As Crônicas do Rio Negro Místico

As Crônicas do Rio Negro Místico

por Rafael Rodrigues

As Crônicas do Rio Negro Místico

Autor: Rafael Rodrigues

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Capítulo 1 — O Sussurro da Nascente Esquecida

O sol da tarde tingia o dossel da Floresta Amazônica com tons de fogo e ouro, um espetáculo diário que se repetia com a majestade de um ritual ancestral. Para Liana, no entanto, a beleza daquele cenário raramente acalmava a inquietação que lhe apertava o peito. Aos vinte e poucos anos, com a pele marcada pelo sol e os olhos cor de mel que pareciam carregar a sabedoria de tempos imemoriais, ela se sentia uma estranha em sua própria terra. A aldeia de Aruã, aninhada às margens sinuosas do Rio Negro, era seu lar, mas seu coração batia em um compasso diferente, sintonizado com ecos de um passado que os mais velhos insistiam em esquecer.

Ela estava ajoelhada à beira de um pequeno igarapé, as mãos mergulhadas na água fria e cristalina que descia das entranhas da mata. O murmúrio suave da correnteza era a única companhia. As redes de pesca, cuidadosamente tecidas por sua avó, esperavam secar ao sol, mas Liana não tinha pressa. Seus dedos traçavam os contornos lisos das pedras no leito do rio, sentindo a energia sutil que emanava delas, uma energia que a maioria das pessoas ignorava, perdida na rotina da caça, da pesca, da vida.

“Liana! O que está fazendo aí parada, menina? As águas vão subir e você vai se molhar toda!” A voz de sua tia, Dona Isolda, rompeu o silêncio. Isolda, uma mulher corpulenta e de fala grossa, apareceu na clareira, os braços cruzados sobre o peito, a expressão de quem esperava uma desculpa esfarrapada.

Liana suspirou, retirando as mãos da água. “Só sentindo o rio, tia. Ele está diferente hoje.”

Isolda bufou. “O rio está sempre o mesmo, Liana. É você que fica com essas ideias na cabeça. Já lhe disse, essas histórias de ‘energia’ e ‘sussurros da mata’ são bobagem para assustar criança. O que importa é a fartura que ele nos dá, o peixe que alimenta a gente.”

“Mas e se houver mais do que só a fartura, tia?” Liana tentou argumentar, a voz baixa, quase um sussurro. “E se houver segredos que o rio guarda?”

“Segredos? Os únicos segredos que existem são os dos animais que tentam roubar nossas galinhas e os dos homens que olham para nossas moças com maus olhos”, retrucou Isolda, um sorriso malicioso brincando em seus lábios ao lançar um olhar sugestivo para o jovem curandeiro da aldeia, Kael, que passava a uma distância segura, carregando um feixe de ervas.

Liana desviou o olhar, o rosto corando levemente. Kael era diferente dos outros homens da aldeia. Havia uma aura de mistério ao seu redor, uma quietude que a intrigava. Seus olhos, escuros e profundos como a noite na floresta, pareciam enxergar além das aparências. Ele era respeitado por seus conhecimentos sobre as plantas e os males que afligiam o corpo, mas havia quem sussurrasse que seus poderes iam além do que era visível.

“Deixe de sonhar acordada, Liana”, disse Isolda, puxando a sobrinha pelo braço. “O pajé chamou as mulheres para a cerimônia de colheita. Não se atrase.”

A cerimônia de colheita era um evento importante para a aldeia, uma forma de agradecer aos espíritos pela abundância de frutas e raízes que a floresta oferecia. Liana seguiu a tia, a mente ainda voltada para as águas do igarapé. Havia dias que sentia uma atração inexplicável por aquele local, como se ele a chamasse, um chamado silencioso que ecoava em sua alma.

A clareira onde o pajé, um homem velho e enrugado de nome Iara, conduzia a cerimônia era iluminada por tochas que projetavam sombras dançantes nas árvores. As mulheres cantavam em uníssono, suas vozes suaves misturando-se ao zumbido dos insetos e ao farfalhar das folhas. Liana participava mecanicamente, seus pensamentos longe.

Durante a cerimônia, Iara ergueu um cesto repleto de frutas exóticas e ervas aromáticas. Seus olhos, turvos pela idade, pareciam fitar algo além da multidão. Ele murmurou palavras antigas, em uma língua que poucos na aldeia ainda compreendiam. De repente, seus olhos pousaram em Liana, e um leve tremor percorreu seu corpo.

“O rio sussurra, a mata responde”, disse o pajé, sua voz rouca ecoando na clareira. “A Nascente Esquecida chama por sua guardiã.”

Um silêncio sepulcral caiu sobre a assembleia. As mulheres pararam de cantar, olhando para Liana com uma mistura de espanto e temor. A Nascente Esquecida era uma lenda antiga, um lugar sagrado onde se dizia que a própria essência da floresta residia, guardada por seres ancestrais. Ninguém na aldeia a via há gerações.

Isolda apertou a mão de Liana com força, os nós dos dedos brancos. “Pajé, o que quer dizer com isso? Liana é apenas uma moça, não é de sua linhagem que se fala nas histórias.”

Iara balançou a cabeça lentamente. “As profecias são claras, Isolda. A marca daquele que protege o equilíbrio se manifesta quando a floresta grita por ajuda. E Liana, sua alma está entrelaçada com a do Rio Negro Místico.”

A menção do “Rio Negro Místico” fez um arrepio percorrer a espinha de Liana. Era um nome que ela ouvira em contos noturnos, em sussurros velados, um rio de poderes inimagináveis, cujas águas eram a fonte de toda a vida e magia daquela região.

“Mas… como?”, gaguejou Liana, sentindo o olhar de todos sobre si.

“O destino não escolhe por linhagem, mas por afinidade”, respondeu Iara, seus olhos fixos nos dela. “Você sente os segredos do rio, menina. Você ouve os sussurros que outros ignoram. A floresta reconheceu você.”

Naquele momento, um vento forte varreu a clareira, fazendo as tochas oscilarem violentamente e as folhas dançarem em redemoinho. Um som estranho, um uivo baixo e melancólico, parecia vir das profundezas da mata. O medo tomou conta de todos, mas em Liana, uma estranha coragem começou a brotar. Uma sensação de pertencimento, de propósito, que nunca antes havia sentido.

“Eu… eu sinto”, murmurou ela, as palavras saindo com uma força que a surpreendeu. “Eu sinto a dor da floresta.”

Kael, que observava tudo de longe com um semblante sério, deu um passo à frente. “Pajé, se Liana é a escolhida, então ela precisa entender seu papel. As histórias sobre a Nascente Esquecida são apenas fragmentos de uma verdade maior. E a floresta não grita por ajuda sem motivo.”

“O equilíbrio está ameaçado, Kael”, confirmou Iara, a voz agora carregada de urgência. “Forças sombrias se agitam nas sombras, alimentadas pela ganância e pelo esquecimento. A floresta precisa de sua guardiã para se defender.”

Liana olhou para Kael, buscando em seus olhos uma confirmação, um consolo. Ele assentiu, um leve sorriso aparecendo em seus lábios, um sorriso que parecia dizer: “Eu sei, e estou com você.”

Naquela noite, sob o véu estrelado da Amazônia, Liana não dormiu. A profecia ecoava em sua mente, as palavras do pajé, o olhar de Kael, o chamado do rio. Ela se sentia assustada, mas também, pela primeira vez em muito tempo, completa. A moça inquieta da aldeia de Aruã estava prestes a se tornar a guardiã de um segredo ancestral, a mensageira de um rio que guardava em suas águas a própria alma do mundo. A jornada rumo à Nascente Esquecida havia começado, e com ela, as crônicas de um destino místico.

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