A Sombra Que Devora o Sol

Capítulo 2 — O Peso das Cinzas e a Promessa Quebrada

por Pedro Carvalho

Capítulo 2 — O Peso das Cinzas e a Promessa Quebrada

O cheiro de fumaça e cinzas pairava no ar de Alvorada, um odor acre que se misturava ao perfume doce das flores, criando uma fragrância nauseante de tragédia. A aldeia, que na manhã de ontem transbordava vida e cores vibrantes, agora jazia em silêncio sombrio, pontuado por soluços contidos e o crepitar moribundo das últimas brasas. As cabanas de barro e palha, antes símbolos de lar e segurança, agora exibiam cicatrizes de fogo, telhados desabados e paredes carbonizadas. O sol, que costumava beijar a terra com calor e esperança, hoje se escondia timidamente atrás de nuvens cinzentas, como se também chorasse a desolação.

Elias, com o corpo machucado e a alma dilacerada, estava sentado à beira do rio, a água fria em seus pés um leve alívio para o ardor que ainda sentia em sua pele. As marcas escuras deixadas pelos tentáculos da sombra ainda estavam ali, um lembrete gélido do que ele havia enfrentado. Mas a dor física era insignificante comparada à tortura da culpa que o corroía por dentro. Ele havia voltado. Havia sobrevivido. Mas Alvorada não.

A noite anterior fora um borrão de terror e desespero. Depois de escapar por um triz da criatura, ele havia corrido desenfreadamente em direção à aldeia, o grito de alerta preso na garganta. Ao chegar, o inferno já estava em curso. As mesmas sombras que o atacaram na floresta pareciam ter se materializado nas ruas de Alvorada, atacando com uma ferocidade insana. Os habitantes, pegos de surpresa, lutaram com o que tinham em mãos, mas suas armas eram ineficazes contra a escuridão que consumia tudo. Elias havia tentado ajudar, mas o medo o paralisava, a lembrança do rosto sem feições e da voz gélida o impedindo de agir. Ele era um curandeiro, não um guerreiro. E essa fraqueza, ele sentia agora, era a sua condenação.

Dona Aurora, sua avó, a matriarca sábia e amada, estava entre as vítimas. Elias a encontrara caída em frente à sua cabana, o corpo ainda quente, mas sem vida. As chamas haviam consumido grande parte de seu santuário de ervas e conhecimentos ancestrais, e a sombra parecia ter deixado sua marca sombria em seu semblante sereno. Elias se ajoelhou ao lado dela, o pranto finalmente liberado, um choro desesperado que ecoava a dor de uma aldeia inteira. Ele havia falhado com ela, falhado com todos.

"Não chore, meu neto", uma voz fraca, mas firme, quebrou o silêncio em torno dele.

Elias ergueu a cabeça, os olhos vermelhos e inchados. Era Isadora, a filha mais velha de Dona Aurora, a tia que sempre o tratou com um carinho maternal. Ela estava ferida, com um corte profundo na testa, mas seus olhos, geralmente cheios de gentileza, agora brilhavam com uma determinação feroz. Ao seu lado, com uma expressão sombria, estava Rael, o caçador da aldeia, um homem de poucas palavras, mas de grande coragem.

"Tia Isadora...", Elias começou, a voz embargada.

"Seu choro não trará de volta os mortos, Elias", Isadora disse, sentando-se ao lado dele. "E o desespero não nos ajudará a reconstruir. Sua avó não gostaria de nos ver assim."

Rael, que estava observando a destruição com um olhar endurecido, acrescentou, sua voz grave: "O que quer que tenha atacado Alvorada, não era deste mundo. A floresta mudou. E a sombra que Elias viu... ela não era uma lenda."

Elias sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "Eu vi... eu vi a criatura na floresta. Ela me atacou. Eu não consegui detê-la. Eu fugi." A confissão soou como um veneno em seus lábios.

Isadora colocou uma mão sobre o ombro dele. "Você fez o que pôde, Elias. Ninguém poderia prever algo assim. A força que atacou Alvorada era algo que nunca vimos antes."

"Mas eu deveria ter feito algo!", Elias exclamou, a frustração explodindo. "Eu sou um curandeiro! Eu deveria ter curado! Eu deveria ter protegido!" Ele se levantou, a angústia o consumindo. "Tia Isadora, o que era aquilo? A vovó falava sobre as sombras, mas nunca de algo assim!"

Isadora suspirou, o peso da perda e da responsabilidade evidente em seu rosto. "Sua avó falava de uma antiga profecia. Sobre uma escuridão que viria para testar o equilíbrio do mundo. Ela acreditava que as sombras eram apenas presságios, mensageiros de um mal maior." Ela olhou para Rael, que assentiu lentamente. "Rael e eu ouvimos os últimos sussurros dela. Ela disse que a Raiz Lunar que você buscava é crucial. E que a escuridão que nos atacou é atraída pela luz e pela vida."

Elias olhou para a mão, onde as marcas da sombra ainda estavam. "A criatura disse que a cura é uma ilusão. Que a doença é apenas o prenúncio da escuridão."

"Ela mentiu", Rael disse, sua voz firme. "A luz sempre encontra um caminho. E a cura é o primeiro passo para o renascimento." Ele olhou para Elias com uma intensidade que o fez estremecer. "Sua avó confiou em você, Elias. Ela te ensinou tudo. Ela sabia que um dia você teria que enfrentar algo assim."

"Mas como? Eu sou um aprendiz!", Elias protestou, sentindo-se pequeno e impotente. "A vovó se foi. Quem vai me guiar agora?"

Isadora se levantou e o abraçou com força. "Você tem a mim, Elias. E tem Rael. E tem o conhecimento que sua avó deixou. O coração de Alvorada foi ferido, mas não destruído. As cinzas de nossas casas guardarão as sementes de um novo começo. Precisamos encontrar a Raiz Lunar. E precisamos entender o que é essa escuridão."

Ela se afastou, seus olhos fixos nos dele. "Sua avó deixou um mapa. Escondido em seu santuário. Ela sabia que esse dia poderia chegar. Precisamos recuperá-lo."

Elias olhou para as ruínas fumegantes do santuário de sua avó. O pensamento de voltar lá, de reviver aquele horror, era quase insuportável. Mas ele viu nos olhos de Isadora e Rael a mesma determinação que ele sentia borbulhar em seu peito, uma mistura de dor e coragem. A promessa de sua avó, de cuidar de Alvorada, de ser um curandeiro para seu povo, ecoava em sua mente.

"Eu irei", Elias disse, sua voz agora mais forte, com um fio de aço que antes não existia. "Eu encontrarei o mapa. E encontrarei a Raiz Lunar. Por Alvorada. Por vovó."

O peso das cinzas ainda era esmagador, a dor da perda um fardo a ser carregado. Mas agora, misturada a ela, havia uma nova emoção: a promessa de redenção. A sombra que devorou o sol em Alvorada não seria o fim. Seria o início de uma jornada árdua, mas necessária. Uma jornada que ele, Elias, o aprendiz de curandeiro, teria que trilhar. A promessa que ele fez à sua avó, e a si mesmo, era agora mais importante do que nunca. Ele não era mais apenas um aprendiz. Ele era a última esperança de Alvorada.

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