A Sombra do Boitatá Ancestral

Capítulo 19 — O Sussurro das Ruínas e o Pacto Sombrio

por Rafael Rodrigues

Capítulo 19 — O Sussurro das Ruínas e o Pacto Sombrio

Deixaram a Clareira do Véu com uma nova determinação, mas também com a consciência amarga de que a vitória era apenas um interlúdio. O Boitatá Ancestral estava livre, mas Valerius, embora derrotado e humilhado, ainda representava uma ameaça latente. A energia da floresta, renovada e vibrante após o ritual, parecia sussurrar avisos em cada brisa que acariciava seus rostos. A jornada de volta para as terras civilizadas seria árdua, e a missão de Lira de unir as forças do bem, recém-adquirida, parecia monumental.

A luz do sol, agora mais generosa, guiava seus passos através da mata. Kael, apesar dos ferimentos, mantinha-se firme, seus olhos sempre vigilantes, mas com um brilho de esperança renovada. Lira sentia a presença do Boitatá em seu interior, um calor reconfortante que a impulsionava para frente.

“Valerius não desistirá”, disse Kael, quebrando o silêncio. “Ele é movido por uma ambição que se alimenta da própria escuridão. Precisamos ser rápidos.”

“Eu sei”, respondeu Lira, sua voz firme. “Mas o Boitatá nos deu a esperança. Ele nos mostrou que a união é a verdadeira força. Precisamos acreditar nisso, Kael. Precisamos encontrar aqueles que ainda se lembram da luz.”

À medida que se afastavam da Montanha Sombria, a paisagem começou a mudar. As árvores imponentes deram lugar a colinas mais suaves, e o ar se tornou mais seco e poeirento. Um aroma de rocha e de tempo antigo pairava no ar. Eles estavam se aproximando das Ruínas de Aethelgard, uma cidade esquecida, outrora próspera, agora reduzida a escombros e lendas.

“Por que Aethelgard?”, perguntou Kael, franzindo a testa. “Não há nada lá além de pó e fantasmas.”

“É o que dizem”, respondeu Lira, um brilho de conhecimento em seus olhos. “Mas as lendas também falam de um pacto antigo, um acordo entre os fundadores de Aethelgard e os espíritos da terra, antes que a ganância e o esquecimento os consumissem. Talvez, em meio às ruínas, possamos encontrar alguma pista, alguma conexão com a antiga sabedoria que Valerius tanto despreza.”

Chegaram às margens das ruínas ao entardecer. O sol poente pintava o céu com tons de laranja e vermelho, lançando longas sombras sobre as pedras desmoronadas. Arcos quebrados, colunas caídas e paredes desintegradas se estendiam até onde a vista alcançava, um testemunho silencioso de uma civilização que se perdera para o tempo. O vento assobiava através das fendas, criando um lamento fantasmagórico que ecoava a tragédia do lugar.

Enquanto exploravam os destroços, Lira sentiu uma perturbação sutil na energia ao redor. Era diferente da energia pura da floresta, era algo mais denso, mais carregado de tristeza e de um poder latente. Ela parou diante de um altar parcialmente soterrado, adornado com símbolos desgastados que lembravam vagamente os que ela vira na caverna dos cristais.

“Este lugar…”, murmurou Lira, tocando a pedra fria. “Há algo aqui. Uma energia antiga, mas corrompida.”

Kael se juntou a ela, sua espada em punho, seus sentidos aguçados. “Eu sinto também. É um tipo de poder sombrio, mas não é a mesma escuridão que Valerius emana. É mais antigo, mais… desesperado.”

Enquanto examinavam o altar, um som de passos lentos e arrastados se fez ouvir em meio ao vento. Emergiu de trás de uma pilha de pedras uma figura encapuzada, sua túnica esfarrapada e empoeirada. Não era um dos guerreiros de Valerius; havia algo mais antigo, mais desolado em sua presença. Seus olhos, visíveis nas sombras do capuz, brilhavam com uma luz fraca e amarelada, como brasas moribundas.

“Intrusos”, sibilou a figura, sua voz como o raspar de pedras. “O que buscam nas ruínas esquecidas de Aethelgard?”

“Viemos em busca de sabedoria”, respondeu Lira, mantendo a calma. “As lendas falam de um pacto antigo que os fundadores desta cidade fizeram com os espíritos da terra.”

A figura riu, um som seco e sem alegria. “Pactos… eles são feitos de promessas e quebrados pela ambição. Aethelgard caiu não por falta de espíritos, mas por excesso de homens. Eles buscavam mais do que a terra podia dar, e assim, tudo foi perdido.”

“Mas o que aconteceu com os espíritos?”, perguntou Kael. “Onde eles estão agora?”

“Eles se foram”, disse o encapuzado, sua voz carregada de um pesar profundo. “Ou se foram… ou foram corrompidos. Aqueles que permaneceram, presos entre o mundo e o esquecimento, se alimentam da própria desolação. E alguns… alguns fizeram um novo pacto.”

A figura estendeu uma mão ossuda, revelando um amuleto que parecia feito de ossos polidos e pedras escuras. Lira e Kael sentiram uma onda de energia negativa emanar dele, uma força que tentava se infiltrar em suas mentes, sussurrando tentações de poder e vingança.

“Você busca libertar um espírito ancestral”, continuou o encapuzado, seus olhos amarelados fixos em Lira. “Eu também busco libertar os espíritos aprisionados de Aethelgard. Mas o caminho para a liberdade não é a luz, mas o poder. Um poder sombrio, que emana da própria ruína.”

Lira sentiu a chama em seu peito pulsar com repulsa. Aquela não era a sabedoria que buscavam. Era a mesma escuridão que Valerius invocava, uma busca egoísta por poder, travestida de necessidade.

“Você está enganado”, disse Lira firmemente. “O poder que você busca só trará mais destruição. O Boitatá Ancestral não é um instrumento de caos, mas um guardião do equilíbrio. A verdadeira liberdade vem da harmonia, não da dominação.”

“Harmonia?”, zombou o encapuzado. “A harmonia é uma ilusão para os fracos. O mundo é regido pela força, e a força reside naqueles que ousam tomar o que desejam. Valerius entende isso. Ele também busca poder.”

A revelação atingiu Lira como um raio. Valerius. Ele estava envolvido nisso. “Você está trabalhando com Valerius?”

“Valerius é apenas um peão no jogo maior”, respondeu o encapuzado, um sorriso sombrio se formando em seus lábios invisíveis. “Ele busca o poder do Boitatá, mas eu busco um poder muito mais antigo, um poder que foi selado nas profundezas destas ruínas. Um pacto sombrio, forjado com os fragmentos da alma de Aethelgard. E você, portadora da chama, será a chave para liberá-lo.”

A figura avançou, e Lira e Kael se prepararam para a batalha. Mas antes que pudessem reagir, o encapuzado levantou o amuleto de ossos. Um tremor percorreu as ruínas, e as pedras ao redor começaram a se mover, a se erguer, como se ganhassem vida própria.

“Não posso permitir que você interfira!”, sibilou o encapuzado. “O pacto deve ser selado!”

O chão sob seus pés começou a se abrir, revelando um abismo escuro. O vento que soprava pelas ruínas agora carregava sussurros de dor e de desespero, as vozes dos espíritos aprisionados. Lira sentiu a presença de Valerius, fraca, mas inegável, emanando da escuridão. Ele estava ali, atraído pela energia do pacto sombrio.

“Valerius!”, gritou Lira, sentindo a urgência em sua voz. “Deixe de lado essa busca cega por poder! O que você procura aqui só o consumirá!”

Um riso sombrio ecoou do abismo. “Você fala de consumo, Lira? Eu falo de ascensão! E este pacto me dará o poder para alcançar o que almejo. O Boitatá está livre, mas sua força ainda pode ser manipulada. E eu… eu me tornarei algo muito maior do que ele.”

O encapuzado, que se autodenominava o Guardião das Ruínas, ergueu o amuleto mais alto. “O pacto será selado! Aethelgard renascerá, não em glória, mas em sombra!”

As pedras ganharam movimento, formando uma barreira entre Lira e Kael e o abismo. A energia sombria se intensificou, e Lira sentiu a chama em seu peito lutar contra aquela influência corruptora. Ela olhou para Kael, seus olhos transmitindo uma mensagem de determinação.

“Não podemos deixar que isso aconteça”, disse Lira. “Precisamos entrar naquele abismo. Precisamos confrontar Valerius e este Guardião.”

Kael assentiu, sua mão apertando o cabo de sua espada. “Eles subestimam a força que você carrega, Lira. E eles subestimam a nossa vontade.”

Com um último olhar para as ruínas sombrias, Lira e Kael mergulharam no abismo, em direção ao cerne do pacto sombrio, onde a ambição de Valerius e a desolação dos espíritos aprisionados se encontravam. A promessa de um novo começo para o Boitatá Ancestral agora era ofuscada pela ameaça iminente de uma escuridão ainda mais antiga e insidiosa, e eles sabiam que esta seria uma batalha onde a própria alma do mundo estava em jogo.

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