Amor sem Máscaras II
Capítulo 3 — O Peso da Verdade Revelada
por Enzo Cavalcante
Capítulo 3 — O Peso da Verdade Revelada
A cobertura de Rafael de Andrade era um santuário de luxo e silêncio, agora impregnado por uma aura de melancolia. O sol da tarde entrava pelas janelas imensas, iluminando a poeira que dançava no ar, como se o próprio tempo hesitasse em seguir seu curso naquele espaço marcado pela ausência. Rafael esperava Lucas, sentado em uma poltrona de couro de design impecável, um copo de uísque intocado em sua mão. A notícia de Lucas sobre algo que Elias deixara para trás havia despertado nele uma esperança frágil, uma centelha de curiosidade que se misturava à dor constante.
Quando Lucas chegou, Clara já o havia recebido e conduzido até a sala. A tensão no ar era palpável. Lucas, com sua expressão séria e o olhar fixo em Rafael, parecia carregar o peso do mundo em seus ombros. Ele se sentou em frente a Rafael, retirando o pen drive do bolso e o colocando sobre a mesa de centro de vidro.
"Lucas… o que é isso?", perguntou Rafael, sua voz rouca de emoção contida.
"É um pen drive, Rafa. Elias o deixou comigo. Junto com um bilhete. Ele disse que se algo acontecesse com ele, eu deveria entregá-lo a você e que não confiasse em ninguém." Lucas fez uma pausa, seus olhos encontrando os de Rafael. "Ele parecia com medo, Rafa. Muito medo."
Rafael pegou o pen drive, seus dedos roçando a superfície fria. Elias com medo? A imagem do arquiteto vibrante e destemido que ele amava parecia distante, quase irreal. "Medo de quê, Lucas? Ele não me disse nada."
"Eu também não sei. Mas as anotações nos cadernos dele… Ele mencionava um 'jogo', 'sombras', e 'ele não pode saber'. Acho que ele estava investigando algo. E, pela forma como ele escreveu, parece que não foi um acidente, Rafa."
A palavra "acidente" ecoou na sala, pesada e dolorosa. Rafael sentiu um aperto no peito, uma sensação fria se espalhando por suas veias. Ele sempre se culpou por não ter insistido para que Elias fizesse aquela viagem de carro mais cedo, por não ter ido junto. Mas a ideia de que Elias fora vítima de algo mais sinistro…
"Não… não pode ser", murmurou Rafael, balançando a cabeça. "Elias era… ele era tão…".
"Eu sei, Rafa. Mas as coisas não batem. A polícia disse que foi um desastre na estrada, um pneu estourado, uma curva acentuada. Mas as anotações dele, o bilhete… ele estava claramente com medo. E pediu para não confiarmos em ninguém."
Rafael olhou para o pen drive em sua mão, como se ele contivesse a resposta para todos os seus questionamentos. Ele se levantou e foi até o seu computador, conectando o dispositivo. Uma pasta apareceu na tela, com um nome intrigante: "Projeto Sombra".
"Projeto Sombra?", repetiu Rafael, confuso. "Que projeto é esse?"
"Não sei. Elias nunca mencionou nada sobre isso para mim."
Rafael abriu a pasta. Dentro, havia uma série de arquivos criptografados e alguns documentos em PDF. Ele tentou abrir os arquivos criptografados, mas precisava de uma senha.
"Precisamos de uma senha", disse Rafael, frustrado.
Lucas se aproximou, olhando para a tela. "Talvez a senha esteja nas anotações. Ou talvez seja algo pessoal entre você e ele."
Rafael pensou por um momento. Algo pessoal… Elias adorava brincar com códigos e enigmas. Ele se lembrou de uma frase que Elias costumava dizer quando eles se conheceram, uma frase que se tornou o "código secreto" deles: "O amor que nos move é a nossa força mais pura."
"Tenta 'ForçaPura'", disse Rafael, a voz carregada de esperança.
Rafael digitou a senha. A tela piscou e os arquivos se abriram. O que viram em seguida os deixou chocados. Eram relatórios detalhados sobre irregularidades em grandes obras de infraestrutura, documentos que evidenciavam desvio de verbas, superfaturamento e a participação de figuras influentes do mundo empresarial e político. Eram projetos que a Andrade Construções, a empresa de Rafael, havia realizado em consórcio com outras empreiteiras.
"Meu Deus…", sussurrou Rafael, o rosto pálido. "Isso… isso não pode ser verdade."
"Eu não queria acreditar, Rafa. Mas Elias estava investigando tudo isso. Ele descobriu algo grande. E parece que envolve as nossas obras." Lucas estava igualmente chocado. Elias, o homem íntegro e apaixonado, estava envolvido em algo tão sombrio?
Eles passaram as horas seguintes revisando os documentos. Parecia que Elias, em suas investigações pessoais, havia descoberto um esquema de corrupção que se estendia por anos, envolvendo políticos e empresários de peso. E a Andrade Construções, sem que Rafael soubesse, estaria sendo usada como fachada.
"Ele estava tão perto de expor tudo", disse Lucas, com a voz embargada. "Ele sabia que era perigoso. Por isso pediu para não confiarmos em ninguém. Ele não queria te envolver nisso, Rafa. Ele te amava demais para te colocar em risco."
Rafael sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. O amor de Elias, que antes era fonte de alegria, agora era um fardo de preocupação e dor. Ele amava Elias com todo o seu ser, e a ideia de que ele havia arriscado a própria vida por causa dele era insuportável.
"Ele me amava tanto… e eu… eu não percebi nada", disse Rafael, a voz quebrada. "Eu estava tão focado no nosso futuro, nos nossos planos… que não vi o perigo que o cercava."
Ele olhou para Lucas, os olhos cheios de angústia. "E agora? O que fazemos? Se isso for verdade… se Elias foi assassinado… não podemos deixar isso assim."
Lucas assentiu, determinado. "Não, Rafa. Não podemos. Elias lutou por isso. Ele queria a verdade. E nós vamos entregá-la. Por ele. Por nós."
Rafael se levantou, uma nova força impulsionando-o. A dor do luto ainda estava ali, dilacerante, mas agora era acompanhada por uma raiva justa e um desejo ardente de vingança. Vingança não apenas por Elias, mas por todos os que haviam sido lesados por aquele esquema.
"Precisamos ir à polícia", disse Rafael, sua voz firme. "Precisamos apresentar tudo isso. Não podemos ter medo. Elias não teve medo."
Lucas concordou. "Eu vou com você. Mas temos que ter cuidado. Elias disse para não confiarmos em ninguém. Não sabemos quem está envolvido."
Rafael olhou para Clara, que havia permanecido em silêncio o tempo todo, ouvindo atentamente. "Clara, você pode chamar o detetive que cuidou do caso do Elias? Diga que temos novas informações. Informações cruciais."
Clara assentiu, sua expressão séria. "Imediatamente, Sr. de Andrade."
Enquanto Clara se retirava para fazer a ligação, Rafael e Lucas se entreolharam. A verdade havia sido revelada, e com ela, um caminho perigoso se abria à frente deles. Mas, juntos, fortalecidos pelo amor que sentiam por Elias e pela determinação de honrar sua memória, eles estavam prontos para enfrentar o que viesse pela frente. O eco de um juramento quebrado dava lugar ao som de uma batalha pela justiça, uma batalha que Elias não pôde terminar, mas que Rafael e Lucas estavam determinados a vencer.