Sob o Velo do Jaguar

Capítulo 2 — O Chamado do Sangue Antigo

por Lucas Pereira

Capítulo 2 — O Chamado do Sangue Antigo

O ar da aldeia de Iara, que antes era perfumado e sereno, agora estava carregado de tensão e do cheiro acre do medo. A dança das sombras projetadas pela fogueira na noite anterior havia se transformado em uma luta desesperada contra as silhuetas grotescas que agora invadiam a clareira. Os gritos de guerra selvagens das criaturas se misturavam aos gritos de dor e coragem dos habitantes de Iara.

Liana, com o coração acelerado e os punhos cerrados, sentia o amuleto de jaguar em seu pescoço pulsar com uma intensidade crescente. Era como se a madeira antiga estivesse viva, emitindo um calor que se espalhava por seu corpo, despertando algo adormecido em suas veias. Ela observava Arar, o chefe da aldeia, lutar com a bravura de um leão, sua lança encontrando e repelindo os ataques das criaturas com uma força surpreendente.

Mas as criaturas eram muitas. Eram implacáveis. Pareciam imunes à dor, avançando com uma fúria cega que desafiava a compreensão. Seus corpos retorcidos, cobertos por uma pele grossa e escura, pareciam feitos para a guerra, para a destruição. Cada golpe que desferiam carregava um peso terrível, e os poucos que conseguiam atingir um habitante de Iara resultavam em ferimentos graves.

Uma criatura, com garras longas e afiadas como adagas, avançou em direção a Liana. Seus olhos vermelhos brilhavam com um ódio ancestral. Ela sentiu o ar ser arrancado de seus pulmões com o impacto. Por um instante, o tempo pareceu congelar. Ela viu as garras se aproximarem, prontas para rasgar sua carne.

Foi então que aconteceu. Um rugido poderoso, profundo e ancestral, emanou dela. Não era um som humano, mas um uivo primal que parecia vir das profundezas da terra. Uma energia dourada, como um relâmpago aprisionado, irrompeu de seu corpo, envolvendo-a em um casulo de luz. As garras da criatura, que estavam prestes a atingi-la, foram arremessadas para o lado como se tivessem batido em uma parede invisível.

A criatura recuou, chocada e confusa, seus olhos vermelhos arregalados. Liana, ainda envolta na aura dourada, sentiu uma força nova percorrer seu corpo. O medo ainda estava ali, mas agora misturado a uma determinação feroz, a uma raiva justa que a impulsionava a proteger seu povo. Ela olhou para o amuleto de jaguar em seu pescoço, que brilhava com a mesma luz dourada que a envolvia.

“O que é isso?”, murmurou Iara, uma das anciãs mais sábias da aldeia, seus olhos arregalados de espanto ao observar Liana. “O sangue antigo… despertou.”

Arar, que lutava a poucos metros de distância, virou-se em sua direção, o rosto marcado pela surpresa e pela esperança. A luz que emanava de Liana parecia repeli-las, criando uma barreira invisível ao redor da aldeia. As criaturas hesitaram, seus avanços tornando-se mais cautelosos.

“Liana!”, gritou Arar. “Continue! Mantenha essa força!”

Inspirada pelas palavras de Arar e pela energia que fluía através dela, Liana ergueu as mãos. A luz dourada se intensificou, formando um escudo reluzente que se expandiu, empurrando as criaturas para trás. O rugido primal dentro dela se tornou um canto de guerra, uma melodia poderosa que parecia ressoar com a própria floresta.

As criaturas, que pareciam invencíveis até então, começaram a demonstrar fraqueza diante daquela força desconhecida. Algumas recuaram, outras gemeram em agonia, como se a luz as estivesse queimando.

“Elas não suportam a luz de Iara!”, gritou outra anciã, sua voz trêmula, mas cheia de admiração. “A floresta está com ela!”

Liana sentiu a conexão com a floresta de uma forma que nunca sentira antes. Era como se cada árvore, cada folha, cada raiz estivesse vibrando em sintonia com ela. Ela podia sentir a força da terra subindo por seus pés, nutrindo a luz que a envolvia.

Mas a batalha estava longe de terminar. Por mais que a luz de Liana as afastasse, as criaturas não desistiam. Eram movidas por um propósito sombrio, por uma fome que parecia insaciável. E, de repente, uma figura emergiu da escuridão atrás das criaturas, uma figura mais alta, mais imponente, envolta em uma aura de escuridão palpável. Seus olhos brilhavam com um vermelho mais intenso, quase carmesim, e sua presença emanava um poder maligno que silenciou até mesmo os gritos de guerra.

Era uma criatura diferente das outras, mais velha, mais poderosa. Seus ombros largos e musculosos estavam cobertos por uma armadura natural que parecia feita de obsidiana. Em uma de suas mãos, ela segurava um cajado retorcido, que parecia sugar a pouca luz que restava.

“O Xamã das Sombras”, sussurrou Iara, seu rosto pálido de terror. “Ele veio para reclamar o que lhe é devido.”

A criatura carmesim ergueu o cajado em direção a Liana, e uma onda de escuridão densa e fria avançou, rompendo a barreira dourada com facilidade aterradora. Liana sentiu a energia vital ser sugada de seu corpo, a luz começando a vacilar. O rugido dentro dela se transformou em um gemido de dor.

“Liana!”, gritou Arar, correndo em sua direção.

Mas era tarde demais. A onda de escuridão atingiu Liana em cheio, e a luz dourada que a envolvia se apagou, deixando-a caída no chão, exausta e ferida. As criaturas, com um novo ímpeto, avançaram novamente, a vantagem retomada.

O Xamã das Sombras soltou uma risada gutural, um som que parecia ecoar dos abismos mais profundos. “O véu será rasgado”, ele sibilou, sua voz carregada de poder e malícia. “A floresta pertencerá às sombras.”

Arar chegou ao lado de Liana, ajoelhando-se ao seu lado. Ele a pegou nos braços, tentando protegê-la, mas a força da criatura era avassaladora. Os habitantes de Iara lutavam bravamente, mas estavam perdendo terreno. O desespero começava a tomar conta deles.

“O que está acontecendo?”, Liana murmurou, sua voz fraca. “Por que eu não consigo…?”

“Você despertou algo antigo, Liana”, disse Arar, com o rosto marcado pela dor e pela urgência. “Algo que estava adormecido em você. Mas as sombras também têm seus segredos, e o Xamã é poderoso.”

Iara se aproximou, seus olhos sábios fixos em Liana. “O amuleto, criança. Ele é a chave. Ele te conecta à força ancestral, ao espírito do jaguar. Mas ele precisa ser alimentado, precisa ser compreendido.”

Enquanto falava, Iara colocou uma mão sobre o amuleto de jaguar no pescoço de Liana. Um brilho fraco surgiu, e Liana sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo. Era uma energia diferente, mais sutil, mas igualmente poderosa. Era a energia da floresta, a sabedoria de seus ancestrais.

“Você não está sozinha, Liana”, Iara disse suavemente. “Toda a Iara está com você. A floresta está com você.”

O Xamã das Sombras avançou novamente, o cajado erguido, pronto para desferir o golpe final. Mas, naquele momento, algo mudou. Os habitantes de Iara, inspirados pelas palavras de Iara e pela resiliência de Liana, uniram-se em um único propósito. Começaram a cantar, um canto ancestral, uma melodia que parecia invocar a própria força da terra.

A melodia cresceu, ecoando pela floresta, e a luz dourada começou a reaparecer em Liana, mais fraca do que antes, mas presente. A energia do sangue antigo, alimentada pela força de sua comunidade e pela sabedoria de seus ancestrais, estava se reerguendo. A batalha pelo véu do jaguar estava longe de terminar. Era apenas o começo.

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