Paixão Proibida II

Paixão Proibida II

por Enzo Cavalcante

Paixão Proibida II

Autor: Enzo Cavalcante

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Capítulo 1 — O Encontro Sob a Chuva de Agosto

A noite caía pesada sobre a cidade, densa como a saudade que apertava o peito de Rafael. O ar frio de agosto, incomum para a época, trazia consigo um prenúncio de tempestade que parecia ecoar a turbulência em sua alma. As luzes de neon dos bares e restaurantes da Lapa cintilavam como promessas vazias, refletindo nas poças d’água que começavam a se formar nas ruas de paralelepípedos. Rafael, com o colarinho do paletó erguido contra o vento gelado, apressava o passo, buscando o abrigo de seu apartamento, um refúgio seguro onde as memórias de um amor impossível poderiam ser, por algumas horas, silenciadas.

Ele se lembrava vividamente da última vez que a chuva o pegara desprevenido. Não, não era a chuva em si que o assombrava, mas quem o acompanhava naquele dia. Um rosto que teimava em despontar em seus sonhos, um sorriso que, mesmo após anos, ainda era capaz de fazer seu coração disparar em um ritmo descompassado. Daniel. O nome soava como um sussurro proibido em seus lábios, um eco de uma paixão que ele jurara ter enterrado nas profundezas de sua existência.

A cada passo, a Lapa parecia se transformar em um palco de lembranças. O bar onde haviam compartilhado o primeiro olhar cúmplice, a viela escura onde a hesitação deu lugar a um beijo roubado, o pequeno café onde prometeram um futuro que nunca chegaria. Rafael fechou os olhos com força, tentando afastar as imagens que se sobrepunham como um filme antigo e desgastado. Ele precisava seguir em frente, construir uma nova vida longe daquele fantasma que o assombrava.

Ao virar uma esquina, um vulto conhecido parou-o. Um choque percorreu seu corpo, um arrepio que nada tinha a ver com o frio. Diante dele, sob a luz fraca de um poste, estava Daniel. Mais maduro, com os traços do rosto ligeiramente mais marcados, mas inconfundivelmente ele. Os olhos, antes vibrantes de juventude, agora carregavam uma melancolia que Rafael reconheceu de imediato, pois era a mesma que ele sentia.

“Rafael?”, a voz de Daniel soou, um pouco embargada, como se o próprio ar tivesse dificuldades em carregá-la. Era a mesma voz que um dia o fizera tremer de desejo e de medo.

Rafael hesitou por um instante, a mente em turbilhão. Anos se passaram. Anos de silêncio, de incertezas, de dor. Ele não sabia o que dizer, como reagir. O coração martelava contra as costelas, um tambor descontrolado anunciando um reencontro que ele jamais imaginou.

“Daniel”, respondeu Rafael, a voz saindo mais rouca do que pretendia. “O que você faz aqui?”

Daniel deu um passo à frente, o olhar fixo no de Rafael. A chuva começava a cair com mais intensidade, pingando sobre seus cabelos escuros e moldando as roupas em seus corpos. “Eu… eu estava passando. Por acaso. Sabe como é a Lapa, sempre cheia de surpresas.” Um sorriso fraco e irônico brincou em seus lábios. Era um sorriso que Rafael conhecia bem, carregado de um sarcasmo disfarçado de resignação.

“Surpresas”, Rafael repetiu, o eco da palavra pairando no ar úmido. “É uma boa palavra para isso.” Ele sentiu o corpo de Daniel se aproximar, a proximidade física que antes era um convite à intimidade, agora era um lembrete doloroso de tudo o que fora perdido. O cheiro de Daniel, uma mistura de chuva, tabaco e um perfume sutil que Rafael jamais esqueceria, invadiu seus sentidos, desmantelando as barreiras que ele havia construído com tanto esforço.

“Você mudou, Rafael”, disse Daniel, seus olhos percorrendo o rosto de Rafael com uma intensidade que o desarmou. “Parece… mais… forte.”

“E você parece… igual”, respondeu Rafael, a frase escapando antes que pudesse contê-la.

Daniel riu baixo, um som seco. “Igual? Acho que a vida nos trata de maneira diferente. Ou talvez seja apenas a chuva que nos faz parecer mais melancólicos.” Ele estendeu a mão, hesitante, como se temesse que Rafael recuasse. “Podemos… conversar, Rafael? Só um pouco?”

O convite pairou no ar, carregado de um peso que Rafael sentiu em cada fibra do seu ser. Conversar. Depois de tudo. Depois do sumiço, do silêncio, da dor que Daniel lhe causara. Mas algo nos olhos dele, uma súplica velada, uma vulnerabilidade que Rafael não via há muito tempo, o impediu de dizer não.

“Tudo bem”, disse Rafael, a voz quase inaudível. “Mas não aqui. E não por muito tempo.”

Daniel assentiu, um alívio visível em seu rosto. “Conheço um lugar. Um café antigo, perto daqui. Pouca gente vai lá. É tranquilo.”

Enquanto caminhavam lado a lado, a chuva torrencial os envolvia, cada gota parecendo lavar uma camada de tempo e de distância que os separava. Rafael observava Daniel pelo canto do olho. A forma como ele se movia, a maneira como a água escorria em seu rosto, os ombros curvados sob o peso de algo que ele não podia ver. Tudo nele era familiar e, ao mesmo tempo, estranho.

O café que Daniel indicou era um daqueles lugares com alma, um refúgio do tempo. As paredes cobertas por pôsteres de filmes antigos, as mesas de madeira escura, o aroma de café recém-coado misturado com o cheiro de livros antigos. Sentaram-se em um canto isolado, o silêncio entre eles preenchido apenas pelo barulho da chuva na vidraça e pelo murmúrio suave de outras conversas.

“Por que você sumiu, Daniel?”, Rafael perguntou, a pergunta que o atormentava há anos finalmente saindo de seus lábios. A voz era baixa, mas carregada de uma dor contida.

Daniel olhou para as próprias mãos, entrelaçando os dedos sobre a mesa. A expressão em seu rosto era uma máscara de sofrimento. “Eu não podia mais. Rafael, você não entende o que estava acontecendo.”

“E o que estava acontecendo, Daniel? Você pode me explicar agora, depois de todo esse tempo?” A voz de Rafael ganhava um tom de exasperação. Ele precisava entender. Precisava de uma resposta, de um fecho, de algo que pudesse dar sentido àquela dor que o acompanhava.

Daniel levantou o olhar, os olhos marejados. “Eu estava com medo. Medo de tudo. De mim mesmo. De nós. De estragar tudo. A pressão, a expectativa… era demais.” Ele fez uma pausa, respirando fundo. “Eu não era forte o suficiente para lidar com aquilo. Para lidar com você.”

As palavras atingiram Rafael como um soco. Ele não era forte o suficiente? Era essa a desculpa? Depois de tudo o que compartilharam, de toda a cumplicidade, de todo o amor que ele jurava ter visto nos olhos de Daniel?

“Você não era forte o suficiente?”, Rafael repetiu, a voz embargada pela emoção. “E eu? Você achou que eu era? Ou você simplesmente não se importou com o que eu sentia?”

“Não diga isso, Rafael!”, Daniel exclamou, a voz embargada. “Você sabe que não é verdade. Eu te amava. Eu te amo.” A confissão saiu em um sussurro, mas o impacto foi estrondoso.

O mundo de Rafael parou. A declaração, vinda de Daniel, depois de tantos anos, era avassaladora. O amor. Aquele amor que ele acreditava ter morrido, renascia ali, sob a chuva de agosto, em um café esquecido no tempo.

“Você me amava… e me deixou”, Rafael disse, a voz embargada pela incredulidade e pela dor. “Como pode o amor justificar tanto sofrimento, Daniel?”

Daniel estendeu a mão sobre a mesa, como se quisesse tocar a de Rafael, mas parou a poucos centímetros. Seus olhos eram um poço de desespero e de arrependimento. “Eu era um covarde, Rafael. Um covarde completo. Mas o que eu fiz… não apagou o que eu senti. E o que eu ainda sinto.”

A chuva lá fora parecia ter amainado um pouco, mas a tempestade dentro de Rafael estava apenas começando. O reencontro, que ele temia, agora se revelava um turbilhão de emoções que ele não sabia como controlar. O amor proibido, a paixão que ele tentou apagar, ressurgiu com força total, como um vulcão adormecido que, de repente, entra em erupção.

“Eu não sei o que fazer com isso, Daniel”, Rafael admitiu, a voz trêmula. “Eu construí uma vida sem você. Eu tentei seguir em frente.”

“Eu sei”, Daniel respondeu, o olhar fixo nos de Rafael. “E eu sinto muito por ter atrapalhado. Mas eu não podia deixar que você fosse embora da minha vida sem que você soubesse a verdade. Sem que eu tentasse te dizer… o quanto você ainda significa para mim.”

O café, antes um refúgio, agora parecia um palco para a reencenação de um drama antigo. As palavras trocadas, as confissões, o amor declarado e a dor reencontrada. A chuva de agosto, que começou como um prenúncio de tempestade, agora trazia consigo a força de um furacão que ameaçava desmoronar todas as defesas que Rafael havia construído. Ele sabia, naquele instante, que a noite estava longe de terminar.

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