Cap. 9 / 25

Amor Verdadeiro

Capítulo 9 — Deserto de Esperança, Oásis de Desespero

por Davi Correia

Capítulo 9 — Deserto de Esperança, Oásis de Desespero

O sol implacável do sertão castigava a terra seca, rachada e sedenta. As poucas nuvens que teimavam em surgir no céu azul-claro pareciam zombar da paisagem desoladora. Miguel e Leo haviam deixado para trás as montanhas verdes, a mata densa, e agora se encontravam em um novo tipo de exílio, um deserto de esperança onde cada dia era uma batalha pela sobrevivência. A decisão de seguir para o Nordeste foi de Leo, baseada em contatos antigos de sua família, pessoas que ele acreditava que poderiam oferecer um refúgio seguro e anônimo.

O carro, que Miguel havia conseguido vender em uma cidadezinha de beira de estrada, rendeu pouco, o suficiente apenas para mantê-los em movimento por alguns dias. Agora, eles caminhavam, as poucas provisões se esgotando rapidamente, o calor sufocante a cada passo. O pó fino da caatinga se infiltrava em tudo, na pele, nas roupas, na garganta ressecada.

Miguel, sempre mais frágil fisicamente, sentia o corpo sucumbir. A cada hora que passava, seus movimentos se tornavam mais lentos, a respiração mais ofegante. Ele sentia o suor escorrer incessantemente, a boca seca, os lábios rachados. A paisagem árida parecia refletir o estado de sua alma, um lugar onde a vida lutava para existir.

“Leo… eu não aguento mais”, Miguel murmurou, a voz fraca, arrastando as palavras. Ele parou, apoiando-se em um cacto retorcido, sentindo as espinhas finas penetrarem sua pele.

Leo, com o rosto marcado pelo sol e pela preocupação, correu para o lado dele. Seus olhos, embora cansados, ainda brilhavam com uma determinação feroz. Ele passou um braço pelos ombros de Miguel, oferecendo apoio.

“Aguenta mais um pouco, Mi. Estamos perto. Eu sinto isso. Minha tia me falou de um antigo assentamento, um lugar esquecido onde as pessoas se refugiavam. Se chegarmos lá antes do pôr do sol, talvez encontremos água.” Leo tentava soar confiante, mas a incerteza era evidente em sua voz. Ele sabia que estava levando Miguel a um risco extremo, mas a alternativa era ser encontrado.

Eles continuaram a caminhada, agora com passos ainda mais lentos e calculados. O sol escaldante parecia se intensificar, transformando o ar em uma névoa densa e sufocante. Miguel via tudo embaçado, as cores vibrantes do sertão se misturando em um borrão monocromático.

“Você tem certeza, Leo?”, Miguel perguntou, a esperança quase extinta. “Parece que não há nada por aqui. Só terra e mais terra.”

“Tenho que ter, Mi. Não temos outra opção”, Leo respondeu, apertando a mão de Miguel. Ele olhou para o horizonte, para as montanhas distantes que pareciam miragens. “Minha tia dizia que a vida sempre encontra um jeito de florescer, mesmo nos lugares mais inóspitos. Precisamos acreditar nisso.”

Enquanto caminhavam, Leo puxou um pequeno frasco do bolso. Era o líquido amarelado que haviam trazido da serra. Ele o aplicou nas têmporas de Miguel, em sua nuca, sentindo o frescor momentâneo aliviar a dor de cabeça. Ele também havia usado um pouco em si mesmo, e sabia que aquele extrato de ervas da serra era um paliativo, não uma cura. Mas era tudo o que tinham.

Ao cair da tarde, quando o sol começava a se pôr, pintando o céu com tons de laranja, vermelho e roxo, eles avistaram algo ao longe. Uma estrutura precária, feita de barro e palha, meio escondida entre algumas rochas.

“Ali! Miguel, olhe! Eu te disse!”, Leo exclamou, puxando Miguel com mais força.

Com as últimas energias, eles se arrastaram em direção ao lugar. Era um pequeno alpendre, com uma cabana abandonada ao lado. E, para a surpresa e alívio deles, havia um poço seco ao lado, e um pequeno reservatório de água de barro, ainda com um resquício de líquido escuro e turvo. Era pouco, mas era água.

Miguel caiu de joelhos, pegando o reservatório com as mãos trêmulas e levando-o aos lábios. A água era quente e tinha um gosto terroso, mas era a coisa mais deliciosa que ele já havia provado. Leo o observou, um sorriso fraco nos lábios. Eles haviam conseguido. Por enquanto.

Sentaram-se sob o alpendre, observando o crepúsculo se aprofundar. O silêncio do sertão era diferente do silêncio da serra. Aqui, ele era pesado, carregado de solidão e desolação.

“O que faremos agora, Leo?”, Miguel perguntou, a voz ainda fraca, mas com um fio de esperança renovada.

Leo olhou para Miguel, a preocupação voltando a nublar seus olhos. “Eu tinha contatos aqui. Pessoas que minha tia conhecia. Um senhor chamado Elias. Ele tem uma pequena fazenda um pouco mais ao norte. Se conseguirmos chegar lá, ele pode nos ajudar a encontrar um lugar seguro, talvez um emprego, algo que nos permita recomeçar sem sermos notados.”

“Mas como chegaremos lá? Estamos sem dinheiro, sem carro… e você está machucado”, Miguel disse, apontando para o braço de Leo, que ele havia escondido sob a camisa.

Leo tentou disfarçar a dor. “Vamos caminhar. Devagar. Talvez consigamos uma carona em alguma cidadezinha. Elias sabe que estamos vindo. Ele vai nos esperar.”

Naquela noite, sob o céu estrelado do sertão, um céu mais limpo e brilhante do que Miguel jamais vira, eles dividiram o restante da água e o último pedaço de pão. A luta pela sobrevivência era mais real e cruel do que jamais imaginaram.

No dia seguinte, o sol nasceu implacável. A caminhada recomeçou, lenta e árdua. Leo tentava esconder a dor em seu braço, que parecia estar infeccionando. A febre começava a subir. Miguel percebeu a piora do estado de Leo, e o medo o dominou.

“Leo, você não está bem. Precisamos parar. Encontrar ajuda”, Miguel implorou.

“Não podemos, Mi. Estamos perto. Elias… ele vai nos ajudar”, Leo insistiu, a voz embargada pela febre.

A jornada se tornou um pesadelo. Leo tropeçava, cambaleava, mas se recusava a parar. Miguel o sustentava como podia, sentindo a fraqueza do corpo do amado. As paisagens desérticas pareciam se estender infinitamente, um labirinto de espinhos e areia.

No terceiro dia de caminhada, Leo caiu. Desabou na poeira, o corpo tremendo, os olhos semicerrados. A febre o consumia. Miguel tentou levantá-lo, mas Leo era pesado demais, sua força vital esvaindo-se.

“Leo! Acorda! Por favor, acorda!”, Miguel gritou, o desespero tomando conta. Ele abriu a mochila, procurando o frasco com a tintura amarelada. Sabia que não seria suficiente, mas era a única coisa que tinha. Ele aplicou generosamente o líquido no corpo febril de Leo, molhou um pano e colocou em sua testa.

Enquanto tentava reanimar Leo, Miguel avistou algo ao longe. Um pequeno ponto escuro se movendo na vastidão. Poderia ser Elias? Ou seria mais uma miragem cruel daquele deserto?

Com um esforço sobre-humano, Miguel arrastou Leo para a beira da estrada de terra, o corpo exausto, a esperança escorrendo por entre os dedos como a areia. Ele levantou a mão em um gesto fraco, na esperança de chamar a atenção. Aquele ponto escuro se aproximava. Era um jipe.

Quando o jipe parou, um homem idoso, com o rosto sulcado pelo sol e um olhar gentil, desceu. Era Elias. Ele olhou para Leo, caído no chão, e para Miguel, exausto e desesperado.

“Eu sabia que algo estava errado. Sua tia me avisou que vocês poderiam ter problemas. Meu Deus, o garoto está muito mal”, Elias disse, a voz carregada de compaixão. Ele se abaixou, examinando Leo. “Precisamos levá-lo para um lugar com estrutura. Rápido.”

Elias ajudou Miguel a colocar Leo no jipe. O deserto de esperança havia se transformado em um oásis de desespero, mas ali, naquele homem gentil, Miguel vislumbrou um novo raio de luz. A jornada estava longe de terminar, mas talvez, apenas talvez, eles tivessem encontrado um caminho para a salvação.

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