A Sombra do Boitatá Ancestral

Capítulo 12 — A Cidade Submersa e os Ecos do Passado

por Rafael Rodrigues

Capítulo 12 — A Cidade Submersa e os Ecos do Passado

O ar dentro do portal era denso e carregado, como se tivessem atravessado um véu invisível que separava a realidade conhecida de um mundo esquecido. Kai e Luna, seguidos de perto pela Fúria Primordial, desceram por um túnel inclinado e úmido. A luz azulada do portal se desvaneceu lentamente atrás deles, mergulhando-os em uma escuridão que só era quebrada pelos olhos brilhantes do jaguar e pela luz fraca que emanava de uma tocha improvisada que Kai havia acendido.

O túnel se alargou gradualmente, e o som de água pingando se tornou mais proeminente, acompanhado por um murmúrio distante que lembrava o bater de ondas em uma praia longínqua. O chão sob seus pés mudou de terra para pedra polida, lisa e fria ao toque. A umidade se intensificou, e um cheiro salgado, misturado com o aroma de musgo e algas, preencheu o ambiente.

"Estamos indo para baixo", disse Luna, sua voz ecoando fracamente no espaço confinado. "E parece que a água está nos chamando."

De repente, o túnel se abriu em uma vasta caverna natural, cujas paredes se estendiam para cima em uma escuridão impenetrável. No centro da caverna, um lago subterrâneo de águas cristalinas refletia a pouca luz que possuíam, criando um espetáculo etéreo. E emergindo das profundezas desse lago, como ruínas de um sonho esquecido, estavam as estruturas de uma cidade antiga.

Edifícios de pedra esculpida, cobertos de musgo e algas, erguiam-se parcialmente das águas. Arcos delicados, colunas quebradas e escadarias que levavam a lugar nenhum adornavam a paisagem submersa. Parecia um santuário abandonado, um reino perdido que o tempo havia engolido.

"Meu Deus...", sussurrou Luna, seus olhos arregalados de espanto. "O que é isso?"

Kai não conseguia responder. A visão era de uma beleza melancólica e sobrecogedora. As construções exalavam uma aura de antiguidade, de uma civilização que floresceu e desapareceu, deixando apenas seus ecos nas profundezas da terra. Ele sentiu uma conexão estranha com aquele lugar, como se uma parte de si pertencesse àquelas ruínas.

O jaguar saltou para a margem do lago, seus olhos fixos nas estruturas submersas. Ele soltou um uivo baixo, um som que parecia carregar uma saudade ancestral. Parecia que ele reconhecia aquele lugar.

"A Fúria Primordial parece conhecer este lugar", observou Kai. "Talvez ele tenha estado aqui antes, ou seus ancestrais tenham tido uma ligação com esta cidade."

Eles se aproximaram da beira do lago. A água era tão clara que podiam ver o fundo de pedras lisas e, em alguns pontos, vestígios de mosaicos desbotados. A cidade parecia ter sido engolida pela água de forma abrupta, preservando seus detalhes como um tesouro afogado.

"Parece que foi uma inundação repentina", comentou Luna, examinando a forma como as construções foram engolidas. "Mas por quê? E onde foram parar as pessoas?"

Kai sentiu um aperto no peito. A pergunta de Luna o remeteu aos contos de cidades perdidas e cataclismos esquecidos. Ele lembrou-se do desespero que sentiu nas Terras de Cinzas, do eco da dor que parecia emanar da terra.

"Talvez o que aconteceu aqui esteja ligado ao que está acontecendo com a Floresta Ancestral", disse Kai, sua voz tensa. "A mesma força que causou a destruição aqui pode ser a mesma que está esgotando a vitalidade da floresta."

Enquanto falava, Kai sentiu um puxão sutil em sua mente, como se alguém estivesse tentando se comunicar com ele. Ele fechou os olhos por um instante, concentrando-se. Imagens fragmentadas surgiram em sua mente: rostos preocupados, o brilho de uma luz sinistra na água, o rugido de uma criatura colossal, e o som de um grito coletivo que se perdeu nas profundezas. E no centro de tudo, uma sombra escura e flamejante, que se assemelhava a uma serpente de fogo.

"Eu vi...", sussurrou Kai, abrindo os olhos. "Algo... uma sombra. Uma grande sombra que veio das profundezas. E então a água subiu."

Luna o olhou com preocupação. "Você está tendo visões de novo?"

"Sim", respondeu Kai. "São fragmentos. E todos parecem apontar para algo terrível que aconteceu aqui. Uma catástrofe. E a sombra... ela se parecia com o Boitatá."

O jaguar rosnou, e uma névoa fina começou a se formar ao redor de suas patas, como se sua própria energia estivesse reagindo às palavras de Kai.

"Então, o Boitatá não é apenas um guardião?", perguntou Luna, pensativa. "Ou talvez... talvez essa sombra que você viu seja um reflexo corrompido da verdadeira essência do Boitatá. Algo sombrio e destrutivo."

Kai concordou. "Ixã disse que o Boitatá Ancestral protege a Floresta. Mas ele também disse que a Sombra pode corromper até mesmo a luz mais pura." Ele olhou para a cidade submersa, para as ruínas silenciosas. "Talvez esta cidade tenha sido vítima de uma manifestação corrompida do Boitatá. Ou talvez a própria floresta, em seu desespero, esteja atraindo essa sombra."

Eles precisavam explorar. Com cautela, Kai e Luna começaram a caminhar pelas margens do lago, com a Fúria Primordial os seguindo de perto. A cada passo, sentiam a presença do passado, a história silenciosa daquela cidade que um dia prosperou. Eles encontraram altares deteriorados, estátuas de divindades esquecidas e vestígios de um povo que amava e vivia sob a proteção de suas próprias crenças.

Em uma praça central, parcialmente submersa, onde um grande obelisco de pedra se erguia precariamente, Kai notou algo gravado na base, visível apenas quando a água baixava ligeiramente. Eram símbolos antigos, diferentes de qualquer coisa que ele já tivesse visto, mas que pareciam familiares em sua essência. Eram símbolos de proteção, de um pacto com a natureza, e de um aviso.

"Olha isso, Luna", disse Kai, apontando.

Luna se abaixou, molhando as mãos. Ela estudou os símbolos com atenção. "São antigos... muito antigos. Parecem representar um acordo. Um acordo para manter algo perigoso sob controle. E parece que a própria cidade era um tipo de selo."

"Um selo para quê?", perguntou Kai.

Antes que Luna pudesse responder, o jaguar soltou um rosnado agudo e levantou as orelhas. A névoa ao redor dele se intensificou, e seus olhos dourados brilharam com uma intensidade alarmante. A água do lago começou a ondular, não por causa de uma corrente, mas como se algo estivesse se movendo por baixo.

"Algo está vindo", disse Kai, sua voz baixa e alerta.

Da escuridão sob as águas, uma forma escura e sinuosa começou a emergir. Não era uma criatura viva no sentido comum, mas uma manifestação de energia sombria, uma sombra aquática que se retorcia e se contorcia. E no centro dessa sombra, brilhavam dois pontos de luz vermelha, como olhos malévolos.

"A sombra...", sussurrou Kai, seu coração disparado. "A sombra que eu vi na minha visão."

A sombra aquática avançou em direção a eles, emitindo um som sibilante que parecia ecoar com o desespero da cidade submersa. A Fúria Primordial saltou à frente, rugindo desafiadoramente, pronto para defender Kai e Luna. Os ecos do passado ganharam vida, e a batalha pela sobrevivência, mais uma vez, estava prestes a começar.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%