A Sombra do Boitatá Ancestral

Capítulo 17 — A Clareira do Véu e a Sombra de Valerius

por Rafael Rodrigues

Capítulo 17 — A Clareira do Véu e a Sombra de Valerius

O amuleto que Lyra lhes concedera pulsava com uma luz suave e constante em cada passo que Lira e Kael davam. Ele não emitia um feixe de luz direcionado, mas sim uma aura difusa que parecia atrair a vegetação, abrindo um caminho sutil por onde passavam. A cada metro percorrido, a floresta se tornava mais densa, mais antiga, e o ar carregava um perfume adocicado e terroso, um aroma de vida e decomposição em eterno ciclo. Os sons da mata, antes dispersos e variados, agora pareciam convergir para um único murmúrio profundo, como se a própria terra estivesse prendendo a respiração em antecipação.

Finalmente, após o que pareceram horas de caminhada, o amuleto começou a pulsar com mais intensidade, e a vegetação à frente se afastou abruptamente, revelando uma clareira circular. A grama ali era de um verde vibrante, quase irreal, e no centro, um círculo de pedras antigas, desgastadas pelo tempo e cobertas de musgo, parecia emanar uma energia palpável. O ar na clareira vibrava, como se estivessem pisando em uma membrana tênue, um limiar entre realidades. Era a Clareira do Véu, o lugar onde o mundo físico se encontrava com o espiritual.

“É aqui”, disse Kael, sua voz baixa e reverente. Seus olhos escrutinavam a clareira, buscando qualquer ameaça oculta. A sensação de estar sendo observado era quase sufocante, um presságio que pairava sobre a tranquilidade aparente do lugar.

Lira sentiu a energia da clareira penetrar em seus ossos, uma corrente elétrica que a fazia vibrar. Era um lugar de poder bruto, mas também de uma vulnerabilidade assustadora. A chama que ela portava em seu peito, o fragmento do Boitatá, respondeu à energia do local, pulsando com mais força, projetando uma luz dourada que dançava em seus olhos.

“Precisamos começar o ritual”, disse Lira, sentindo a urgência em cada fibra de seu ser. A conexão com o Boitatá se intensificava, e ela podia sentir a angústia do espírito ancestral, a luta para resistir à escuridão que o aprisionava.

Enquanto Kael se posicionava em um dos lados do círculo de pedras, preparando-se para as defesas, Lira adentrou o centro da clareira. Ela fechou os olhos, respirando fundo a essência daquele lugar. Lembrou-se da canção das Dryads, das palavras de sabedoria de Lyra. O ritual exigia mais do que encantamentos; exigia a fusão de sua própria energia vital com a do Boitatá, um ato de entrega e de sacrifício.

Ela estendeu as mãos, permitindo que a chama em seu peito se expandisse. A luz dourada envolveu-a, projetando sua sombra sobre a grama. Ela começou a entoar as palavras que as Dryads lhe haviam ensinado, uma melodia antiga que falava de equilíbrio, de renascimento, de conexão. A cada sílaba, a grama ao seu redor parecia ganhar vida, as flores se abriam em uníssono, e as pedras ancestrais brilhavam com um brilho tênue.

Mas a paz da clareira foi quebrada por um som cortante, o eco de um aço encontrando aço. Um grito de dor irrompeu do lado da clareira onde Kael estava. Lira abriu os olhos, o ritual interrompido, e viu uma cena de horror.

Emergindo da mata, um grupo de guerreiros encapuzados, armados com espadas negras e escudos que refletiam a luz de forma sinistra, atacava Kael. Ele lutava bravamente, sua espada cortando o ar com precisão mortal, mas eram muitos, e a surpresa fora total. Em meio aos atacantes, Lira reconheceu uma figura que lhe gelou o sangue. Valerius.

Ele não usava mais suas vestes opulentas, mas sim uma armadura escura e ameaçadora, adornada com símbolos que Lira não reconhecia. Em suas mãos, empunhava uma espada que parecia feita de obsidiana, exalando uma aura de escuridão e corrupção. Seus olhos, antes cheios de ambição, agora ardiam com uma fúria fria e calculista.

“Pare, Valerius!”, gritou Lira, sua voz embargada pela raiva e pelo medo. “O que você está fazendo?”

Valerius sorriu, um sorriso cruel que não alcançava seus olhos. “O que eu sempre fiz, Lira. Buscando o poder. Você acha que esse espírito ancestral pode ser controlado por uma garotinha ingênua? Ele é uma força da natureza, e a natureza, em sua essência, é caos. Eu não busco controlá-lo, mas sim libertar o verdadeiro caos que ele representa.”

Ele moveu sua espada, e uma onda de energia sombria atingiu Kael, jogando-o para trás com violência. Kael cambaleou, mas se levantou, o corpo ferido, mas o espírito intacto.

“Você está enganado, Valerius”, disse Kael, sua voz rouca de dor. “O Boitatá é um guardião, não um destruidor. Você está brincando com forças que não entende.”

“Eu entendo o suficiente para saber que o poder está em quem o usa!”, retrucou Valerius. Ele avançou em direção a Lira, ignorando Kael. “E você, minha querida, é a chave. Aquele fragmento que você carrega… ele é o elo que nos conectará ao poder total do Boitatá. Entregue-o a mim, e eu pouparei sua vida.”

Lira sentiu a chama em seu peito arder com intensidade. Ela sabia que não poderia entregar o fragmento. Era a única conexão com o espírito que ela tinha, a única chance de salvá-lo. Ela agarrou o amuleto das Dryads, sentindo sua energia protetora se misturar à chama.

“Nunca!”, gritou Lira. Ela ergueu as mãos, direcionando a energia da clareira e a chama do Boitatá para Valerius. Não era um ataque direto, mas uma onda de energia pura, tentando repeli-lo.

Valerius riu. “Tola! Sua energia é patética comparada ao que eu domino!” Ele ergueu sua espada de obsidiana, e uma sombra espessa começou a emanar dela, engolindo a luz dourada de Lira.

A sombra de Valerius se estendeu pela clareira, distorcendo as cores, transformando a grama vibrante em algo cinzento e sem vida. As pedras ancestrais pareceram perder seu brilho, o véu entre os mundos começou a se fechar, e a energia da clareira se tornou instável. Era como se a própria natureza estivesse recuando diante da escuridão.

Kael, apesar de ferido, se lançou novamente contra Valerius, tentando desviar sua atenção. Ele sabia que Lira precisava de tempo para completar o ritual, para reestabelecer a conexão com o Boitatá. A batalha se tornou frenética. O som das espadas ecoava na clareira, misturando-se aos gritos de dor e aos grunhidos de esforço.

Lira, sentindo o perigo iminente, fechou os olhos novamente. Ela ignorou a luta ao seu redor, concentrando-se na essência do Boitatá. Ela precisava se reconectar, não apenas com a força, mas com a alma do espírito. Ela imaginou as escamas douradas, os olhos flamejantes, não como uma criatura de destruição, mas como um ser de luz e proteção.

“Grande Guardião”, sussurrou Lira, sua voz mal audível. “Eu sinto sua dor. Eu sinto seu aprisionamento. Mas a força que te aflige não é invencível. Permita que eu te ajude. Permita que eu seja seu canal, seu escudo.”

Ela estendeu as mãos para o centro do círculo de pedras, e o amuleto das Dryads brilhou intensamente, emitindo uma luz verde esmeralda. A luz se misturou à chama dourada em seu peito, criando uma aura multicolorida que parecia vibrar em harmonia com a terra.

Valerius sentiu a mudança na energia da clareira. A energia sombria que ele emanava parecia encontrar resistência. Ele olhou para Lira, seus olhos injetados de sangue.

“Você não pode me deter, garota!”, gritou ele, concentrando toda a sua força em um único ataque contra Kael.

Kael, exausto, foi arremessado contra uma das pedras ancestrais. Ele caiu, a respiração ofegante, a visão turva. O caminho para Lira estava livre. Valerius deu um passo em direção a ela, sua espada de obsidiana erguida, pronta para desferir o golpe final.

Mas no momento em que Valerius estava prestes a atacar, um rugido ancestral ecoou pela clareira, um som que não vinha de nenhum lugar e de todos os lugares ao mesmo tempo. A terra tremeu, as pedras ancestrais brilharam com uma luz ofuscante, e a grama ao redor de Lira irrompeu em chamas. Não eram chamas de destruição, mas de pura energia vital, um turbilhão de luz dourada e verde que envolveu Lira, protegendo-a.

O reflexo das chamas dançou nos olhos de Valerius, revelando uma mistura de espanto e fúria. Ele havia subestimado a conexão de Lira com o Boitatá. A chama em seu peito, agora fortalecida pela energia da clareira e pela canção das Dryads, irrompeu em sua glória total, não como um fragmento, mas como um farol de esperança. A sombra de Valerius recuou, incapaz de suportar a luz que emanava do coração da floresta. A luta estava longe de terminar, mas naquele momento, Lira havia provado que a verdadeira força não reside na escuridão, mas na luz que reside em todos nós, esperando para ser despertada.

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