Amor Inesperado II
Capítulo 14 — A Armadilha em Minas Gerais e um Pacto de Sangue
por Davi Correia
Capítulo 14 — A Armadilha em Minas Gerais e um Pacto de Sangue
O ronco do motor desgastado era a trilha sonora da urgência. Miguel dirigia com a destreza de um piloto de fuga, os olhos fixos na estrada escura que serpenteava pelas montanhas de Minas Gerais. Ao seu lado, Rafael olhava para trás com uma mistura de medo e determinação, o corpo tenso a cada curva acentuada. A fuga de Vale Sereno havia sido precipitada, impulsionada pelo pânico e pela certeza de que Marcos os havia encontrado. Aquele refúgio, tão sonhado, se transformara em uma armadilha.
"Você tem certeza que é para cá, Mi?", perguntou Rafael, a voz quase inaudível sob o barulho do vento.
"Sim. É para uma cidadezinha que meu pai frequentava quando era jovem. Chamam de Encruzilhada. Dizem que é um lugar isolado, onde as pessoas se conhecem, mas não se intrometem muito na vida alheia", explicou Miguel, a voz tensa. "Precisamos de um lugar onde possamos sumir por um tempo."
A viagem noturna era longa e exaustiva. Paravam apenas o estritamente necessário, o medo de serem seguidos os impulsionando a seguir adiante. A cada farol que se aproximava na escuridão, o coração de Miguel disparava. A imagem do homem que viram em Vale Sereno, um capanga inconfundível de Marcos, assombrava seus pensamentos. Eles não desistiriam. Não os deixariam em paz.
Ao amanhecer, chegaram a Encruzilhada. A cidade era ainda menor que Vale Sereno, um punhado de casas empoeiradas ao redor de uma praça principal com uma igreja centenária. O ar era seco e quente, o sol impiedoso castigava a terra rachada. O lugar parecia abandonado, esquecido pelo tempo.
Miguel e Rafael encontraram uma pousada modesta, um casarão antigo com quartos simples e um cheiro de mofo persistente. A dona da pousada, Dona Florinda, uma senhora de cabelos brancos e olhar desconfiado, os recebeu com poucas palavras. O estranhamento dos recém-chegados era evidente no rosto dos poucos moradores que cruzavam seu caminho.
"Precisamos ser discretos aqui, Rafa", disse Miguel, enquanto descarregavam as poucas malas que trouxeram. "Qualquer deslize pode nos entregar."
Rafael assentiu, a sensação de estar sendo observado o incomodava. O silêncio de Encruzilhada era quase palpável, mas por trás dele, Miguel sentia uma tensão subjacente, como se algo estivesse prestes a explodir.
Os dias se arrastavam em um ritmo lento e angustiante. Miguel tentava pesquisar discretamente por informações sobre Marcos e seus contatos, usando a internet precária da pousada. Rafael, com sua câmera, tentava encontrar beleza na aridez da paisagem, mas a sombra da perseguição pairava sobre ele, ofuscando a inspiração.
Em uma tarde particularmente quente, enquanto caminhavam pela periferia da cidade, foram abordados por um homem corpulento, de rosto marcado e olhar penetrante. Ele se apresentou como Joaquim, um trabalhador rural da região.
"Vocês não são daqui, não é?", disse Joaquim, a voz grave e arrastada. "São os meninos que chegaram na pousada da Dona Florinda?"
Miguel e Rafael se entreolharam, a desconfiança tomando conta. "Somos sim", respondeu Miguel, tentando manter a calma. "Estamos de passagem."
Joaquim soltou uma risada seca. "Passagem que dura semanas? Ninguém vem a Encruzilhada por acaso. Ou então, estão fugindo de algo."
A franqueza de Joaquim era perturbadora. Miguel sentiu um arrepio na espinha. Seria ele um informante de Marcos?
"Não estamos fugindo de nada", mentiu Miguel, o olhar firme.
Joaquim os encarou por um longo momento, um sorriso enigmático nos lábios. "Entendo. Mas se precisarem de alguma coisa... algum favor... podem me procurar. Eu conheço essa terra como a palma da minha mão. E sei como lidar com quem não é bem-vindo."
Ele lhes deu um cartão de visitas improvisado, um pedaço de papel amassado com um número de telefone rabiscado. Em seguida, se virou e caminhou de volta para o interior, desaparecendo entre as casas simples e os quintais empoeirados.
"Ele está nos observando, Mi", disse Rafael, a voz baixa e tensa. "Aquele homem não é o que parece."
Miguel pegou o cartão, a mão tremendo levemente. "Seja o que for, ele sabe que não estamos aqui por turismo. Precisamos ter cuidado redobrado."
Naquela noite, Miguel não dormiu. Sentado na beira da cama, com a luz fraca do abajur iluminando seu rosto, ele relembrou os planos que havia traçado, as esperanças que nutria. A fuga para Encruzilhada parecia ter caído em um poço sem fundo.
De repente, ouviu um barulho vindo da porta. Alguém estava tentando arrombá-la. Pânico tomou conta dele.
"Rafa, levanta! Temos que sair daqui!", gritou Miguel, acordando Rafael bruscamente.
Enquanto Miguel tentava trancar a porta, Rafael se levantou, pegando a mochila com os documentos. A porta cedeu com um estalo, revelando a figura alta e corpulenta de Joaquim, flanqueado por dois homens de aspecto ameaçador.
"Eu disse que conhecia essa terra", disse Joaquim, um sorriso cruel no rosto. "E que sabia lidar com quem não é bem-vindo."
Miguel sentiu o desespero o invadir. Estavam cercados, sem saída.
"O que vocês querem?", perguntou Miguel, a voz firme apesar do medo.
"O senhor Marcos quer vocês de volta", respondeu um dos homens, a voz grossa. "E ele não gosta de ser contrariado."
Nesse momento, Rafael teve uma ideia arriscada. Ele se lembrou do número de telefone que Joaquim havia dado.
"Joaquim!", chamou Rafael, a voz surpreendentemente calma. "Se você está trabalhando para Marcos, ele te paga bem, não é? Imagine quanto ele pagaria para ter Miguel e eu vivos. Ou para ter certeza de que nunca mais voltaremos a São Paulo."
Joaquim o olhou, o sorriso vacilando. "O que você quer dizer com isso, garoto?"
"Quero dizer que podemos ser mais úteis vivos do que mortos para o seu patrão. Ou então... podemos sumir para sempre. E o senhor Marcos pode nunca mais nos encontrar. Ou encontrar quem nos ajudou a sumir."
Um silêncio tenso se instalou. Os capangas de Marcos olharam para Joaquim, esperando uma ordem. Joaquim ponderou por um momento, seus olhos vasculhando os de Miguel e Rafael. Ele parecia ter um conflito interno, uma batalha entre a lealdade a Marcos e a oportunidade de lucro.
Finalmente, Joaquim deu um passo à frente, afastando os capangas. "Tenho um acordo a propor. Me deem uma quantia considerável agora. E prometam que nunca mais pisarão em São Paulo. Em troca, eu garanto que ninguém de Encruzilhada ou arredores contará a Marcos onde vocês estiveram. E se ele insistir em procurar... eu farei ele acreditar que vocês sumiram para sempre."
Miguel e Rafael se entreolharam. Era uma aposta arriscada, um pacto de sangue com um homem de moral duvidosa. Mas era a única chance que tinham.
"Aceitamos", disse Miguel, a voz firme. Ele pegou a carteira, tirando todo o dinheiro que tinham.
Joaquim pegou o dinheiro, contando rapidamente. Em seguida, fez um sinal para os capangas. "Vão embora. Deixem os rapazes em paz. Se eu souber que algum de vocês disse uma palavra sobre isso, vai se arrepender."
Os capangas saíram, resmungando. Joaquim se virou para Miguel e Rafael. "Vocês têm sorte que eu sou um homem de palavra. Agora, sumam daqui. E não voltem nunca mais."
Ele se virou e saiu da pousada, deixando Miguel e Rafael sozinhos no quarto desarrumado, o cheiro de medo e de incerteza pairando no ar. O pacto de sangue estava selado. A armadilha em Minas Gerais os havia forçado a tomar uma decisão drástica, mas, de alguma forma, eles haviam encontrado uma saída, um caminho para a liberdade, mesmo que temporário.