Amor Inesperado III

Capítulo 2 — A Reencontro Sob o Céu de Estrelas

por Enzo Cavalcante

Capítulo 2 — A Reencontro Sob o Céu de Estrelas

A porta rangeu, revelando a figura de Gabriel ali, parado na varanda com o brilho das estrelas refletindo em seus olhos cor de mel. A brisa marinha, antes tão melancólica para Rafael, agora trazia consigo o perfume inconfundível de Gabriel – uma mistura de maresia, raspas de madeira e um toque sutil de baunilha que sempre o embriagava. Era uma visão que desafiava a lógica, uma aparição que parecia saída de um sonho febril.

Rafael ficou paralisado, o peito apertado em uma ansiedade que ele não conseguia nomear. Era um misto de alegria avassaladora, raiva borbulhante e uma profunda, esmagadora saudade. Gabriel, com seus cabelos mais compridos do que Rafael se lembrava, um leve bronzeado no rosto e uma expressão de súplica nos olhos, era a personificação de tudo o que ele havia desejado e temido durante todo aquele tempo.

"Gabriel...", a palavra saiu como um sussurro, quase inaudível. Era a primeira vez que pronunciara o nome dele em voz alta em meses, e o som ainda era doce e doloroso em sua garganta.

Gabriel deu um passo hesitante para frente, como se tivesse medo de assustá-lo. "Rafa... Meu Rafa..." Seus olhos percorreram o rosto de Rafael, captando a palidez, as olheiras profundas, a dor que ele não conseguia mais disfarçar. Um lampejo de culpa cruzou o olhar de Gabriel, algo que Rafael não sabia se sentia mais forte do que a própria alegria de vê-lo.

"O que você está fazendo aqui, Gabriel?", Rafael conseguiu perguntar, a voz um pouco mais firme, tentando controlar a emoção que ameaçava transbordar. Ele se apoiava no batente da porta, como se as próprias pernas não o sustentassem.

"Eu... eu precisava te ver", Gabriel respondeu, sua voz embargada. Ele estendeu uma mão, como se quisesse tocar o rosto de Rafael, mas hesitou no último instante, retraindo-a. "Eu não aguentava mais, Rafa. A distância... tudo."

Rafael sentiu um nó se formar em sua garganta. Aquelas palavras, que ele tanto esperara ouvir, pareciam agora carregadas de uma complexidade dolorosa. "Não aguentava mais? E o que te impediu de vir antes? Ou de me ligar? De mandar uma mensagem? De fazer alguma coisa, Gabriel?" A mágoa que se acumulou em seu peito transbordou em suas palavras, um tom de acusação que ele não pôde reprimir.

Gabriel baixou o olhar, a culpa se intensificando. "Eu fui um covarde, Rafa. Um imenso covarde. Eu... eu sei que te magoei. Que te deixei sofrendo. E eu me arrependi todos os dias. Cada dia longe de você foi um inferno." Ele ergueu o olhar novamente, e Rafael pôde ver a intensidade da dor em seus olhos. "Eu estava com medo. Medo de não ser suficiente, medo de te decepcionar mais, medo de... de não saber como lidar com tudo isso."

"Medo?", Rafael repetiu, uma risada seca e amarga escapando de seus lábios. "Você teve medo e me deixou aqui, sozinho, me afogando em um mar de saudade, Gabriel? Você me deixou acreditando que você tinha simplesmente... ido embora?"

"Não, Rafa, nunca!", Gabriel se apressou em dizer, dando mais um passo para frente. "Eu nunca te deixei de verdade. Você estava sempre comigo. Em cada pincelada, em cada sonho, em cada respiração." Ele olhou ao redor, para o casarão silencioso, para a escuridão que envolvia a casa. "Eu vi você hoje, na praia. Vi como você estava... abatido. E eu não aguentei mais. Precisava vir, precisava tentar consertar as coisas."

Rafael o encarou, a confusão se misturando à dor. "Consertar as coisas? E como exatamente você pretende fazer isso, Gabriel? Você aparece aqui, depois de um ano, e acha que tudo se resolve com um 'me desculpe'?"

"Eu sei que não é fácil", Gabriel admitiu, sua voz embargada pela emoção. "Eu sei que te feri profundamente. Mas eu estou aqui, Rafa. E eu quero tentar de novo. Quero te mostrar que meu amor por você não mudou. Que é ainda mais forte." Ele deu mais um passo, invadindo o espaço de Rafael, e finalmente estendeu a mão, tocando suavemente o rosto dele. A pele de Rafael estava fria, mas a mão de Gabriel era quente e familiar, e um arrepio percorreu todo o corpo de Rafael.

"Gabriel...", Rafael murmurou novamente, fechando os olhos por um instante, absorvendo o toque, a presença. Era real. Ele estava ali.

Gabriel acariciou a bochecha de Rafael com o polegar. "Eu nunca deixei de te amar, Rafa. Nunca. A distância só fortaleceu isso. Eu sou um idiota, eu sei. E eu sinto muito. Sinto muito por cada dia que você passou sofrendo por minha causa." As lágrimas começaram a brotar nos olhos de Gabriel, e Rafael não conseguiu mais se conter.

Ele levou as mãos ao rosto de Gabriel, sentindo a barba por fazer, a pele quente e a emoção que ele também sentia. "Eu também sinto sua falta, Gabriel", disse Rafael, a voz embargada. "Todos os dias. Eu... eu não sei mais o que fazer."

"Deixa eu te mostrar", Gabriel disse, sua voz rouca de emoção. "Deixa eu te provar que eu ainda te amo. Que eu quero você. Que eu preciso de você." E então, sem hesitar mais, Gabriel se inclinou e beijou Rafael.

Foi um beijo desesperado, faminto, carregado de saudade, de arrependimento, de amor. Era um beijo que falava de noites em claro, de corações partidos, de um amor que se recusava a morrer. Rafael retribuiu o beijo com a mesma intensidade, suas mãos subindo para os cabelos de Gabriel, puxando-o para mais perto, como se quisesse fundir-se a ele. As mágoas, as dúvidas, a raiva – tudo se dissipou momentaneamente diante da força avassaladora daquele reencontro.

Quando se afastaram, ofegantes, seus olhares se encontraram, intensos e cheios de uma promessa não dita.

"Eu não sei se consigo te perdoar fácil, Gabriel", Rafael disse, a voz ainda trêmula. "Você me causou muita dor."

"Eu sei", Gabriel respondeu, seus olhos fixos nos de Rafael. "E eu aceito isso. Eu aceito qualquer coisa. Só quero ter a chance de te reconquistar. De te amar de novo. De te fazer feliz de novo."

Ele segurou as mãos de Rafael com firmeza. "Eu voltei para ficar, Rafa. Eu não vou mais embora. Por favor, me dá uma chance."

Rafael olhou para Gabriel, para a sinceridade em seus olhos, para a vulnerabilidade em sua postura. Ele viu o homem que amava, o homem que o fizera tão feliz, mas também o homem que o machucara. A decisão não seria fácil. Mas ali, sob o céu estrelado de Paraty, com o cheiro do mar e o toque de Gabriel em suas mãos, ele sentiu uma faísca de esperança acender em seu peito.

"Venha", Rafael disse, abrindo a porta um pouco mais e dando um passo para o lado. "Entre. Precisamos conversar. De verdade."

Um sorriso de alívio e gratidão iluminou o rosto de Gabriel. Ele entrou no casarão, e Rafael fechou a porta atrás dele, selando o momento. Os dois se encararam no corredor escuro, o silêncio quebrado apenas pelo som das ondas lá fora. Era o começo de algo. Algo incerto, doloroso, mas, talvez, também cheio de promessas.

Eles foram para a sala de estar, onde a luz fraca de um abajur iluminava as poltronas antigas e a lareira fria. Rafael se sentou em uma delas, observando Gabriel que permaneceu em pé, como se hesitasse em se aproximar demais.

"Por que você está em Paraty, Gabriel?", Rafael perguntou novamente, a pergunta pairando no ar. "E por que não me contou que estava voltando?"

Gabriel respirou fundo. "Eu precisava de um recomeço, Rafa. Depois que eu fui embora... tudo ficou muito difícil. Eu tentei focar no meu trabalho, na minha arte, mas a sua ausência era um buraco que nada preenchia. Eu me afoguei na minha própria solidão." Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. "Eu estava morando em Barcelona, trabalhando em um grande projeto. Mas... não era o mesmo. Eu sentia falta do nosso Rio, das nossas praias, das nossas conversas. E sentia falta de você, acima de tudo."

"E por que Paraty?", Rafael insistiu.

"Eu soube que você estava aqui", Gabriel disse, o olhar mais intenso. "Fiquei sabendo por um amigo em comum. E eu pensei... eu pensei que talvez fosse um sinal. Uma chance de te encontrar, de ver como você estava. Eu não podia arriscar te assustar, te afastar mais ainda. Por isso decidi vir sem avisar. Queria ver seu rosto, ter certeza de que você estava bem. E quando te vi na praia hoje, parecendo tão triste... eu não pensei duas vezes."

Rafael o ouvia atentamente, tentando processar tudo. A ideia de Gabriel ter vindo a Paraty por causa dele era reconfortante, mas a forma como ele o fizera, sem um aviso, ainda o deixava apreensivo.

"Eu sinto muito por ter te assustado", Gabriel continuou, percebendo a apreensão de Rafael. "Sinto muito por ter agido de forma tão impulsiva. Mas a verdade é que eu não conseguia mais ficar longe. O meu amor por você é mais forte do que qualquer medo, do que qualquer orgulho. Eu voltei para o Brasil com a intenção de ficar perto, e quando soube que você estava em Paraty... tudo se encaixou."

Ele caminhou até a poltrona em frente a Rafael e se sentou, seus joelhos quase se tocando. "Eu quero te reconquistar, Rafa. Eu quero te mostrar que o meu amor é verdadeiro e que eu estou disposto a fazer tudo para ter você de volta. Eu sei que você tem mágoas, e você tem todo o direito de tê-las. Mas me dá uma chance. Uma chance para eu te provar que eu ainda sou o homem que você amou. E que eu te amo ainda mais agora."

Rafael o observou, o coração batendo um ritmo incerto. Ele via a paixão nos olhos de Gabriel, a sinceridade em suas palavras. Mas a dor do passado ainda era uma sombra persistente.

"Eu não sei, Gabriel", Rafael disse, a voz baixa. "Eu sofri muito. Você não tem ideia do quanto."

"Eu imagino", Gabriel respondeu, a voz suave. "E eu me culpo por isso todos os dias. Mas eu estou aqui agora. E eu vou ficar. Eu vou te esperar. Vou te mostrar, com minhas ações, que eu te amo. E que eu quero construir um futuro com você."

Ele estendeu a mão novamente, desta vez pousando-a sobre a de Rafael na poltrona. A pele de Rafael estava fria, mas o calor da mão de Gabriel era um conforto inegável.

"Me dá uma chance, Rafa", Gabriel implorou, seus olhos fixos nos de Rafael. "Por favor."

Rafael olhou para as mãos entrelaçadas, para a conexão que ainda existia entre eles. O amor que sentiam era inegável. Mas a dúvida e a dor também eram reais.

Ele apertou a mão de Gabriel. "Eu preciso de tempo, Gabriel. Preciso pensar. Você apareceu do nada... e me deixou completamente desorientado."

"Eu entendo", Gabriel disse, um leve sorriso melancólico em seus lábios. "Eu vou te dar todo o tempo que você precisar. Mas saiba que eu estou aqui. E que eu não vou a lugar nenhum."

Os dois permaneceram sentados em silêncio por um longo tempo, a mão de Gabriel ainda segurando a de Rafael. O som das ondas era a única trilha sonora naquele momento. O reencontro havia acontecido, o primeiro beijo havia sido dado. Mas o caminho para a cura e para um possível recomeço ainda era longo e incerto. E Rafael sabia que teria que ser forte, para decidir se valeria a pena arriscar seu coração novamente.

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