Amor Inesperado III

Capítulo 23 — O Coração da Besta

por Enzo Cavalcante

Capítulo 23 — O Coração da Besta

A Rua das Acácias era uma rua esquecida no coração do centro do Rio de Janeiro. Ladeada por prédios antigos, com fachadas desgastadas pelo tempo e pela umidade, ela exalava um ar de abandono e de histórias não contadas. O número 7 era um prédio imponente, mas decadente. Janelas empoeiradas e quebradas, uma porta de ferro enferrujada e pichações cobrindo a maior parte da sua superfície. Era o tipo de lugar que as pessoas evitavam, um refúgio para o esquecimento e para os segredos.

Rafael e Lucas estacionaram o carro em uma rua paralela, observando o prédio com uma cautela que beirava a apreensão. O sol da tarde criava longas sombras que se esticavam como dedos fantasmagóricos sobre o asfalto rachado.

“Tem certeza de que é aqui, Rafa?” Lucas perguntou, a voz baixa, mas firme. Ele não demonstrara medo, mas a tensão era palpável em seus ombros.

Rafael assentiu, o olhar fixo na fachada do prédio. “De acordo com a caderneta do meu pai, sim. Rua das Acácias, número 7. E as descrições que eu me lembro de ter visto em alguns dos documentos mais antigos dele… é exatamente como eu imaginava.”

“E o que exatamente imaginávamos?” Lucas brincou, tentando aliviar a atmosfera pesada, mas seu olhar era sério.

“Um lugar discreto. Um local onde transações… ou encontros… pudessem acontecer sem chamar a atenção. Esse prédio tem um certo ar de mistério, não acha?” Rafael sorriu levemente, um sorriso que não alcançava seus olhos.

“Um mistério que pode nos custar caro,” Lucas retrucou, mas seu tom era de desafio, não de desânimo. “Você disse que aquele homem no restaurante usava um anel com o símbolo do dragão. E encontramos o nome ‘Dragão Dourado’ na caderneta. Se isso é uma organização, pode ser que ainda funcione.”

Rafael concordou. A conexão era forte demais para ser ignorada. “Vamos ser cuidadosos. Se encontrarmos alguma coisa, tentamos documentar, mas sem nos expor. Se sentirmos que estamos em perigo, saímos imediatamente.”

Com passos firmes, eles se aproximaram da porta de ferro. Estava trancada, mas não parecia ser um obstáculo intransponível para a determinação de Rafael. Ele examinou a fechadura, procurando por qualquer ponto fraco. Lucas, observando os arredores, notou que havia uma pequena abertura na grade lateral, em um ponto onde a pichação era mais densa.

“Por aqui, talvez,” Lucas sussurrou, apontando para a abertura. Era estreita, mas parecia possível passar.

Rafael assentiu. “Você vai primeiro. Se for seguro, eu te sigo.”

Lucas, ágil e decidido, espremeu-se pela abertura, o corpo raspando no metal frio. Do outro lado, em um pátio interno escuro e úmido, ele se levantou e acenou para Rafael. Com um pouco mais de esforço, Rafael também conseguiu passar.

O pátio era um lugar sombrio, com o cheiro de mofo e de água parada. Uma escadaria de metal enferrujado levava aos andares superiores. Eles subiram com o máximo cuidado, cada degrau rangendo sob seus pés, anunciando sua presença ao silêncio do prédio.

O primeiro andar parecia abandonado. Salas vazias, com restos de móveis quebrados e teias de aranha que se estendiam como véus macabros. Mas ao chegarem ao segundo andar, a atmosfera mudou. Havia sinais de atividade recente. Uma porta, em particular, chamou a atenção. Diferente das outras, era uma porta de madeira maciça, pintada de um tom escuro, sem pichações. E dela, emanava uma luz fraca e um murmúrio de vozes abafadas.

Rafael e Lucas se entreolharam. Era ali. O coração da besta.

Rafael se aproximou da porta, ouvindo atentamente. As vozes eram masculinas, em um tom baixo e conspiratório. Pareciam estar discutindo negócios, mas as palavras eram vagas, fragmentadas. Ele reconheceu algumas palavras-chave: “entrega”, “pacote”, “garantia”.

“Eles estão lá dentro,” Rafael sussurrou para Lucas.

Lucas assentiu, a mão já posicionada no bolso, onde carregava seu celular. “Vamos tentar registrar. Mas sem nos arriscar, lembra?”

Rafael assentiu. Ele buscou uma pequena fresta na porta, onde a luz escapava, e conseguiu posicionar o celular de Lucas para gravar o áudio. O som era precário, mas era um começo.

Enquanto gravavam, Rafael sentiu um arrepio. Uma das vozes parecia familiar. Uma voz grave, com um tom de autoridade sombria. Ele tentava se lembrar de onde a havia ouvido antes, mas a memória lhe escapava. Então, um nome foi dito, um nome que fez o sangue de Rafael gelar.

“Precisamos ter certeza de que o Dragão Dourado está satisfeito com a entrega. O pagamento final deve ser feito ao portador do anel.”

O portador do anel. O homem do restaurante. O homem com o dragão entalhado.

Rafael deu um passo para trás, o corpo tenso. Ele sabia quem era agora. Era alguém conectado ao passado obscuro de seu pai, alguém que estava ativamente envolvido em algo ilegal, e que agora, o estava caçando.

Lucas percebeu a mudança em Rafael, a rigidez em seus ombros, o olhar fixo em algo que só ele via. “Rafa? O que foi?”

“Eu sei quem é,” Rafael disse, a voz baixa e controlada, mas carregada de uma raiva contida. “Ou melhor, eu sei quem está envolvido. O homem que eu senti que estava nos observando no restaurante… ele é um dos que estão lá dentro. E ele parece ser a peça chave para… seja lá o que meu pai estava fazendo.”

Lucas olhou para Rafael, a preocupação em seu olhar se misturando com uma determinação crescente. “E como você sabe disso?”

“Eles mencionaram o ‘portador do anel’. E eu vi o anel. É um dragão entalhado. E eu acho que reconheci a voz de um deles. É um antigo sócio do meu pai, alguém que sempre teve uma reputação duvidosa.” Rafael sentiu um nó na garganta. “Parece que meu pai estava envolvido com um esquema de contrabando, ou algo do tipo. E essa gente… eles estão me usando para recuperar algo que meu pai deixou, ou talvez para me forçar a assumir o lugar dele.”

A informação era bombástica, e o perigo, repentinamente, se tornou muito mais real. O que antes era um mistério vago, agora se concretizava em um plano perigoso.

De repente, um barulho na escada os alertou. Passos pesados se aproximavam. Alguém estava subindo.

“Temos que sair daqui, agora!” Lucas sussurrou, puxando Rafael para longe da porta.

Eles se afastaram rapidamente, correndo em direção à abertura no pátio. As vozes lá dentro pararam, seguidas por um grito de alerta.

“Ei! Quem está aí?”

Rafael e Lucas não pararam para responder. Desceram a escada de metal correndo, o som de seus passos ecoando no prédio abandonado. O barulho de portas se abrindo e vozes furiosas se espalhando pelo prédio os impulsionava.

Eles alcançaram o pátio interno e se espremeram pela abertura novamente, o coração disparado. O ar fresco da rua pareceu um alívio bem-vindo, mas a adrenalina ainda corria em suas veias.

Ao chegarem ao carro, Rafael ligou o motor com mãos trêmulas, os olhos fixos no prédio decadente. Ele sabia que o que quer que seu pai tivesse feito, as consequências estavam agora em suas mãos. E a luta pela verdade e pela sua própria segurança havia apenas começado.

“Isso não vai ficar assim,” Lucas disse, a voz firme, apesar da adrenalina. “Nós sabemos onde eles estão. Nós sabemos sobre o anel e o Dragão Dourado. Agora, precisamos descobrir o que eles querem.”

Rafael olhou para Lucas, a gratidão e o amor transbordando em seu peito. Ele estava em perigo, sim, mas não estava sozinho. E com Lucas ao seu lado, ele sentia a força para enfrentar o coração da besta.

“Sim,” Rafael respondeu, o olhar fixo no caminho à frente. “Vamos descobrir. E vamos acabar com isso.”

A sombra do Dragão Dourado pairava sobre eles, mas a chama do amor e da coragem ardia mais forte, guiando-os através da escuridão.

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