O Juramento da Deusa Yara

Capítulo 2 — A Sede da Capital

por Rafael Rodrigues

Capítulo 2 — A Sede da Capital

O sol da manhã de Rio de Janeiro, um sol que outrora era sinônimo de beleza e exuberância, agora lutava para perfurar a densa camada de poluição que sufocava a cidade. A Cidade Maravilhosa, outrora um cartão postal de beleza natural e vibrante vida, agora era um monstro de concreto e asfalto, exalando um hálito tóxico que adoecia seus habitantes e corroía a paisagem. No coração dessa metrópole de contrastes gritantes, onde a opulência dos edifícios espelhava a miséria das favelas encravadas nas encostas, a sede de uma corporação poderosa se erguia como um monumento à ganância moderna: a AquaCorp.

Seu edifício, um arranha-céu de vidro e aço que arranhava o céu poluído, era o símbolo máximo do poder que o homem exercia, e abusava, sobre os recursos naturais. Lá dentro, em um escritório luxuoso com vista panorâmica da cidade, o Dr. Matias Valente, CEO da AquaCorp, contemplava o caos urbano com um misto de desprezo e satisfação. Seus olhos, frios e calculistas como o gelo, percorriam a paisagem urbana, observando a fumaça que subia das chaminés, os rios que corriam com um tom acinzentado, o tráfego incessante que congestionava as ruas. Para ele, tudo aquilo era o progresso.

“Mais um dia de sol para o nosso progresso, não é, Leonardo?”, disse Valente, dirigindo-se ao seu braço direito, um homem magro e de semblante sombrio, que estava em pé ao seu lado, com uma prancheta nas mãos.

Leonardo, um homem de poucas palavras e lealdade inabalável a Valente, apenas assentiu. “Os relatórios de ontem foram excelentes, Dr. Valente. A produção nas refinarias aumentou em dez por cento, e a aprovação da nova licença ambiental para a extração na região amazônica já está praticamente garantida.”

Valente soltou uma risada seca, um som desprovido de calor. “Excelente. A Amazônia… um tesouro que os governos, com sua miopia, deixaram esquecido. Nós, da AquaCorp, sabemos como aproveitar cada gota de seu potencial. O mundo clama por nossos produtos, por nossa energia. E nós os entregamos, custe o que custar.”

Ele se virou para a janela, seus dedos batendo ritmicamente no vidro. “Eles falam em sustentabilidade, em preservação. Bobagens para os fracos. A verdadeira força reside em dominar a natureza, em subjugar seus recursos em benefício da civilização. E nós somos os verdadeiros arquitetos da civilização, Leonardo.”

Leonardo permaneceu em silêncio, acostumado à retórica grandiosa de seu chefe. Ele sabia que a “civilização” de Valente se resumia a lucro e poder. A AquaCorp, sob sua liderança, havia se tornado a maior empresa de extração e refino de recursos hídricos do mundo, manipulando o abastecimento, vendendo água engarrafada a preços exorbitantes e, mais sinistramente, descartando seus resíduos industriais em rios e oceanos, sem qualquer consideração pelas consequências.

“E o projeto do novo reservatório em São Paulo?”, perguntou Valente, com um brilho nos olhos. “As chuvas escassearam, e o pânico já começa a se instalar. É um momento perfeito para oferecermos a nossa ‘solução’ de água potável. E, claro, a um preço que refletirá o desespero deles.”

“Está tudo encaminhado, Dr. Valente”, respondeu Leonardo, consultando sua prancheta. “As licenças de exploração estão sendo negociadas com o governo local, e já garantimos o apoio de influentes políticos. A população, desesperada, aceitará qualquer coisa que lhes garanta água.”

Valente sorriu, um sorriso cruel que não alcançou seus olhos. “Eles aceitarão porque não têm escolha. Nós controlamos a água, Leonardo. E quem controla a água, controla a vida.”

De repente, um alarme soou no escritório de Valente. Um alerta vermelho piscava em uma tela no canto da sala, indicando um problema em uma das instalações de tratamento de água.

“O que é isso?”, perguntou Valente, sua voz tensa.

“Parece que há um… um fenômeno incomum em uma de nossas estações de tratamento no interior de São Paulo, Dr. Valente”, respondeu Leonardo, franzindo a testa enquanto analisava os dados que surgiam na tela. “Os sensores de qualidade da água estão registrando picos anormais. E… algo está interferindo nos sistemas de filtragem.”

Valente franziu a testa, irritado. “Interferindo? Como assim, interferindo? Nossas máquinas são de última geração. Nada interfere nelas.”

“Os dados são… estranhos, Dr. Valente. Há uma energia… não identificada… que está sobrecarregando os filtros. E os níveis de pureza da água estão, paradoxalmente, aumentando. Os testes indicam uma qualidade da água que… que é impossível para os nossos sistemas atingirem.”

Valente se aproximou da tela, seus olhos estreitos em desconfiança. “Impossível? Nada é impossível quando se tem a tecnologia certa, Leonardo. Deve ser um defeito nos sensores. Prepare uma equipe de manutenção. Quero que resolvam isso imediatamente. E quero um relatório detalhado sobre a origem dessa ‘energia’.”

Enquanto Leonardo dava as instruções por telefone, Valente sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo naquele relato que o perturbava profundamente. A ideia de uma força desconhecida interferindo em seu império, em seu controle absoluto sobre a água, era inaceitável.

“Pode ser o início de algo, Leonardo”, disse Valente, sua voz agora mais baixa, quase um sussurro. “Seja o que for, precisa ser contido. Não podemos permitir que nada ou ninguém ameace nosso domínio. A AquaCorp é a guardiã do futuro, e o futuro é nosso para moldar.”

Leonardo desligou o telefone. “A equipe já está a caminho, Dr. Valente. Eles investigarão a fundo.”

Valente voltou a olhar pela janela, mas agora sua visão não era mais de satisfação, mas de uma inquietação crescente. A cidade, que ele via como um troféu de sua conquista, de repente parecia um vulcão adormecido, prestes a entrar em erupção. E ele sentia, em seus ossos, que algo fundamental estava mudando. Um vento, invisível e poderoso, começava a soprar, trazendo consigo um prenúncio de algo que nem mesmo a AquaCorp, com todo o seu poder e influência, seria capaz de controlar.

Naquela mesma manhã, a centenas de quilômetros de distância, em uma pequena cidade do interior do estado de São Paulo, Maria Eduarda, uma jovem e idealista bióloga, observava com perplexidade as águas do rio Tietê, que atravessava sua cidade. O rio, outrora um espelho de sua infância, agora era uma massa de água suja e malcheirosa, um testemunho sombrio da negligência humana.

Maria Eduarda trabalhava em um pequeno projeto de revitalização das margens do rio, uma luta solitária contra a poluição desenfreada. Ela acreditava na força da natureza, na capacidade de cura que a Terra possuía, se lhe fosse dada uma chance. Mas, nos últimos tempos, até mesmo sua fé estava sendo testada.

“É desanimador, né, Dona Lurdes?”, disse ela a uma senhora que regava suas plantas na beira do rio.

Dona Lurdes, uma moradora antiga da cidade, suspirou. “Ah, minha filha, o que a gente pode fazer? A cidade cresceu, as fábricas vieram, e o rio foi ficando assim. Nem parece mais o mesmo rio de antigamente, onde a gente pescava e nadava.”

“Mas ainda há esperança, Dona Lurdes”, respondeu Maria Eduarda, tentando manter o otimismo. “Estamos tentando conscientizar as pessoas, fazer a nossa parte. Talvez um dia, a gente consiga ver esse rio limpo de novo.”

Enquanto falava, Maria Eduarda percebeu algo incomum. As águas do rio, geralmente de um marrom escuro e opaco, pareciam ter adquirido um brilho sutil, quase imperceptível. E o cheiro, que sempre fora desagradável, agora parecia mais suave, menos penetrante.

“Que estranho”, murmurou, aproximando-se da margem. “Parece que a água está… mais clara. Será que as chuvas recentes ajudaram?”

Ela pegou um pequeno recipiente e coletou uma amostra da água, observando-a sob a luz do sol. Os resultados preliminares em seu pequeno laboratório improvisado eram surpreendentes. Os níveis de poluição estavam significativamente mais baixos do que o normal. E havia algo mais… uma energia sutil, uma vitalidade que ela nunca havia detectado antes.

“Isso é impossível”, disse ela, confusa. “Como isso pode estar acontecendo?”

De repente, ela sentiu uma presença. Não uma presença humana, mas algo antigo, natural. Olhou ao redor, mas não viu ninguém. Apenas as árvores, as pedras, o murmúrio do rio. Mas a sensação era inegável. Era como se a própria natureza estivesse lhe enviando um sinal, uma mensagem sutil de que algo extraordinário estava prestes a acontecer.

E, em algum lugar nas profundezas do oceano, uma criatura ancestral sentiu a perturbação. Os antigos guardiões das águas, seres que haviam servido Iara por eras, agora sentiam a presença de sua mestra desperta. Um chamado silencioso se espalhava pelas correntes, um prenúncio de mudanças. O mundo, sufocado pela ganância, estava prestes a sentir a força da Deusa das Águas. E a AquaCorp, em seu palácio de vidro e aço, não fazia ideia do perigo que se aproximava.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%