Sob o Velo do Jaguar

Capítulo 7 — A Sombra no Espelho D'Água

por Lucas Pereira

Capítulo 7 — A Sombra no Espelho D'Água

As brumas matinais pairavam sobre a aldeia de Kai, beijando suavemente os telhados de palha e as troncos robustos das casas. O cheiro de lenha queimando e de terra úmida pairava no ar, um perfume familiar e reconfortante. Mas para Kai, a familiaridade era agora tingida por uma urgência que pulsava em suas veias, um lembrete constante da Cicatriz do Tempo e do Templo das Sombras Sussurrantes.

Ele se despediu de sua mãe, dona Ayla, uma mulher forte cujos olhos guardavam a sabedoria ancestral de gerações de curandeiras. Ela o abraçou com força, um aperto que falava de amor, de medo e de orgulho.

"Vá com a proteção dos espíritos, meu filho", ela sussurrou em seu ouvido, sua voz rouca de emoção. "Que o jaguar te guie e que a floresta te proteja. Lembre-se das ervas que te ensinei, da força da terra em suas mãos."

"Eu me lembrarei, mãe", Kai respondeu, sentindo a garganta apertar. "E voltarei para contar histórias que nunca serão esquecidas."

Ele encontrou seu pai, o chefe Iara, perto da fogueira central da aldeia. O chefe, um homem de poucas palavras, mas de grande sabedoria, colocou uma mão pesada no ombro de Kai.

"O Velo do Jaguar é um grande fardo, meu filho", disse Iara, seus olhos fixos nos de Kai. "Mas você foi escolhido. Não hesite. Seu povo confia em você."

Kai assentiu, sentindo o peso da responsabilidade se acomodar sobre seus ombros, não como um fardo, mas como uma capa de honra. Ele pegou seu arco, as flechas entalhadas com símbolos sagrados, e uma bolsa com suprimentos essenciais. O Velo do Jaguar, antes um véu etéreo, agora parecia uma segunda pele, um brilho sutil e esmeralda que emanava de sua roupa, quase imperceptível para olhos comuns, mas que para ele era uma fonte constante de força e lembrança.

Ele partiu, deixando para trás o calor familiar de sua aldeia, adentrando a mata densa que o chamava. O caminho para o norte, em direção à Montanha Que Chora, era um território que ele conhecia apenas por lendas, contos de criaturas sombrias e caminhos traiçoeiros.

As primeiras horas de viagem foram de uma beleza selvagem e avassaladora. A floresta parecia pulsante de vida, com pássaros de plumagem exótica cantando em harmonia e o aroma doce e inebriante das flores exóticas. No entanto, à medida que ele se aprofundava, uma sutil mudança começou a ocorrer. A luz do sol, antes vibrante, parecia se tornar mais difusa, filtrada por uma névoa sutil que não era natural. Os sons da floresta, antes alegres, gradualmente se tornaram mais sombrios, com sussurros que pareciam se perder no vento.

Kai sentiu a Cicatriz do Tempo agindo. Era uma sensação de desânimo sutil, um desejo de esquecer o propósito, de voltar para o conforto da aldeia. Ele se forçou a lembrar das palavras do Jaguar Divino: "A Cicatriz se manifesta de maneiras traiçoeiras."

Ele chegou a um pequeno lago, suas águas calmas refletindo o céu nublado. A beleza do lugar era inegável, mas havia algo de perturbador. As margens do lago pareciam estranhamente desprovidas de vida, sem insetos zumbindo, sem pássaros bebendo água. Era um silêncio antinatural.

Ao se aproximar da água para beber, Kai viu seu reflexo. Mas não era apenas seu reflexo. Ele viu o rosto de um estranho, com olhos vazios e um semblante apático. Por um instante aterrador, ele não se reconheceu. A sensação de estranhamento era tão intensa que ele recuou, o coração disparado.

O Jaguar Divino se manifestou em sua mente, um sussurro poderoso em meio ao caos. "A sombra se espelha, Kai. Ela tenta te confundir. Lembre-se do seu rosto. Lembre-se de quem você é."

Kai fechou os olhos, respirou fundo e visualizou o rosto de sua mãe, o sorriso gentil de sua avó, os rostos dos anciãos de sua aldeia. Ele pensou em sua própria face, marcada pelo sol e pela determinação. Quando abriu os olhos novamente, seu reflexo estava lá, o rosto familiar do guerreiro, com o brilho esmeralda do Velo do Jaguar sutilmente visível.

Mas o reflexo sorriu para ele, um sorriso frio e vazio. E então, uma voz que parecia vir de dentro do próprio lago falou: "Por que você luta, Kai? Por que se importar com um mundo que esquece? Venha. Deixe o fardo ir. Esqueça."

A tentação era forte. A promessa de paz, de ausência de responsabilidade. Kai sentiu seus músculos relaxarem, sua determinação vacilar.

"Você não tem o direito de falar comigo!", Kai gritou, sua voz ressoando com uma fúria recém-descoberta. "Você é apenas uma sombra! Uma mentira!"

Ele se virou, afastando-se do espelho d'água. Ele não podia se dar ao luxo de ser enganado. Ele precisava chegar à Montanha Que Chora.

Enquanto caminhava, ele sentiu o Velo do Jaguar pulsando em seu peito, um calor reconfortante que o afastava da apatia. Ele percebeu que a sombra no espelho d'água não era apenas uma ilusão, mas uma manifestação da Cicatriz, tentando corroer a essência dos seres vivos, apagando suas memórias e vontades.

"O Templo das Sombras Sussurrantes...", murmurou Kai para si mesmo, sua determinação reacendida. "É lá que essa escuridão deve ser confrontada."

Ele continuou sua jornada, a floresta se tornando cada vez mais sombria e desolada. As árvores pareciam retorcidas, suas folhas secas e caídas, como se a própria vida tivesse sido sugada delas. O silêncio era opressor, quebrado apenas pelo som distante de algo se arrastando entre as árvores.

Kai parou, o arco em punho. Ele sentiu a presença de algo. Não era uma criatura da floresta, mas algo que parecia corrompido, distorcido. De repente, uma figura emergiu das sombras. Era um homem, mas sua pele estava pálida e sem vida, seus olhos vazios, e ele se movia com uma lentidão perturbadora. Ele não parecia hostil, mas sim... perdido.

"Quem é você?", perguntou Kai, cauteloso.

O homem parou, sua cabeça pendendo em um ângulo antinatural. Ele não respondeu, mas um som baixo e gutural escapou de seus lábios. Kai percebeu que o homem não possuía memória. Ele era um receptáculo vazio, um fantoche da Cicatriz.

O Velo do Jaguar em Kai brilhou com mais intensidade, e ele sentiu uma onda de compaixão misturada com um sentimento de repulsa. Aquilo não era um inimigo a ser combatido com violência, mas uma vítima a ser resgatada, se possível.

"Você está perdido?", perguntou Kai, baixando um pouco o arco. "Você se lembra de quem era?"

O homem apenas emitiu um gemido, seus olhos fixos em um ponto distante. Kai percebeu que a Cicatriz havia apagado tudo. Sua história, sua identidade.

O Jaguar Divino falou em sua mente: "A Cicatriz se alimenta da memória. Para salvar esses perdidos, é preciso reacender a memória. Mas nem sempre é possível. Às vezes, o esquecimento é profundo demais."

Kai sentiu uma tristeza profunda. Ele não podia salvá-lo. Não agora. Ele continuou sua caminhada, deixando o homem pálido em seu torpor, um lembrete sombrio do que ele enfrentaria.

Ele chegou a um desfiladeiro profundo, onde o vento uivava como um lamento. A Montanha Que Chora se erguia imponente ao longe, suas encostas envoltas em uma névoa espessa e escura. O caminho para o norte estava claramente bloqueado por um abismo.

Kai olhou ao redor, procurando uma passagem. Foi então que ele notou algo incomum. Nas rochas do desfiladeiro, havia gravuras antigas, símbolos que ele reconhecia das histórias de seu povo. Eram os símbolos do Jaguar Divino, contando uma história de passagem, de travessia.

Ele se aproximou das gravuras, traçando com os dedos as linhas desgastadas pelo tempo. O Velo do Jaguar em seu corpo começou a brilhar intensamente, e as gravuras pareceram ganhar vida, um brilho esmeralda emanando delas.

"As pedras guardam a memória", sussurrou Kai, lembrando-se das palavras de sua avó. A conexão ancestral era forte ali.

Ele sentiu uma vibração na terra, e uma seção da parede rochosa começou a se mover, revelando uma passagem estreita e escura. Era o caminho para a Montanha Que Chora. A Cicatriz do Tempo havia tentado impedi-lo, mas a força da memória e do Jaguar o haviam guiado.

Kai entrou na passagem, a escuridão o engolindo. O caminho era íngreme e tortuoso, mas ele sentia a presença do Jaguar guiando seus passos. Ele sabia que o pior ainda estava por vir. O Templo das Sombras Sussurrantes esperava por ele, e a Cicatriz do Tempo se manifestava em sua forma mais perigosa. Mas Kai estava mais determinado do que nunca. Ele não seria mais um eco esquecido. Ele seria a voz da memória.

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