A Sombra do Boitatá Ancestral

Capítulo 20 — O Abismo dos Ecos e a Escolha Cruel

por Rafael Rodrigues

Capítulo 20 — O Abismo dos Ecos e a Escolha Cruel

O mergulho no abismo de Aethelgard foi como cair em um vazio sem fim. A escuridão era absoluta, densa, palpável, engolindo qualquer vestígio de luz. O vento que antes assobiava pelas ruínas agora se transformava em um coro de sussurros agoniantes, fragmentos de memórias, lamentos de dor e ecos de promessas quebradas. Lira sentiu a presença de Valerius e do Guardião das Ruínas mais perto do que nunca, a energia sombria pulsando ao redor deles, como um veneno que se infiltrava na alma.

Kael lutava para manter o equilíbrio, sua espada erguida como se pudesse afastar a escuridão com o aço. “Lira, você está bem?”

“Estou bem”, respondeu Lira, sua voz abafada pela densidade do ar. Ela concentrou-se na chama em seu peito, o fragmento do Boitatá. A luz dourada e verde, embora fraca, era um farol de esperança naquele mar de trevas. Ela sentiu a energia do pacto sombrio tentando se infiltrar nela, sussurrando sobre o poder que ela poderia ter se se entregasse à escuridão. Mas a memória da canção das Dryads e a sabedoria do Boitatá Ancestral a mantinham firme.

Finalmente, seus pés tocaram um solo instável. A escuridão começou a se dissipar gradualmente, revelando um vasto salão subterrâneo. As paredes eram feitas de rocha bruta, mas em algumas partes, Lira podia ver vestígios de esculturas antigas, agora profanadas e corrompidas pela energia sombria. No centro da caverna, um altar colossal, ainda mais antigo e sinistro que o das ruínas acima, pulsava com uma luz escura e doentia. Ao redor dele, figuras encapuzadas, os seguidores do Guardião das Ruínas, estavam em transe, seus corpos em uníssono com a energia do altar.

E ali, de pé diante do altar, estava Valerius. Ele não estava mais em sua armadura escura; suas vestes agora eram de um tecido negro e lustroso, adornadas com símbolos que pareciam se contorcer e mudar. Em suas mãos, ele segurava um fragmento de cristal negro, que emitia uma luz fria e sinistra. Ao seu lado, o Guardião das Ruínas, com seu amuleto de ossos, observava Valerius com um sorriso de predador.

“Bem-vindos ao coração do meu poder, Lira”, disse Valerius, sua voz ecoando pela caverna. Havia um tom de triunfo doentio em suas palavras. “Você chegou tarde demais. O pacto está quase completo.”

“Você se enganou, Valerius”, disse Lira, sua voz cheia de convicção. “Este pacto não lhe trará poder, apenas destruição. Você está se tornando o que jurou destruir.”

Valerius riu, um som que parecia arranhar as paredes da caverna. “Destruição? Eu chamo isso de renascimento! Aethelgard foi destruída pela ganância dos homens. Agora, será reconstruída, não com tijolos e argamassa, mas com a própria essência do poder. E eu serei seu arquiteto!”

O Guardião das Ruínas acrescentou, com sua voz sibilante: “O Boitatá Ancestral é um guardião, sim. Mas um guardião em declínio. O mundo precisa de uma nova ordem, uma ordem forjada na força e na ambição. E você, Lira, com seu fragmento de chama, é a chave para libertar o verdadeiro poder que reside aqui.”

Ele ergueu o amuleto de ossos, e o cristal negro nas mãos de Valerius brilhou com mais intensidade. Lira sentiu a energia sombria tentar puxá-la para o altar, como uma força gravitacional sinistra. A chama em seu peito ardia ferozmente, como se estivesse lutando contra a influência corruptora.

“Não posso permitir isso”, disse Lira. Ela estendeu as mãos, e a chama em seu peito irrompeu, não mais como um fragmento, mas como uma força vibrante de luz dourada e verde.

Valerius e o Guardião das Ruínas sorriram. “Finalmente!”, exclamou Valerius. “A conexão está completa!”

O cristal negro nas mãos de Valerius começou a pulsar com uma luz que parecia sugar a própria energia da caverna. Os seguidores do Guardião das Ruínas se moveram em uníssono, entoando palavras em uma língua antiga e gutural.

“O que está acontecendo?”, perguntou Kael, sentindo a energia da caverna se tornar instável.

“Ele está usando a energia do Boitatá para alimentar o pacto”, explicou Lira, sentindo a conexão com o espírito ancestral ser esticada ao limite. “Mas a força do Boitatá não é uma fonte de escuridão, é uma fonte de vida. Ele está tentando distorcer sua essência.”

De repente, a caverna tremeu. No altar, uma figura sombria começou a se formar, uma silhueta amorfa, envolta em trevas, mas com um brilho sinistro em seu centro. Não era o Boitatá Ancestral, mas algo mais antigo, mais primordial, uma entidade que parecia representar a própria essência do caos e da destruição. Era o espírito que o pacto prometia libertar.

Valerius riu histericamente. “Eu o liberto! Eu me torno o mestre da nova ordem!”

Mas o Guardião das Ruínas observava com um olhar de satisfação sombria. “Você libera, mas não controlará, Valerius. Este poder é antigo demais para ser domado por um mortal ambicioso.”

A entidade sombria começou a se expandir, a engolir a luz que Lira projetava. Os sussurros na caverna se tornaram gritos de terror. Lira sentiu uma dor aguda em seu peito, como se a conexão com o Boitatá estivesse se rompendo.

“Ele está me usando!”, gritou Valerius, percebendo tardiamente o erro de seu pacto. “Eu não posso controlá-lo!”

O Guardião das Ruínas deu um passo à frente. “Ninguém pode controlar a verdadeira essência do caos, Valerius. Apenas usufruir dele. Mas você foi um peão útil.”

Com um movimento rápido, o Guardião das Ruínas arrancou o cristal negro das mãos de Valerius. A entidade sombria, agora alimentada pela energia do cristal e pela força vital de Valerius, que parecia murchar diante do poder que ele havia ajudado a invocar, se voltou para o Guardião das Ruínas.

“Não!”, gritou Valerius, tentando lutar, mas o Guardião das Ruínas o repeliu com um gesto, sua força aumentada pela absorção do cristal.

Lira viu a oportunidade. O pacto estava se voltando contra seus criadores. A entidade sombria era um poder bruto, descontrolado, e agora, o Guardião das Ruínas era seu receptáculo. Mas a força vital de Valerius estava sendo drenada, e o pacto ainda estava ligado ao Boitatá.

“Kael!”, gritou Lira. “Precisamos quebrar a conexão!”

Enquanto Valerius era consumido pela energia sombria, Lira focou toda a sua força na chama em seu peito. Ela não podia lutar contra a entidade sombria diretamente; seu poder era de vida, não de destruição. Mas ela podia se desconectar, retirar a energia do Boitatá que Valerius havia tentado distorcer.

Com um grito de esforço, Lira liberou a chama, não como um ataque, mas como um desprendimento. Ela sentiu um rompimento doloroso, como se um pedaço de sua própria alma estivesse sendo arrancado. A luz dourada e verde da chama se retirou dela, retornando à essência do Boitatá Ancestral, para onde quer que ele estivesse agora. O elo entre ela e o espírito ancestral, forjado pela necessidade, agora se desfazia pela escolha.

No momento em que Lira se desconectou, a entidade sombria que o Guardião das Ruínas havia invocado reagiu com fúria. A energia do pacto, agora sem um canal direto para o Boitatá, se tornou instável. O Guardião das Ruínas, que pensava ter o controle, agora era apenas um receptáculo de uma força que ele não podia conter.

A caverna começou a desmoronar. Pedras caíam do teto, e o altar pulsava com uma energia caótica. O Guardião das Ruínas, com um grito de desespero, foi engolido pela própria escuridão que havia ajudado a invocar. Valerius, ou o que restava dele, foi consumido pela mesma força.

“Temos que sair daqui!”, gritou Kael, puxando Lira em direção à saída.

Eles correram pelas passagens que desmoronavam, a escuridão e os gritos ecoando ao redor. Lira sentiu um vazio profundo em seu peito, a ausência da chama do Boitatá, uma perda que a deixava vulnerável e exausta. Mas ela sabia que tinha feito a escolha certa. O Boitatá Ancestral estava livre para seguir seu próprio caminho, e a ameaça de sua energia ser distorcida e usada para o mal havia sido neutralizada.

Emergiram do abismo, ofegantes e cobertos de poeira, sob um céu que começava a clarear. As ruínas de Aethelgard pareciam ainda mais desoladas, um testemunho do ciclo eterno de ambição e queda. O pacto sombrio havia sido desfeito, mas o custo foi alto.

Lira olhou para Kael, cujos olhos refletiam a mesma exaustão e incerteza. “O que faremos agora?”

Kael segurou sua mão. “Agora, Lira, nós reconstruímos. Não ruínas, mas a esperança. O Boitatá está livre, e a escuridão que Valerius e este Guardião invocaram foi contida. A nossa luta não acabou, mas agora, lutamos com a clareza do que realmente importa.”

Lira assentiu, sentindo uma nova determinação surgir em meio ao vazio. Ela havia perdido a chama do Boitatá, mas não havia perdido a si mesma. A verdadeira força, ela percebeu, não residia em um poder emprestado, mas na coragem de fazer as escolhas certas, mesmo quando o preço era a própria alma. A jornada para unir as forças do bem seria mais difícil sem a conexão direta com o espírito ancestral, mas agora, ela lutaria com sua própria luz, a luz da esperança e da resistência, que nenhuma escuridão poderia apagar. O abismo dos ecos havia cobrado seu preço, mas também havia forjado uma força inabalável, pronta para enfrentar o que quer que o futuro reservasse.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%