O Canto do Arara Azul Proibido

Capítulo 17 — As Raízes da Sombra e a Verdade do Povo das Águas

por Rafael Rodrigues

Capítulo 17 — As Raízes da Sombra e a Verdade do Povo das Águas

A euforia da vitória mal começara a se dissipar na aldeia, mas Helena sentia um incômodo persistente, um eco sutil de algo que não se encaixava. A profecia falara de uma libertação completa, mas a sensação de que uma sombra, mesmo que fraca, ainda pairava no ar, a incomodava. Luan, percebendo sua inquietação, aproximou-se dela enquanto os aldeões se dispersavam, voltando às suas tarefas com um vigor renovado.

“Você parece pensativa, Helena”, disse Luan, com um tom suave. Ele observava o filhote de arara azul, agora recuperado e voando entre os galhos das árvores que cercavam a aldeia, um espetáculo de cores vibrantes.

“Eu estou”, respondeu Helena, seus olhos fixos na orla da floresta. “O mal foi extirpado, sim. Mas a raiz dele… de onde veio toda aquela escuridão? A profecia não explicou. E o povo das águas… eles não apareceram para celebrar conosco. Por quê?”

Luan franziu a testa, o sorriso desaparecendo de seu rosto. Ele também havia notado a ausência dos habitantes do rio. Eles eram aliados ancestrais, guardiões de uma sabedoria antiga. Sua falta era perturbadora.

“É verdade”, concordou ele. “Sempre foram os primeiros a nos saudar em tempos de paz. Talvez… talvez algo tenha acontecido com eles durante o conflito.”

“Ou talvez a escuridão não tenha sido completamente erradicada. Talvez ela tenha se espalhado de uma forma que não compreendemos ainda”, Helena ponderou, passando a mão sobre o amuleto em seu peito. Sentiu um leve pulsar, como se a pedra reagisse à sua preocupação.

Decidiram, então, que uma visita ao povo das águas seria necessária. A jornada até o rio era familiar, mas algo parecia diferente. A floresta, embora vibrante, parecia mais silenciosa, como se estivesse prendendo a respiração. Os espíritos da natureza, que antes os haviam cumprimentado com tanta alegria, agora pareciam mais reservados, seus olhares carregados de uma melancolia sutil.

Ao se aproximarem da margem do rio, o ar ficou mais denso, úmido, com um cheiro distinto de musgo e algo mais… algo metálico, sutilmente desagradável. A água, antes cristalina, apresentava uma leve opacidade em alguns pontos, e um silêncio incomum pairava sobre as margens. Nenhuma canção de ninar ecoava, nenhum riso de crianças brincando nas águas.

“Isso não é bom”, sussurrou Luan, sacando sua espada com um movimento instintivo.

Helena assentiu, o coração acelerado. Ela sentiu uma energia diferente emanando do rio, fria e antiga, diferente da magia que ela sentira nas ruínas. Era um tipo de poder que parecia sugar a vida, em vez de criá-la.

Com cautela, adentraram a água rasa, que chegava até seus joelhos. A temperatura estava estranhamente baixa. Foi então que a viram. Uma figura alta e esguia, com pele pálida e olhos que pareciam escuros como a noite, emergiu da correnteza. Não era um dos seus. Seus cabelos eram longos e escuros, como algas marinhas, e suas vestes eram feitas de um material escuro e brilhante, que parecia absorver a luz.

“Quem são vocês? O que querem?”, perguntou a criatura, sua voz um sussurro áspero que parecia vibrar na água.

“Somos Helena e Luan, da aldeia da floresta. Viemos em paz. Queremos saber por que o povo das águas está em silêncio”, respondeu Helena, mantendo a voz firme, mas com um tom de apreensão.

A criatura soltou um riso frio, um som que não combinava com a serenidade do rio. “Paz? A paz é uma ilusão para os fracos. A escuridão que vocês acreditam ter derrotado… ela apenas mudou de forma. E agora, ela se alimenta de tudo o que é puro.”

“O que você quer dizer?”, Luan questionou, avançando um passo.

“Eu sou Lyra, uma das guardiãs das profundezas. E o que vocês chamam de escuridão… é a verdade que o Povo das Águas sempre soube. Vocês acreditam que venceram uma batalha, mas a guerra é muito mais antiga e profunda do que imaginam.”

Helena sentiu um arrepio. A maneira como Lyra falava, a energia que emanava dela… não era a mesma magia sombria das ruínas, mas algo mais antigo, mais insidioso.

“A antiga escuridão não foi derrotada, apenas… redirecionada”, continuou Lyra, seus olhos escuros fixos em Helena, como se pudesse ler seus pensamentos. “Ela se infiltrou nas raízes do seu mundo, buscando novas formas de se manifestar. E o Povo das Águas… nós nos recusamos a aceitar a ilusão da vitória de vocês.”

“Recusaram-se a celebrar conosco? Por quê?”, Helena insistiu, a frustração crescendo em seu peito.

“Porque a nossa libertação é diferente da de vocês”, Lyra disse, sua voz ganhando um tom mais intenso. “Vocês libertaram a floresta. Nós libertamos a verdade. A verdade de que a magia que vocês veneram… tem um preço. E que a escuridão, por mais que tentem, jamais poderá ser completamente expurgada.”

Lyra gesticulou para a água. Lentamente, outras figuras começaram a emergir, semelhantes a ela, com a mesma palidez e os mesmos olhos sombrios. Eram o Povo das Águas, mas pareciam transformados, seus rostos antes amigáveis agora carregados de uma resignação sombria.

“O que vocês fizeram?”, Luan perguntou, a voz cheia de desconfiança.

“Nós nos adaptamos”, respondeu Lyra. “A magia que vocês usaram para derrotar a antiga escuridão… ela deixou um rastro. Uma energia que a escuridão pôde usar para se fortalecer. Nós, do Povo das Águas, tivemos que buscar novas fontes de poder para sobreviver. Uma magia mais antiga, mais… crua.”

Helena sentiu o amuleto em seu peito pulsar com mais força. A energia que emanava dessas novas criaturas era diferente de tudo que ela já havia sentido. Era antiga, poderosa, e carregava uma melancolia profunda.

“Vocês se aliaram à escuridão?”, Helena questionou, a voz tremendo de incredulidade.

“Não à escuridão que vocês conhecem”, corrigiu Lyra, com um suspiro que parecia carregar o peso de mil anos. “Mas a uma força que existia antes dela. Uma força que não pode ser derrotada, apenas… compreendida. E honrada. O Canto do Arara Azul foi um ato de coragem, Helena. Mas também foi um ato de desespero. E o desespero abre portas que a esperança mal consegue vislumbrar.”

Helena olhou para Luan. Ele parecia tão chocado quanto ela. Os aliados que eles esperavam encontrar, os que sempre haviam compartilhado sua luz, agora pareciam abraçar uma sombra diferente, uma que eles não compreendiam.

“Vocês estão enganados, Lyra”, disse Helena, a voz firme apesar da confusão. “A escuridão é o mal. Ela destrói. A magia que liberamos… ela restaurou. Ela trouxe vida de volta.”

“E o que acontece quando essa vida atrai a atenção de forças mais antigas e famintas?”, Lyra retrucou, um brilho gélido em seus olhos. “Vocês libertaram o Arara Azul, Helena. Mas há outros cantos. Cantos que a floresta não escuta, mas as profundezas sim.”

Uma correnteza mais forte começou a se formar no rio, trazendo consigo a frieza e o cheiro metálico. As figuras do Povo das Águas pareciam se fundir com a água, seus corpos se tornando mais fluidos, mais etéreos.

“Nós não podemos impedir o ciclo”, Lyra declarou, sua voz se perdendo na correnteza crescente. “Mas podemos escolher nosso lado. E nós escolhemos a força que sempre esteve aqui, nas profundezas. A força que não busca destruir, mas sim… reequilibrar. O Canto do Arara Azul foi um grito de liberdade. O nosso é um sussurro de sabedoria. E a sabedoria diz que nem toda sombra pode ser banida. Algumas precisam ser abraçadas.”

Com essas palavras, Lyra e os outros habitantes do rio desapareceram nas águas, deixando Helena e Luan sozinhos na margem fria. O silêncio que se seguiu foi ainda mais perturbador do que antes. A floresta parecia ter recuado, o ar pesado com a revelação. A vitória que celebravam agora parecia incompleta, manchada por uma verdade desconhecida e assustadora. A escuridão não fora totalmente derrotada; ela apenas havia mudado de forma, encontrando novos aliados nas profundezas sombrias do próprio mundo. E o Canto do Arara Azul, que deveria ter trazido paz completa, agora ecoava como um aviso.

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