Sob o Velo do Jaguar
Claro, com a paixão de um romancista brasileiro, teço os fios do destino de "Sob o Velo do Jaguar", dando vida aos capítulos que se seguirão.
por Lucas Pereira
Claro, com a paixão de um romancista brasileiro, teço os fios do destino de "Sob o Velo do Jaguar", dando vida aos capítulos que se seguirão.
Capítulo 16 — O Sangue da Terra e a Promessa Quebrada
O ar ainda crepitava com a energia residual da batalha, um zumbido que parecia vibrar nos ossos de Luna. A caverna, antes um refúgio sombrio, agora era um santuário de dor e de um despertar terrível. O corpo de Iago jazia inerte, um lembrete cruel da fragilidade da vida e da crueldade do poder. Seus olhos, que antes brilhavam com travessura e uma lealdade inabalável, estavam agora vidrados, fixos em um ponto distante que apenas os mortos podiam contemplar.
Luna ajoelhou-se ao lado dele, suas mãos trêmulas buscando o calor que já não emanava de sua pele. O Velo do Jaguar, em seu ombro, pareceu pesar uma tonelada, uma responsabilidade que de repente se tornou esmagadora. Ela sentiu um nó na garganta, um soluço que ameaçava rasgar sua alma. O Guardião da Caverna, com suas feições ancestralmente entalhadas na rocha, observava em silêncio, sua sabedoria milenar tingida de tristeza. Ele sabia que a perda de um guerreiro, especialmente um tão puro de coração, deixava um vazio que nem mesmo a magia mais poderosa poderia preencher.
"Ele se foi," a voz de Luna era um sussurro rouco, mal audível em meio ao eco da caverna. "Eu o vi morrer. A Feiticeira... ela o levou." As palavras saíam com dificuldade, carregadas de culpa e um ódio que se acendia em seu peito como brasa viva. Ela fechou os olhos, tentando afastar a imagem daquele momento final, o grito de Iago ecoando em sua mente como um eco fantasmagórico.
O Guardião inclinou a cabeça, um gesto de profunda compaixão. "A Sombra tece seus fios com astúcia, jovem Luna. Mas a bravura de Iago não será esquecida. Seu sacrifício não foi em vão."
Luna abriu os olhos, encarando a figura imponente. "Em vão? Como pode dizer isso? Ele estava aqui por mim, para me proteger, e eu falhei em protegê-lo!" A raiva borbulhava, misturando-se à dor. Ela apertou os punhos, as unhas cravando na rocha fria. "Eu prometi que o traria de volta para casa, para a aldeia, para a família dele." A promessa, feita sob o céu estrelado da floresta, agora soava como uma zombaria cruel.
"A promessa foi quebrada, mas não por sua culpa," disse o Guardião, sua voz ressoando com a força da terra. "A Feiticeira é uma criatura de trevas, alimentada pelo desespero e pela dor. Ela roubou não apenas a vida de Iago, mas também um pedaço da luz deste mundo."
Luna olhou para o Velo, sentindo o poder que emanava dele, uma energia selvagem e indomável. Era a força do jaguar, uma força que ela ainda estava aprendendo a dominar. "Então, é por isso que ela fez isso? Para me enfraquecer?"
"Ela busca extinguir a linhagem do jaguar," respondeu o Guardião. "Ela teme o poder que reside em você, o poder que se manifesta através do Velo. Iago era um guardião, um elo forte na corrente de sua proteção. Agora, esse elo foi quebrado."
Uma lágrima solitária rolou pelo rosto de Luna, traçando um caminho de sal sobre sua pele. Era a primeira vez que chorava desde que chegara à Floresta Sombria, e a liberação de sua dor parecia tão natural quanto a chuva que caía sobre a terra. Ela pensou na família de Iago, na dor que eles sentiriam ao saber da perda. Ela se sentiu responsável por tudo.
"O que faremos agora?", perguntou ela, a voz embargada pela emoção. "Eu não posso simplesmente deixá-la escapar. Ela não pode continuar fazendo isso com outras pessoas."
O Guardião estendeu uma mão rochosa, seus dedos longos e grossos pairando sobre o corpo de Iago. Uma luz suave emanou de sua palma, envolvendo o corpo do jovem guerreiro. "A vida se vai, mas a essência permanece. A terra que o nutria o acolherá de volta. Seu espírito se tornará parte da floresta, um eco de sua coragem."
Luna observou, maravilhada, enquanto o corpo de Iago começava a se desintegrar em uma névoa dourada, que se fundiu com o solo, tingindo-o de um tom mais vibrante. Flores silvestres, antes adormecidas, brotaram ao redor do local onde ele jazia, desabrochando em cores vivas e radiantes.
"Ele se tornou a terra," disse Luna, com um misto de assombro e tristeza.
"E a terra o lembrará," confirmou o Guardião. "Sua dor se transformará em força para nós. Sua bravura inspirará aqueles que ainda lutam." Ele se virou para Luna, seus olhos ancestrais fixos nos dela. "Você carregará o legado de Iago. A promessa quebrada dele será o seu fardo e a sua força."
Luna sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O peso da responsabilidade era agora palpável. Ela olhou para o Velo do Jaguar, sentindo-o vibrar em resposta à sua determinação crescente. A dor da perda de Iago era um buraco em seu coração, mas também era um combustível. Um combustível para a vingança, para a proteção, para a esperança de um futuro onde ninguém mais sofreria nas mãos da Feiticeira.
"Eu não vou descansar," disse Luna, sua voz ganhando firmeza. "Eu vou encontrá-la. E eu vou acabar com ela. Pelo Iago. Pela minha aldeia. Por todos que ela ousa machucar."
O Guardião assentiu, um leve sorriso surgindo em seus lábios de pedra. "Este é o caminho do jaguar. A fúria que protege, a força que renasce das cinzas. Vá, Luna. A floresta te guiará. O Velo te protegerá. E o espírito de Iago te dará a coragem que você precisa."
Luna levantou-se, seus músculos tensos, seu olhar focado no horizonte nebuloso que se estendia para além da caverna. A dor ainda estava ali, uma ferida aberta, mas agora era temperada por uma determinação fria e implacável. Ela sabia que a jornada seria longa e perigosa, mas a imagem de Iago, transformado em vida e beleza pela terra, era um farol de esperança em meio à escuridão. Ela não estava sozinha. O espírito de Iago e a força do jaguar estavam com ela. E a promessa quebrada seria a semente de uma nova promessa, forjada no fogo da perda e na resiliência da floresta. O sangue da terra, antes derramado em tragédia, agora pulsava com a promessa de vingança e de um novo amanhecer.