A Forja dos Encantados

Capítulo 2 — O Eco das Pedras Antigas

por Pedro Carvalho

Capítulo 2 — O Eco das Pedras Antigas

O sol já se inclinava para o poente quando Mariana finalmente abriu os olhos, completamente desperta. A febre havia cedido, deixando apenas um rastro de cansaço e uma clareza mental que há muito não sentia. A cabana estava banhada por uma luz alaranjada e dourada, o ar impregnado pelo aroma adocicado do jantar que seu pai preparava na pequena fogueira externa. O cheiro reconfortante de peixe assado e temperos selvagens a trouxe de volta à realidade, uma realidade que parecia estranhamente diferente daquela que deixara antes de adoecer.

Ela sentou-se na cama, a força retornando aos membros gradualmente. A lembrança de Kael era vívida, quase palpável. O homem misterioso, seus olhos azuis penetrantes, suas palavras sobre encantos e forjas… Seria tudo um sonho febril? Mas o sentimento persistente de que algo havia mudado, algo fundamental dentro dela, desmentia essa possibilidade.

Seu pai, Antônio, entrou na cabana, o rosto marcado pela preocupação e pelo alívio. Tinha cabelos grisalhos nas têmporas e um bigode espesso que lhe dava um ar rústico, mas seus olhos castanhos brilhavam com um amor terno por sua única filha.

“Graças a Deus você acordou, Mariana! Estava preocupado com você, menina. Essa febre te deixou muito mal.” Ele se aproximou, depositando um beijo na testa dela. Quente, mas não mais febril.

“Eu estou melhor, pai”, disse Mariana, a voz mais firme. “O que aconteceu enquanto eu dormia?”

Antônio franziu a testa, o olhar fixo no dela. “Nada demais, filha. Você dormiu muito. Eu trouxe algumas coisas da vila, comprei pão fresco, um pouco de sal e… bem, nada que te interesse.” Ele hesitou, e Mariana sentiu que ele omitia algo. Seu pai era um homem simples, mas observador.

“Você viu alguém? Alguém que veio até aqui?”, Mariana perguntou, o coração batendo mais rápido.

Antônio a olhou, surpreso. “Alguém? Não, Mariana. A floresta é um lugar perigoso, e você sabe que pouca gente se aventura por aqui. Por que a pergunta?”

“Por nada, pai”, disse ela rapidamente, desviando o olhar. Não era hora de falar sobre Kael. Ele não acreditaria, ou pior, ficaria assustado. O pai sempre a protegeu do mundo exterior, temendo sua fragilidade.

“Você parece diferente, filha”, Antônio comentou, sentando-se na beira da cama. “Mais… desperta.”

“Eu me sinto diferente”, Mariana admitiu, tocando o pulso esquerdo, onde a marca em forma de estrela repousava. O toque parecia aquecê-la, uma sensação sutil, mas inconfundível. “Como se eu tivesse dormido por muito tempo e, agora, estivesse vendo tudo com outros olhos.”

“O descanso faz bem”, ele disse, sorrindo. “Agora venha, coma um pouco. Precisa recuperar as forças.”

Mariana se levantou, e pela primeira vez, sentiu seu corpo responder sem tanta resistência. Ao sair da cabana, o crepúsculo pintava o céu de tons vibrantes de roxo e laranja. O ar fresco da noite a envolveu, trazendo consigo os aromas da floresta. O som de Antônio mexendo na fogueira, o crepitar das chamas, tudo parecia mais nítido, mais presente.

Enquanto comiam em silêncio, Mariana não conseguia tirar a imagem de Kael de sua mente. Ele falou sobre um chamado, sobre uma herança. O que tudo isso significava? Ela se lembrou da antiga caixa de madeira de sua mãe. Seria possível que houvesse mais na história de sua família do que ela imaginava? Sua mãe, que ela mal lembrava, poderia ter tido um segredo?

Naquela noite, depois que Antônio se recolheu em seu próprio pequeno quarto improvisado, Mariana não conseguia dormir. A lua cheia, imensa e prateada, espreitava por entre as árvores, banhando a clareira em uma luz fantasmagórica. Ela saiu da cabana, sentindo o frio sutil da noite em seus pés descalços. A terra parecia vibrar sob seus pés, um pulso silencioso que ela agora conseguia sentir.

Ela caminhou em direção à orla da floresta, onde Kael aparecera. As árvores, altas e imponentes, pareciam sussurrar segredos antigos. A escuridão não mais a assustava. Era como se um véu tivesse sido retirado de seus olhos, e ela pudesse ver a vida pulsando em cada folha, em cada raiz.

De repente, um som a fez parar. Um canto. Não era um canto de pássaro, nem o uivo de um animal. Era um canto humano, baixo e melancólico, vindo das profundezas da mata. Uma melodia antiga, cheia de uma saudade que ela nunca sentira antes, mas que, de alguma forma, ressoava em sua alma.

Sem pensar, ela seguiu o som. A trilha se tornou mais densa, as árvores mais antigas e retorcidas. As raízes expostas pareciam veias da terra. O canto a guiava, como um fio invisível. Ela sentiu uma atração irresistível, como se o próprio chão a estivesse puxando para dentro.

Finalmente, ela chegou a uma clareira escondida, dominada por um círculo de pedras antigas e cobertas de musgo. As pedras eram enormes, com entalhes que pareciam ter sido feitos por mãos esquecidas pelo tempo. E no centro do círculo, sentado em uma das pedras, estava Kael. Ele cantava, a voz preenchendo o ar com a melodia triste e bela que Mariana ouvira. Seus olhos azuis, mesmo na penumbra, pareciam brilhar com uma luz própria.

Ao vê-la, ele parou de cantar, mas não demonstrou surpresa. Apenas um leve aceno de cabeça, como se soubesse que ela viria.

“Eu sabia que você viria”, disse ele, levantando-se. O manto escuro parecia se misturar com as sombras ao redor.

Mariana se aproximou, o coração acelerado. “O que é este lugar?”, perguntou, maravilhada com a energia que emanava das pedras.

“Este é um dos antigos altares”, explicou Kael, passando a mão sobre a superfície fria e áspera de uma das pedras. “Um lugar onde o véu entre os mundos é mais fino. Onde os encantos podem ser ouvidos, e a terra pode falar.”

“Encantos…”, Mariana repetiu, a palavra ecoando em sua mente. “Você falou sobre isso antes. Sobre uma herança.”

“Sim”, Kael concordou, virando-se para encará-la. A luz da lua iluminava seu rosto, revelando uma beleza austera e misteriosa. “Sua mãe não era apenas uma mulher da vila, Mariana. Ela era descendente de uma linhagem antiga, ligada aos espíritos da floresta, aos poderes que dormem sob a terra. E essa linhagem corre em suas veias.”

Mariana sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Sua mãe? A mulher gentil que ela mal lembrava? “Mas… ela nunca disse nada. Nós vivíamos uma vida simples.”

“Nem todos que possuem o dom desejam exibi-lo”, Kael disse suavemente. “Às vezes, o silêncio é a maior proteção. Mas a terra, Mariana, ela não esquece seus filhos. E quando o perigo se aproxima, ou quando a necessidade é grande, ela desperta o que dorme.”

“Perigo?”, Mariana perguntou, a apreensão voltando. “Que perigo?”

“O equilíbrio está sempre em risco”, Kael respondeu, o olhar distante, como se visse algo além daquela clareira. “E há forças que buscam explorar os poderes adormecidos, que buscam controlar a própria essência da vida. Sua herança, Mariana, é uma chave. Uma chave que pode abrir portas para a cura… ou para a destruição.”

Ele se aproximou dela, e Mariana não se afastou. Havia uma força em seus olhos que a atraía, uma verdade que ela não podia negar. “A febre que você sentiu, a marca em seu pulso… são sinais do despertar. A terra a está chamando para que você aprenda a usar o que herdou. Para que você possa proteger o que é precioso.”

“E você… você é um desses guardiões?”, Mariana perguntou, a voz um sussurro.

Kael sorriu, um sorriso genuíno desta vez, que iluminou seu rosto. “Eu sou alguém que sabe o caminho. Alguém que foi forjado nas mesmas chamas que agora começam a arder em você. Eu vim para guiá-la, Mariana. Para ensiná-la a forjar seu próprio destino.”

Ele estendeu a mão, e Mariana viu que em seu pulso esquerdo, onde sua marca de estrela repousava, havia uma tatuagem intricada, como uma constelação em miniatura, que parecia pulsar com uma luz suave. “Aqui, entre as pedras antigas, onde os espíritos da terra ainda ecoam, você pode começar a aprender. Você me permite?”

Mariana olhou para a mão estendida de Kael, depois para a floresta escura ao redor, para a lua prateada acima. Ela sentiu o pulso silencioso da terra sob seus pés, e a centelha de algo novo dentro de si. O medo ainda estava ali, mas agora misturado com uma coragem recém-descoberta, uma sede de conhecimento, uma necessidade de entender quem ela realmente era. Ela não era apenas a filha de um lenhador. Ela era mais.

Ela estendeu a mão e tocou a de Kael. Um choque elétrico percorreu seus corpos, não de dor, mas de reconhecimento. Um laço invisível se formou, antigo e poderoso.

“Sim”, ela disse, a voz firme e clara. “Permito.”

As pedras antigas pareceram sussurrar em resposta, e a lua prateada brilhou com mais intensidade, iluminando a clareira e os dois jovens ali reunidos, um novo capítulo de uma história esquecida começando a ser escrita sob o olhar atento da noite e dos espíritos da terra. A forja havia começado.

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