Paixão Proibida II

Paixão Proibida II

por Enzo Cavalcante

Paixão Proibida II

Autor: Enzo Cavalcante

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Capítulo 16 — O Eco da Verdade e a Sombra do Medo

O sol da manhã, com sua habitual indolência, espreguiçava-se sobre a cidade, pintando os prédios com tons dourados e rosados. No entanto, para Miguel, aquela luz parecia uma agressão, um insulto à escuridão que se instalara em sua alma. A carta de Clara ainda repousava sobre a mesinha de cabeceira, cada palavra impressa como um espinho cravado em sua consciência. A verdade, nua e crua, escancarada por sua mãe, era um fardo pesado demais para carregar sozinho. A revelação sobre a doença de Sofia, a manipulação de Clara, a decisão desesperada de sua mãe de acobertar tudo… tudo se misturava em um turbilhão de culpa e confusão.

Ele se levantou da cama, os membros pesados, como se estivessem imersos em chumbo. O reflexo no espelho o encarava com olhos opacos, marcados por noites insones e pensamentos torturantes. O Miguel que se vira no espelho na véspera, cheio de uma esperança recém-descoberta, era agora uma memória distante, esmagada pela realidade implacável. O beijo roubado de Lucas, que antes parecia o prenúncio de um futuro brilhante, agora assombrava seus pensamentos com um sabor amargo de traição. Traição a quem? A ele mesmo? A Sofia? À sua família? As perguntas ecoavam em sua mente, sem encontrar respostas.

O cheiro de café fresco pairava no ar, um convite para o café da manhã, para a normalidade que ele sentia ter perdido para sempre. Desceu as escadas, os passos lentos, cada degrau um lembrete do peso que carregava. Sua mãe, Dona Cecília, já estava na cozinha, a silhueta esguia curvada sobre o fogão, o vapor subindo em redemoinhos. Ela se virou ao ouvi-lo, um sorriso tenso nos lábios.

“Bom dia, meu filho. Dormiu bem?”

Miguel apenas assentiu, incapaz de articular uma resposta. Sentou-se à mesa, o prato de pão fresco e frutas à sua frente parecendo um banquete suntuoso em meio ao seu deserto interior.

“Você está quieto hoje”, Dona Cecília observou, a voz embargada por uma preocupação genuína, mas também, Miguel sentia, por uma ponta de apreensão. “Algo aconteceu?”

Ele hesitou, a garganta seca. As palavras de Clara, a confissão de sua mãe, a imagem de Sofia… tudo o impelia a falar, mas o medo o paralisava. Medo de machucar sua mãe ainda mais, medo de quebrar o delicado equilíbrio que eles haviam construído, medo de que Lucas também fosse afetado por essa avalanche de verdades.

“Não, mãe. Só… pensando.”

Dona Cecília serviu-lhe o café, o vapor quente subindo em seu rosto. Seus olhos, antes cheios de ternura, agora pareciam carregar um peso ancestral de segredos. “Miguel, eu sei que você está chateado. O que a Clara disse… foi um choque para todos nós. Mas você precisa entender que eu fiz o que achei que era melhor. Pelo bem de todos.”

“Pelo bem de todos?”, a voz de Miguel saiu mais áspera do que ele pretendia. Ele a encarou, os olhos fixos nos dela, buscando um vestígio da mãe que conhecia. “Mãe, você mentiu. Você escondeu a verdade sobre a Sofia. Você deixou eu viver em uma mentira por… anos!”

As palavras dele caíram como pedras no silêncio da cozinha. Dona Cecília suspirou, os ombros curvando-se ainda mais. “Eu sei, meu filho. E me arrependo de cada dia. Mas na época, eu estava desesperada. Acreditava que era a única maneira de proteger você, de proteger a nossa família.”

“Proteger de quê, mãe? De uma doença? De uma verdade que nos tornaria mais fortes, não mais fracos?” Miguel se levantou, a cadeira raspando ruidosamente no chão. A frustração e a dor transbordavam dele. “E o Lucas? Ele também sabia? Ou ele também foi uma vítima dessa sua ‘proteção’?”

Dona Cecília o encarou, os olhos marejados. “O Lucas… o Lucas sabia o que eu fiz. Ele concordou em me ajudar a manter o segredo. Para não te machucar, Miguel.”

A revelação atingiu Miguel como um raio. Lucas. O rapaz que ele vinha amando em segredo, o rapaz que representava sua fuga para um mundo mais honesto, estava envolvido na mesma teia de mentiras. A raiva o consumiu. Ele se sentiu traído, humilhado. A imagem de Lucas, tão pura e gentil, agora se misturava com a de sua mãe, manipuladora e dissimulada.

“Então ele também me enganou?”, a voz de Miguel tremeu, a incredulidade estampada em seu rosto. “Ele sabia o tempo todo e… e o beijo ontem… foi tudo uma farsa?”

“Não, Miguel! Não diga isso!”, Dona Cecília exclamou, levantando-se e tentando segurá-lo. “O Lucas te ama. Ele te ama de verdade. Ele só… ele só não queria te ver sofrer mais do que já estava sofrendo. Ele achou que era a melhor maneira de te apoiar.”

Miguel se afastou dela, a respiração ofegante. Ele precisava sair dali. Precisava de ar, de espaço, de um lugar onde pudesse pensar sem a presença opressora de sua mãe e daquele café da manhã manchado de culpa.

“Eu não posso mais. Eu não aguento mais”, ele murmurou, a voz embargada pela emoção. Dirigiu-se à porta da cozinha, seus passos ecoando pelo corredor.

“Miguel, espere! Para onde você vai?”, Dona Cecília o chamou, a voz carregada de desespero.

“Não sei. Só preciso… preciso pensar. Preciso entender.” Ele abriu a porta e saiu para o frio da manhã, sem olhar para trás. A cidade, antes vibrante e cheia de promessas, agora parecia um labirinto de sombras e incertezas. O eco da verdade ressoava em sua mente, acompanhado pela sombra persistente do medo. Medo de que, ao desvendar a teia de mentiras, ele destruísse tudo o que amava, incluindo a si mesmo. A carta de Clara, a confissão de sua mãe, o beijo de Lucas… tudo o que antes parecia um caminho para a liberdade, agora se tornara um emaranhado de espinhos que o prendiam. Ele precisava encontrar uma saída, mas a cada passo, parecia afundar mais no abismo de suas próprias emoções. A paixão proibida, que antes parecia um refúgio, agora se revelava como um furacão, capaz de tudo arrasar em seu caminho. E Miguel, no centro desse furacão, sentia-se cada vez mais perdido e vulnerável.

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