Amor Inesperado II
Capítulo 7 — O Segredo Revelado e a Fúria Contida
por Davi Correia
Capítulo 7 — O Segredo Revelado e a Fúria Contida
O ar no café parecia ter ficado rarefeito após a partida de Sofia. Lucas observava Gabriel, cujo rosto estava tenso, as linhas de preocupação marcadas em sua testa. A ameaça velada de Sofia, a menção a um "associado" implacável, tudo ecoava a turbulência que Gabriel tentava esconder. Lucas sentia uma mistura de raiva e preocupação. Raiva pela forma como Sofia o tratara, e preocupação com o que aquilo significava para Gabriel.
"Quem é esse 'associado', Gabriel?", Lucas perguntou, a voz baixa, mas firme. Ele não podia mais aceitar ser deixado na ignorância. Aquele beijo, aquele momento de intimidade, o aproximara demais para que ele pudesse se afastar agora.
Gabriel suspirou, esfregando as têmporas. Ele parecia exausto, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros. "Não é algo que você precise se preocupar, Lucas."
"Não me diga que eu não preciso me preocupar!", Lucas exclamou, a voz um pouco mais alta, chamando a atenção de algumas mesas próximas. "Você acha que eu não percebi o perigo? A Sofia não veio aqui à toa. Ela veio te intimidar. E eu estou envolvido nisso agora, quer você queira, quer não."
Gabriel o encarou, os olhos escuros faiscando de uma emoção que Lucas não conseguia decifrar. Era raiva? Medo? Desespero? "Você não tem ideia do que está falando, Lucas. Eu estou tentando te proteger."
"Proteger? Me mantendo no escuro? Me dizendo que tudo foi um 'momento de fraqueza' quando eu senti que era muito mais?", Lucas retrucou, a voz embargada pela emoção. A mágoa de ser descartado, de ter seus sentimentos minimizados, era profunda. "Eu não preciso ser protegido como uma criança, Gabriel. Eu preciso de honestidade. Eu preciso saber o que está acontecendo."
O silêncio que se seguiu foi denso. Gabriel lutava internamente, cada fibra de seu ser dividido entre a necessidade de proteger Lucas e o desejo avassalador de confiar nele, de compartilhar o fardo que o oprimia. Ele fechou os olhos por um instante, como se buscasse coragem nas profundezas de sua alma.
"Está bem", Gabriel disse, a voz rouca. Ele olhou diretamente nos olhos de Lucas, e pela primeira vez, Lucas viu a verdade crua, a dor que Gabriel carregava. "Você quer saber? Você quer a verdade? Eu te direi. Mas prometa que você vai tentar entender."
Lucas assentiu, o coração batendo acelerado. Ele estava pronto para qualquer coisa.
Gabriel começou a contar sua história, a voz embargada pela emoção. Falou sobre seu pai, um empresário honesto que foi traído e arruinado por um sócio inescrupuloso, um homem conhecido como "O Mestre", um indivíduo poderoso e sem escrúpulos que controlava uma vasta rede de negócios ilícitos. Seu pai, humilhado e sem recursos, tirou a própria vida.
"Minha mãe e eu ficamos sem nada", Gabriel continuou, os olhos marejados. "Eu jurar para mim mesmo que me vingaria. Que faria justiça ao meu pai. E foi isso que eu passei os últimos anos planejando. Eu me infiltrei nesse mundo, construí minha própria rede, para um dia confrontar O Mestre. Mas ele é astuto, Lucas. Ele está sempre um passo à frente. E agora, ele está me pressionando. Ele sabe que eu estou perto, e ele não vai hesitar em eliminar qualquer um que possa me atrapalhar."
Lucas ouvia atentamente, absorvendo cada palavra. Ele nunca imaginara que Gabriel estivesse envolvido em algo tão perigoso, tão sombrio. A imagem do homem que o beijara, do artista sensível que ele conhecera, contrastava violentamente com a realidade de um homem em busca de vingança em um mundo de crimes e traições.
"E Sofia?", Lucas perguntou, a voz trêmula.
"Sofia é uma das peças no tabuleiro dele", Gabriel explicou. "Ela é ambiciosa e cruel. Usa quem puder para subir na vida. Ela sabe que eu estou em uma posição delicada, e está tentando me manipular. Ela foi a pessoa que me apresentou a ele anos atrás, pensando que eu seria apenas mais um peão. Mas ela não sabe que eu sei de tudo."
A revelação foi avassaladora. Lucas sentiu uma onda de compaixão por Gabriel, e uma admiração renovada por sua força e determinação. Mas, ao mesmo tempo, o medo o atingiu. Se Gabriel estava em perigo, ele também estava.
"Eu não sabia", Lucas sussurrou, estendendo a mão para cobrir a de Gabriel sobre a mesa. "Eu sinto muito, Gabriel. Por tudo."
Gabriel entrelaçou seus dedos, um gesto que transmitiu mais do que mil palavras. Seus olhos, antes repletos de dor, agora mostravam um vislumbre de esperança, de alívio por finalmente ter compartilhado seu fardo. "Eu não queria te envolver nisso, Lucas. Mas depois do que aconteceu entre nós… eu não consigo mais esconder nada de você."
"O que aconteceu entre nós", Lucas repetiu, o olhar fixo no de Gabriel, "foi algo real. E não é um erro, Gabriel. É um sentimento. E eu não tenho medo de me envolver. Eu quero me envolver. Eu quero te ajudar."
Gabriel sorriu, um sorriso genuíno e desarmador que iluminou seu rosto. "Você é corajoso, Lucas. Mais do que eu jamais imaginei."
"E você é forte, Gabriel. Mais forte do que você pensa. Juntos, nós podemos enfrentar qualquer coisa." Lucas apertou a mão dele. Aquele café, antes um lugar de tensão, transformou-se em um refúgio de confiança e cumplicidade.
No entanto, a tranquilidade não durou muito. Enquanto eles se levantavam para ir embora, Lucas sentiu novamente aquela sensação incômoda de estar sendo observado. Ele olhou em volta, mas não viu nada incomum. Apenas o movimento de pessoas e a luz do sol que banhava as ruas. Mas a sensação persistiu, um frio na espinha que não desaparecia.
De volta ao apartamento, a conversa continuou. Eles passaram horas discutindo os detalhes, os planos de Gabriel, as ameaças que pairavam sobre eles. Lucas, com sua mente criativa e perspicaz, começou a oferecer sugestões, a pensar em estratégias que pudessem ajudar Gabriel.
"Precisamos de mais informações sobre O Mestre", Lucas disse, desenhando em um bloco de notas. "Precisamos saber quem são seus contatos, seus pontos fracos. Sofia é uma porta de entrada, mas não a única."
Gabriel observava Lucas com admiração. A energia e a inteligência de Lucas eram contagiantes. Ele se sentia mais forte, mais esperançoso, sabendo que não estava mais sozinho.
"Você tem razão", Gabriel concordou. "Precisamos agir com cautela. Ele é perigoso. Mas com você ao meu lado, sinto que podemos vencer."
A noite caiu sobre o Rio de Janeiro, mas o calor entre Lucas e Gabriel apenas aumentava. A intimidade que nasceu daquele beijo inesperado se aprofundou com a confiança e a verdade compartilhadas. Eles se olharam, um entendimento tácito passando entre eles. As circunstâncias eram perigosas, o futuro incerto, mas em meio à escuridão, uma nova luz de esperança e amor começava a brilhar.
De repente, um barulho estrondoso vindo da rua os fez pular. Uma explosão? Gritos de pânico se seguiram. Lucas e Gabriel correram para a janela. Carros em chamas, pessoas correndo em desespero. Uma emboscada.
Gabriel agarrou Lucas pelo braço. "Fique atrás de mim!", ele ordenou, a voz tensa. A fúria contida em seus olhos se transformou em uma determinação feroz. A vingança, a luta pela sobrevivência, tudo se tornara real e perigoso. E Lucas, o homem que ele começava a amar, estava no meio de tudo isso.