A Forja dos Encantados

Capítulo 4 — O Legado das Sombras

por Pedro Carvalho

Capítulo 4 — O Legado das Sombras

O dia seguinte amanheceu com a promessa de uma nova rotina. Mariana, com a permissão relutante de seu pai, permaneceu na clareira com Kael, enquanto Antônio retornava à vila com a promessa de voltar em poucos dias para buscá-la. A despedida do pai fora carregada de uma preocupação palpável, mas Mariana sabia que ele entendia, mesmo que não compreendesse totalmente, que algo estava mudando nela.

Kael a guiou por práticas mais intensas. Ele a ensinou a sentir a pulsação de cada ser vivo, a ouvir os sussurros do vento, a distinguir as energias que emanavam das pedras antigas. A cada exercício, Mariana sentia um fortalecimento em sua conexão com a terra, como se um véu estivesse sendo gradualmente retirado de seus sentidos.

“A energia não é apenas algo que você sente passivamente”, Kael explicou, enquanto observavam uma pequena nascente borbulhar entre as rochas. “É algo que você pode influenciar. Curar. Moldar.” Ele colocou a mão sobre a água fria da nascente. “Imagine que você está limpando a água, removendo impurezas, restaurando sua pureza.”

Mariana fez o mesmo, focando sua atenção na pequena fonte. Ela visualizou a marca em seu pulso emitindo uma luz suave, uma luz que se espalhava pela água, purificando-a. A água parecia brilhar mais intensamente por um breve momento.

“Você consegue?”, Kael perguntou, um leve sorriso nos lábios.

“Eu acho que sim”, Mariana respondeu, surpresa e emocionada. “A água parece… mais viva.”

“É o seu toque. Sua intenção”, Kael disse. “Mas cuidado, Mariana. A energia que flui através de você é poderosa. Pode ser usada para o bem ou para o mal. E existem aqueles que cobiçam esse poder para propósitos sombrios.”

A menção ao perigo pairava no ar, como uma nuvem escura. Mariana não sabia quem eram essas pessoas, ou por que a queriam.

“Por que eu, Kael? Por que minha família?”, ela perguntou, a voz embargada pela incerteza.

Kael sentou-se em uma das pedras antigas, o olhar fixo em seus olhos. “Há muito tempo, houve um equilíbrio. Os Encantados, como eram chamados aqueles com seus dons, protegiam a terra e seus segredos. Mas a ganância e o poder corromperam alguns. Eles buscaram controlar os dons para seu próprio benefício, para subjugar a natureza e impor sua vontade. Uma grande guerra se seguiu, uma guerra que quase destruiu tudo.”

Ele fez uma pausa, como se revivendo memórias dolorosas. “Sua linhagem, Mariana, é uma das mais antigas e poderosas. Seus ancestrais foram pilares na proteção desse equilíbrio. Quando a guerra terminou, muitos Encantados se dispersaram, buscando se esconder para proteger a si mesmos e seus legados. Sua mãe foi uma delas. Ela escolheu uma vida de discrição, esperando que os tempos sombrios tivessem passado. Mas a história, infelizmente, tende a se repetir.”

“E essas pessoas que cobiçam o poder… elas sabem que eu existo?”, Mariana perguntou, o coração apertado.

“Elas sentem as flutuações de poder”, Kael explicou. “Sua marca, o despertar de seus dons… são como um farol. Elas sabem que há alguém com potencial. E quando sentirem que você está ganhando força, elas virão.”

O peso da responsabilidade começou a cair sobre Mariana. Ela não era apenas uma moça de vila, doente e assustada. Ela era portadora de um legado, uma peça em um jogo muito maior do que imaginava.

“Mas… não estamos seguros aqui?”, ela perguntou, olhando em volta para a clareira cercada pela floresta densa.

“Este lugar é um refúgio. Um santuário. As pedras antigas emanam uma energia protetora, um escudo natural contra aqueles com intenções malévolas. Mas é temporário. A energia pode ser sentida. E a força bruta… bem, a força bruta pode romper barreiras”, Kael disse, um toque de apreensão em sua voz.

De repente, um farfalhar diferente soou na orla da floresta. Não era o som usual de um animal. Era mais pesado, mais deliberado. Kael se levantou instantaneamente, seu corpo assumindo uma postura de alerta.

“O que foi isso?”, Mariana sussurrou, o medo retornando com força total.

“Alguém está nos observando”, Kael disse, seus olhos azuis varrendo a vegetação densa. “Pode ser um pressentimento. Ou pode ser real.”

Ele pegou uma pedra lisa e arredondada do chão, e em suas mãos, o objeto começou a emitir um brilho fraco e azulado. “Segure isso”, ele disse, entregando-a a Mariana. “É um canalizador. Ajudará a amplificar sua conexão com a terra. Se sentir perigo, concentre sua energia nele.”

Mariana pegou a pedra, sentindo um calor reconfortante emanar dela. O farfalhar se tornou mais audível, acompanhado pelo som de galhos se quebrando. Não era um animal. Eram pessoas.

“Precisamos sair daqui”, Kael disse, sua voz baixa e urgente. “O escudo das pedras é forte, mas não podemos arriscar um confronto direto ainda. Você não está pronta.”

Ele a puxou pela mão, guiando-a para uma passagem estreita entre duas rochas enormes, quase escondida pela vegetação. “Este é um caminho secreto. Sua mãe o conhecia. Ele nos levará para longe da clareira, para as profundezas da floresta. Mantenha a calma, Mariana. Respire. Sinta a terra. Ela irá guiá-la.”

Eles se embrenharam na passagem. A escuridão era quase total, e o ar ficou mais úmido e frio. O som dos intrusos na clareira parecia se aproximar. Mariana sentiu o medo se intensificar, mas a pedra em sua mão parecia irradiar uma força tranquilizadora. Ela fechou os olhos, concentrando-se, tentando sentir a energia da terra, como Kael a ensinara.

Ela sentiu. Sentiu as raízes das árvores ao redor, a rocha sólida sob seus pés, o fluxo sutil de água em algum lugar próximo. Era um sentimento de pertencimento, de força. Ela visualizou essa energia envolvendo-a, fortalecendo-a.

“Eles estão na clareira”, Kael sussurrou, a voz tensa. “Eles estão tentando romper o escudo.”

Mariana apertou a pedra em sua mão. Ela pensou em sua mãe, em seu pai, em sua vida simples que agora parecia tão distante. Ela não queria que esse mundo sombrio a alcançasse. Ela não queria que seu legado se tornasse uma arma nas mãos erradas.

“Eu… eu posso tentar afastá-los?”, ela perguntou, a voz trêmula, mas decidida.

Kael a olhou, uma mistura de surpresa e preocupação em seus olhos. “Você tem certeza? Ainda é perigoso.”

“Eu tenho que tentar”, Mariana respondeu, o olhar fixo na escuridão à frente. “Eles não podem ter o que é nosso.”

Kael assentiu lentamente. “Então, concentre toda a sua energia na pedra. Imagine que você está empurrando. Empurrando-os para longe. Use o poder da terra. Use sua própria força.”

Mariana fechou os olhos, respirou fundo e apertou a pedra com toda a força. Ela visualizou a clareira, as pedras antigas. Imaginou uma onda de energia, uma força invisível, emanando da terra, crescendo e crescendo. Ela sentiu a pulsação da floresta em suas veias, a força das raízes, a solidez das pedras. Ela concentrou tudo em um único ponto, um impulso poderoso.

Por um momento, ela sentiu uma resistência. Uma força escura que parecia tentar contê-la. Mas Mariana não cedeu. Ela pensou em sua herança, em sua mãe, em seu direito de existir em paz. Ela liberou a energia.

Um tremor sutil percorreu o túnel. Mariana abriu os olhos, ofegante.

“O que aconteceu?”, ela perguntou.

Kael sorriu, um sorriso genuíno de alívio e admiração. “Você os afastou, Mariana. O escudo se fortaleceu por um momento, e sua força os empurrou para trás. Eles não conseguirão entrar facilmente agora.”

Ele a olhou com um novo respeito. “Você tem um poder incrível. Mais do que eu imaginava. Sua mãe lhe deixou um legado forte.”

Mariana sentiu uma onda de exaustão, mas também de triunfo. Ela havia enfrentado o perigo, mesmo que de longe, e havia vencido.

“O que faremos agora?”, ela perguntou, a adrenalina diminuindo.

“Agora, precisamos ir mais fundo na floresta”, Kael respondeu. “Precisamos encontrar um lugar seguro para que você possa continuar aprendendo, para que possa se fortalecer. O tempo está se esgotando. Eles sabem que você está aqui. E eles virão novamente.”

Ele a guiou para fora do túnel estreito, em direção a uma parte ainda mais densa e selvagem da floresta, onde a luz do sol mal penetrava. A aventura de Mariana estava apenas começando, e as sombras do passado, como ele havia dito, já começavam a se estender para alcançá-la. O legado de sua mãe não era apenas um presente, mas também um fardo, e a forja de seu destino seria um caminho repleto de perigos e descobertas.

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