava lá, mas o amor de Gabriel parecia ser a única coisa capaz de preenchê-la. Talvez, apenas talvez, eles pudessem construir um futuro juntos, um futuro onde o amor fosse mais forte que qualquer sombra do passado. A luta seria árdua, mas pela primeira vez em muito tempo, Lucas sentiu uma ponta de esperança, um vislumbre de que o amor, em sua forma mais pura e inesperada, poderia realmente vencer.
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