Paixão Proibida II

Capítulo 2 — Cicatrizes que o Tempo Não Apaga

por Enzo Cavalcante

Capítulo 2 — Cicatrizes que o Tempo Não Apaga

O aroma de café amargo e a melancolia da Lapa pareciam ter se impregnado na alma de Rafael. O reencontro com Daniel não fora um sopro de alívio, mas sim o despertar de um vulcão adormecido, cujas cinzas quentes ameaçavam consumir tudo o que ele havia cuidadosamente reconstruído. As palavras de Daniel, a confissão de um amor que ele jurava ter sentido, ecoavam em sua mente como um mantra perturbador. "Eu te amo. Eu te amo." E então, o abandono. A covardia. As cicatrizes que o tempo insistia em não apagar.

Rafael observava Daniel através da mesa empoeirada do café. A chuva lá fora havia diminuído para uma garoa persistente, mas o aguaceiro interno de Rafael parecia intensificar-se. As mãos de Daniel, que ele imaginara tocar em seu rosto, agora estavam firmemente plantadas na madeira, os nós dos dedos brancos. Havia algo de quebrado em seu olhar, uma fragilidade que Rafael, apesar de toda a mágoa, sentiu um impulso quase incontrolável de curar. Mas ele sabia que essa era uma tentação perigosa.

"Você diz que me amava", Rafael começou, a voz um murmúrio rouco, buscando o tom exato entre a raiva e a dor. "E ainda diz. Mas o que é o amor, Daniel, se não a coragem de permanecer? De enfrentar o que vier? De não fugir como um fantasma?"

Daniel desviou o olhar, engolindo em seco. "Eu sei que minhas ações não condizem com minhas palavras. Eu fui um imbecil. Um covarde. E eu não espero que você me perdoe. Mas eu precisava que você soubesse que, por mais patético que eu tenha sido, o que eu sentia era real." Ele ergueu os olhos novamente, e Rafael viu neles um reflexo da própria dor que ele carregava. "Eu vi você seguir em frente. Vi você, de longe, tentando construir uma vida. E eu me senti… um intruso. Um espectro de um passado que você tentava deixar para trás."

"Você não era um intruso, Daniel", Rafael respondeu, a voz mais firme agora, o tom de autopreservação se sobrepondo à mágoa. "Você era o meu presente, o meu futuro. E então você desapareceu, deixando apenas um rastro de dúvidas e de dor. Eu passei anos me perguntando o que eu fiz de errado. Se eu não era bom o suficiente. Se o que tivemos não era real para você."

Um suspiro profundo escapou dos lábios de Daniel. "Você nunca fez nada de errado, Rafael. Foi tudo comigo. Eu era jovem, inseguro, e o mundo parecia enorme demais, cheio de responsabilidades que eu não sabia como carregar. A ideia de sermos 'nós'… era assustadora. Assustadora demais. E em vez de conversar, em vez de te pedir ajuda, eu fugi."

"Pedir ajuda?", Rafael riu, um som seco e sem humor. "Você desapareceu, Daniel. Você não pediu ajuda. Você me abandonou. E o peso disso, você tem ideia do peso que isso carregou? De quantas noites eu passei em claro, revivendo cada momento, tentando entender onde tudo desmoronou?"

Daniel se inclinou para frente, as mãos agora repousando sobre a mesa, mais próximas das de Rafael. "Eu sei. Eu imagino. E eu me culpo todos os dias. Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo diferente. Eu lutaria. Eu ficaria." Ele parou, a voz embargada. "Mas o tempo, Rafael, é implacável. Ele nos marca, ele nos transforma. E as cicatrizes que ele deixa… às vezes, são mais profundas do que o amor que as causou."

"Cicatrizes?", Rafael repetiu, olhando para as próprias mãos que jaziam na mesa. Ele sentia as cicatrizes, a dor antiga que latejava em seu peito. A desilusão, a perda da confiança, a dificuldade de se abrir novamente. E agora, a presença de Daniel ali, reabrindo essas feridas, era como um sal em carne viva. "Você fala de cicatrizes. E eu te pergunto, Daniel, o que você fez para curar as suas? Para compensar as minhas?"

Os olhos de Daniel se fixaram nos de Rafael, uma sinceridade crua emanando deles. "Eu não tive coragem. A coragem de te procurar. A coragem de enfrentar a sua raiva. A coragem de ver a decepção em seus olhos. Eu fui um covarde. E essa covardia me consumiu. Eu vivi uma vida… cinzenta, Rafael. Sem as cores que você trouxe para ela."

A confissão de Daniel era sincera, crua, despojada de qualquer artifício. E isso era o que mais machucava Rafael. Saber que o amor que ele tanto valorizava, e que fora arrancado dele, também tinha sido um fardo para Daniel, mas um fardo que ele não soube carregar.

"Eu não sei se consigo lidar com isso, Daniel", Rafael admitiu, a voz baixa e trêmula. "Você apareceu na minha vida como um fantasma do passado, reabrindo feridas que eu achei que estavam fechadas. Eu construí uma vida, eu tenho… responsabilidades. Eu não posso simplesmente voltar para o passado."

"Eu não espero que você volte, Rafael", Daniel respondeu, a voz embargada. "Eu só… eu só precisava te ver. Precisava te dizer que, por mais erradas que tenham sido as minhas escolhas, o que eu senti por você foi a coisa mais real que já me aconteceu. E a perda disso… me assombra até hoje."

O silêncio se instalou entre eles novamente, pesado, carregado de anos de dor e de palavras não ditas. A garoa lá fora cessara, e um raio de sol fraco tentava penetrar as nuvens. Rafael olhava para Daniel, para aquele rosto que ele tanto amou e que, de repente, se tornou um estranho. As lembranças vívidas de momentos que antes lhe traziam conforto, agora eram pontuadas pela dor da lembrança do abandono.

"Eu te vi, Daniel", Rafael disse, a voz firme, mas com uma melancolia subjacente. "Eu te vi, e a lembrança do que eu senti por você ainda me arde. Mas a lembrança do que você fez… me paralisa." Ele levantou-se da cadeira, sentindo uma necessidade premente de fugir daquele ambiente carregado de emoções. "Eu preciso ir."

Daniel também se levantou, o olhar fixo em Rafael, uma mistura de súplica e resignação. "Rafael, por favor. Eu… eu não sei o que o destino nos reserva. Mas eu não posso simplesmente te deixar ir de novo sem tentar… sem te dizer que eu sinto muito. Muito mesmo."

Rafael hesitou na porta, a mão no batente. O desejo de fugir era imenso, mas algo nos olhos de Daniel o prendia. Uma centelha de algo que ele não conseguia nomear. Talvez a curiosidade. Talvez a esperança de que, afinal, houvesse uma explicação que pudesse aliviar um pouco da dor. Ou talvez, apenas a atração irresistível de um amor proibido que, mesmo após anos, ainda pulsava em suas veias.

"Eu não sei se existe perdão para o que você fez, Daniel", Rafael disse, a voz baixa. "Eu não sei se existe um caminho de volta. Mas… eu não consigo simplesmente te esquecer de novo. O que você fez foi doloroso, mas o que você sente… você diz que sente… é ainda mais confuso."

Daniel deu um passo à frente, a esperança brilhando em seus olhos. "Podemos… podemos conversar de novo? Talvez não hoje. Talvez em outro lugar. Sem a chuva, sem a Lapa. Apenas… conversar?"

Rafael ponderou por um longo instante. A racionalidade gritava para que ele fugisse, para que se afastasse daquele turbilhão. Mas o coração, teimoso e ainda marcado por aquele amor, sussurrava outra coisa. Uma esperança tênue, um fio de possibilidade que se estendia entre eles. As cicatrizes eram profundas, mas talvez, apenas talvez, o tempo e a coragem pudessem, um dia, curá-las.

"Eu não prometo nada, Daniel", Rafael disse, finalmente. "Mas… eu te dou uma chance. Uma única chance. Me ligue. Amanhã. E vamos ver para onde essa conversa nos leva."

Um sorriso fraco, mas genuíno, iluminou o rosto de Daniel. Era um sorriso que Rafael reconheceu, um sorriso que um dia fora a sua perdição e a sua salvação. "Obrigado, Rafael. Obrigado por me dar essa chance."

Enquanto Rafael saía do café, a luz do sol, agora mais forte, parecia clarear não apenas o céu, mas também um pequeno caminho à sua frente. O reencontro fora doloroso, as cicatrizes reabertas, mas a promessa de uma conversa, de um recomeço talvez, pairava no ar como um perfume esquecido, mas ainda persistente. A paixão proibida, que ele achou ter sepultado, estava viva, respirando, e prometendo desafiar tudo o que ele havia construído.

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