A Forja dos Encantados

Capítulo 3 — As Raízes e os Segredos

por Pedro Carvalho

Capítulo 3 — As Raízes e os Segredos

O sol mal havia rompido a linha do horizonte, tingindo o céu de tons suaves de rosa e pêssego, mas a clareira das pedras antigas já fervilhava de uma energia diferente. Mariana, com os cabelos presos em um rabo de cavalo desajeitado e o corpo ainda um pouco dolorido, mas revigorado, sentia-se estranhamente desperta. A noite passada, passada em conversas com Kael sob a luz prateada da lua, havia sido mais esclarecedora do que anos de vida comum. Ele lhe falara de um mundo oculto, de energias que fluíam pela natureza, de linhagens ancestrais e de responsabilidades que ela jamais imaginara carregar.

Kael, com sua serenidade incomum, explicara que sua mãe, Elara, havia tentado esconder seus dons para protegê-la de um passado turbulento e de pessoas que cobiçavam o poder que sua família possuía. Elara, nascida e criada na vila, sempre fora vista como uma mulher um pouco excêntrica, com uma ligação peculiar com as plantas e os animais. Ninguém desconfiava de sua verdadeira natureza.

“Sua mãe sentia a terra pulsando em suas veias, assim como você sente agora”, Kael disse, seus olhos azuis fixos em um ponto distante da floresta. “Ela aprendeu a amortecer essa conexão, a viver uma vida normal, para te dar uma infância pacífica. Mas as raízes são profundas demais para serem completamente podadas.”

Mariana olhou para suas mãos, as palmas levemente avermelhadas pelo contato com as pedras. Ela ainda não sentia nada de extraordinário, apenas uma sensação sutil de vitalidade. “Mas como eu vou aprender? Eu não tenho ideia de como usar… qualquer coisa.”

Kael sorriu, um movimento quase imperceptível de seus lábios. “O primeiro passo é sentir. A terra está viva, Mariana. Cada árvore, cada pedra, cada rio possui uma energia. Sua herança lhe permite sintonizar com essa energia. Você só precisa aprender a ouvir.”

Ele a guiou até uma antiga figueira, cujas raízes se espalhavam como tentáculos pela terra. “Sente-se aqui. Feche os olhos. E respire. Sinta o ar que entra em seus pulmões, o chão sob seus pés. Imagine que você é uma raiz, se espalhando pela terra, buscando nutrição.”

Mariana o obedeceu, hesitante no início, mas gradualmente se entregando à instrução. Ela fechou os olhos, sentindo o sol morno em seu rosto e a brisa suave acariciando sua pele. Concentrou-se na respiração, no ritmo constante que a ligava ao corpo e ao ambiente. Aos poucos, uma sensação estranha começou a emergir. Era como se ela pudesse sentir as minúsculas veias da figueira, a seiva correndo por seus galhos, a vida pulsando em seu cerne. Uma energia sutil, mas inegável.

“Eu… eu sinto algo”, ela sussurrou, os olhos ainda fechados. “É… vivo.”

“É a vida da floresta. A vida que corre em você também”, Kael respondeu, sua voz calma e encorajadora. “Agora, imagine essa energia subindo pelas raízes, chegando até você. Absorva-a. Deixe que ela preencha você.”

Mariana tentou. Imaginou a energia da árvore subindo por seus pés, percorrendo suas pernas, enchendo seu peito. Era como um calor suave, um formigamento agradável. Quando abriu os olhos, sentiu-se mais leve, mais vibrante. A floresta ao redor parecia mais nítida, as cores mais vivas.

“Você está começando a sintonizar”, Kael disse, um brilho de aprovação em seus olhos. “Mas isso é apenas o começo. Há muito mais para aprender. Os dons podem se manifestar de diversas formas: a cura, a telecinese, a comunicação com a natureza… sua herança é multifacetada.”

Eles passaram o resto da manhã explorando a área ao redor da clareira. Kael apontava para diferentes plantas, explicando suas propriedades medicinais e suas energias ocultas. Ele a ensinou a identificar o som do vento que anunciava chuva, o farfalhar de folhas que indicava a passagem de um animal, o brilho sutil de algumas flores que só desabrochavam sob a luz da lua. Era como se um mundo novo estivesse se abrindo diante dela, um mundo que sempre esteve ali, mas que ela nunca soubera enxergar.

Ao meio-dia, o aroma de fumaça pairou no ar. Antônio, preocupado com o sumiço de Mariana, apareceu na clareira, com a cesta de mantimentos nas mãos. Seu olhar recaiu sobre Kael, e uma sombra de desconfiança cruzou seu rosto.

“Mariana? Quem é esse?”, ele perguntou, a voz tensa.

Mariana se levantou rapidamente, sentindo um aperto no coração. “Pai, este é Kael. Ele… ele me ajudou quando eu estava doente.”

Antônio olhou Kael de cima a baixo, seus olhos percorrendo o manto escuro e o semblante sério do forasteiro. “Ajudou? Eu não sabia que tínhamos visitas por estas bandas.”

“Eu sou um viajante”, Kael respondeu, sua voz polida, sem demonstrar o desconforto da situação. “Estava de passagem e vi a menina em dificuldades. A floresta pode ser traiçoeira.”

“Eu sei bem como a floresta é”, Antônio retrucou, com um tom defensivo. “E minha filha sabe se cuidar.”

Mariana interveio, tentando apaziguar os ânimos. “Pai, Kael sabe muito sobre as plantas. Ele me ensinou algumas coisas novas.” Ela esperava que isso pudesse diminuir a desconfiança do pai.

Antônio olhou para a filha, notando a mudança em seu semblante. Ela parecia mais animada, mais confiante do que ele a vira em muito tempo. “Bem, se ele ajudou, então… bem-vindo. Mas não se acostume muito com a casa, pois logo precisaremos voltar para a vila.”

Kael assentiu levemente. “Compreendo perfeitamente. Minha estadia aqui é efêmera.”

O almoço foi tenso. Antônio observava Kael com desconfiança a cada movimento, enquanto Mariana tentava disfarçar a empolgação com as novas descobertas. Ela sabia que a presença de Kael era uma complicação, mas também sentia que ele era a chave para desvendar os mistérios de seu passado e de seu próprio potencial.

Após o almoço, Antônio decidiu que era hora de voltar para casa. Mariana sentiu uma pontada de decepção. Ela queria continuar ali, com Kael, aprendendo mais.

“Pai, eu ainda me sinto um pouco fraca para a caminhada longa”, ela disse, uma mentira piedosa. “Talvez eu possa ficar mais um dia aqui, para me recuperar completamente.”

Antônio ponderou por um momento, seu olhar alternando entre a filha e o forasteiro. Ele via nos olhos de Mariana um brilho diferente, um ímpeto que não existia antes. “Tudo bem, Mariana. Mas amanhã, sem falta, voltaremos para casa. E você, forasteiro, cuide bem da minha filha.”

Kael assentiu com uma seriedade que fez Antônio franzir a testa, mas não disse nada. Mariana sorriu para o pai, um sorriso aliviado.

Quando Antônio partiu, deixando-os sozinhos na clareira, Mariana se virou para Kael. “Obrigada”, ela disse, a voz carregada de gratidão.

“A gratidão é sua por me permitir guiá-la”, Kael respondeu. “Seu pai tem um bom coração, mas é um homem que vive na superfície. Ele não entende as correntes mais profundas que movem o mundo. Sua mãe sabia. E agora, você também começará a saber.”

Ele a levou de volta para a figueira. “Sua marca no pulso é um canal. Quando você se concentrar, sentirá um calor, uma pulsação. Use isso para se conectar com a terra. Sinta a energia que flui através dela. Tente direcioná-la, mesmo que seja um fio tênue.”

Mariana fechou os olhos novamente, tocando a marca de estrela. Ela se concentrou, tentando sentir a energia da árvore, o calor do sol. Lentamente, um fio de luz dourada pareceu emanar de sua marca, conectando-a à figueira. Era um fio frágil, quase invisível, mas era real. Ela o sentiu vibrar, puxando e sendo puxado.

“Isso é… incrível”, ela sussurrou, maravilhada.

“É apenas o começo”, Kael repetiu, como um mantra. “Cada dia, você fortalecerá essa conexão. Aprenderá a usar essa energia para curar, para proteger, talvez até para outras coisas que nem imaginamos ainda.”

Ele olhou para a marca no pulso de Mariana, depois para a sua própria. “O que eu possuo são cicatrizes de batalhas antigas. O que você possui é uma forja virgem. O potencial é imenso. Mas os perigos também são. Forças sombrias buscam os que possuem esses dons. Seu poder pode ser cobiçado.”

Mariana sentiu um arrepio de apreensão. “Quem são eles?”

“Por enquanto, não precisamos nos preocupar com nomes ou rostos. Basta saber que eles existem. E que sua força é a maior defesa que você terá. Sua mãe sabia disso. Ela sempre te amou, Mariana. E o amor dela é uma força que ainda reside aqui, neste lugar, e dentro de você.”

Ele se ajoelhou diante dela, pegando sua mão com delicadeza. Em seu pulso, a tatuagem de constelação parecia brilhar fracamente. “O seu destino não é mais apenas viver nesta cabana, filha de lenhador. Seu destino é ser uma Guardiã. E eu estou aqui para te ensinar como carregar esse fardo… e essa bênção.”

Mariana olhou para Kael, para a sinceridade em seus olhos azuis. Ela sentiu o pulso da terra, a energia da figueira fluindo através dela, e uma determinação nova e feroz crescendo em seu peito. Ela não sabia o que o futuro reservava, mas pela primeira vez, não sentia apenas medo. Sentia também esperança e uma profunda conexão com algo maior do que ela. As raízes de seu passado estavam se revelando, e com elas, os segredos de seu futuro.

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