Amor entre Homens

Amor entre Homens

por Enzo Cavalcante

Amor entre Homens

Autor: Enzo Cavalcante

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Capítulo 1 — O Sussurro do Mar e um Encontro Inesperado

A brisa salgada do Atlântico beijava o rosto de Rafael, trazendo consigo o perfume inebriante de maresia e flores tropicais. Ele observava as ondas quebrarem na areia branca da Praia do Forte, em um balé eterno que acalmava sua alma inquieta. O sol, generoso, pintava o céu de tons alaranjados e rosados, anunciando o fim de mais um dia na Bahia, terra que ele escolhera para se esconder, para se redescobrir. Esconder-se de quê? Da dor que o sufocava, da memória de um amor que se desfez em cacos, da cidade grande que o consumia. Salvador, com seus casarões coloniais e sua gente pulsante, era um refúgio, mas, por vezes, um lembrete constante do que ele havia deixado para trás.

Rafael, um arquiteto renomado de São Paulo, agora se sentia um estranho em sua própria pele. Aos trinta e cinco anos, a vida lhe parecia um projeto inacabado, cheio de pontes derrubadas e fundações abaladas. O divórcio, amargo e inesperado, havia sido o golpe final. Deixara-o com um vazio imenso, um silêncio ensurdecedor nos corredores de seu apartamento luxuoso. A arte, antes sua paixão, parecia ter perdido a cor. As linhas retas e precisas de seus projetos agora eram retorcidas pela angústia. Por isso, a ideia de se refugiar em uma pousada charmosa, longe de tudo e de todos, soara como um bálsamo.

Ele respirou fundo, sentindo o ar puro preencher seus pulmões, como se expulsasse as toxinas da tristeza. As palmeiras balançavam preguiçosamente, suas folhas sussurrando segredos antigos. Era um lugar de beleza serena, um convite à contemplação. Rafael fechou os olhos, tentando se conectar com aquela paz que parecia emanar de cada grão de areia, de cada onda.

Foi então que uma risada contagiante, clara e vibrante como o som de sinos ao vento, rompeu o silêncio melancólico. Rafael abriu os olhos, curioso. Não muito longe, na beira da água, um jovem corria atrás de uma bola, com um sorriso que iluminava seu rosto. Ele devia ter uns vinte e poucos anos, com cabelos escuros e rebeldes que o vento insistia em bagunçar, e uma pele bronzeada que parecia beijada pelo sol. Vestia um short de banho azul, revelando pernas fortes e um corpo esguio, mas atlético. A cada passo, a água espirrava ao seu redor, criando pequenas auroras boreais.

Rafael o observou por um instante, cativado. Havia uma alegria genuína naquela figura, uma leveza que ele sentia ter perdido há muito tempo. O jovem, em sua busca pela bola, parou de repente, ofegante, e se virou na direção de Rafael. Seus olhos, de um castanho profundo, encontraram os de Rafael, e um leve rubor tingiu suas bochechas. Ele sorriu, um sorriso um pouco tímido, mas sincero.

"Desculpe se incomodei", disse o jovem, sua voz soando um pouco rouca, mas melodiosa. "Estava distraído com a bola."

Rafael sentiu um calor subir pelo pescoço. Ele não estava acostumado a ser notado, muito menos a ser o centro de um olhar tão intenso. "De forma alguma", respondeu Rafael, tentando manter a voz firme. "É um espetáculo lindo. A alegria de quem está em casa."

O jovem riu novamente, um som que fez o coração de Rafael bater um pouco mais rápido. "Em casa? Não exatamente. Sou de Salvador, mas venho passar alguns dias aqui sempre que posso. É um lugar mágico." Ele se aproximou, hesitante, e estendeu a mão. "Me chamo Léo."

Rafael apertou a mão que lhe foi oferecida. A pele de Léo era quente e ligeiramente úmida. "Rafael. Prazer em conhecê-lo, Léo."

"O prazer é meu, Rafael. Você parece pensativo. Fugindo do calor da cidade?" Léo fez uma pausa, seus olhos inquisitivos percorrendo o rosto de Rafael. Havia uma inteligência perspicaz em seu olhar, algo que ia além da superficialidade.

Rafael hesitou por um momento. A sinceridade de Léo o desarmava. "Algo assim. Precisava de um pouco de paz."

"Aqui tem de sobra", Léo concordou, sentando-se na areia, a uma distância respeitosa. A bola rolou preguiçosamente até seus pés. "E você, o que te traz a este paraíso?"

Rafael sentou-se também, sentindo a areia morna sob seus dedos. Contar sobre seus problemas parecia surreal, mas algo em Léo o inspirava confiança. "Terminei um relacionamento. Preciso de tempo para juntar os cacos." A palavra "cacos" soou como um eco em sua própria mente.

Léo assentiu, seus olhos expressando uma compreensão silenciosa. Ele não fez perguntas invasivas, apenas um leve aceno de cabeça. "Relacionamentos podem ser traiçoeiros. Como um mar agitado."

Rafael sorriu levemente. "Exatamente. E eu acho que naufraguei."

"Mas todo naufrágio é uma oportunidade de construir um novo barco", Léo disse, com uma convicção surpreendente. Ele pegou a bola e a girou entre as mãos. "Eu sou artista também. Escultor. Sei como é sentir o barro fugir das mãos quando a inspiração se vai, ou quando a vida te joga contra a parede."

"Escultor? Que interessante", Rafael comentou, genuinamente curioso. "Eu sou arquiteto. Desenho casas, prédios. Coisas sólidas. Talvez por isso a fragilidade humana me surpreenda tanto."

"Mas as coisas sólidas também podem desmoronar, não é?", Léo retrucou, com um brilho divertido nos olhos. "E a fragilidade, às vezes, é o que nos torna mais fortes, de um jeito que nem percebemos."

Eles ficaram em silêncio por um momento, ouvindo o som das ondas, a brisa. Era um silêncio confortável, preenchido pela presença um do outro. O sol já se punha completamente, pintando o céu com cores ainda mais vibrantes. As primeiras estrelas começavam a pontilhar o firmamento escuro.

"Você é muito jovem para ter essa sabedoria", Rafael disse, um sorriso se formando em seus lábios.

Léo deu de ombros. "A vida não tem idade, Rafael. Ela acontece. E a gente aprende. Ou tenta." Ele se levantou, esticando o corpo. "Preciso ir. Meu avô deve estar me esperando com o jantar. Ele é um pescador aposentado e um cozinheiro de mão cheia."

"Parece ótimo", Rafael respondeu, sentindo uma pontada de melancolia com a iminência da despedida.

"Se você estiver por aqui amanhã, quem sabe a gente não se encontra de novo?", Léo sugeriu, seus olhos castanhos brilhando sob a luz fraca. "Posso te mostrar umas cachoeiras escondidas por aqui. Um lugar perfeito para pensar, longe de tudo."

Rafael sentiu seu coração dar um salto. A ideia de passar mais tempo com Léo, de explorar aquele paraíso com ele, era tentadora. "Eu adoraria, Léo. Seria ótimo."

"Combinado então. Até amanhã, Rafael." Léo acenou com a mão e se afastou, correndo novamente pela areia, agora em direção à vila, sua figura se perdendo na escuridão crescente.

Rafael ficou ali, sentado, observando o mar. A solidão ainda pairava, mas agora havia algo mais. Um leve fio de esperança, um aroma de possibilidade no ar salgado. O encontro com Léo, aquele jovem de sorriso radiante e olhar profundo, havia sido um raio de sol inesperado em seu céu nublado. O mar, que antes parecia um espelho de sua própria dor, agora sussurrava promessas de renovação. E naquele sussurro, Rafael sentiu que talvez, apenas talvez, seu naufrágio pudesse ser o início de uma nova e inesperada viagem.

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