O Coração da Amazônia em Guerra

Capítulo 3 — As Sombras dos Desconhecidos

por Lucas Pereira

Capítulo 3 — As Sombras dos Desconhecidos

Os dias que se seguiram à visão de Iara foram de uma tensão crescente. A floresta parecia mais hostil, os caminhos mais tortuosos. A cada passo, Kadu sentia a presença de algo observando-os, algo que não era de nenhum animal conhecido. Ele se mantinha alerta, a lança sempre em punho, os sentidos aguçados ao extremo. Iara, por sua vez, sentia a energia do amuleto de açaí diminuir em algumas áreas, como se a sombra que eles buscavam estivesse sugando toda a vitalidade ao redor.

"Este lugar… não parece pertencer à nossa floresta", Kadu murmurou em uma manhã, enquanto examinavam um trecho onde as árvores eram deformadas, com galhos retorcidos que pareciam garras apontando para o céu. O chão estava coberto por um musgo negro e pegajoso, e o ar tinha um odor fétido, como de matéria em decomposição.

Iara concordou, sentindo um calafrio percorrer sua espinha. O amuleto em sua mão estava quase inerte, uma frieza perturbadora emanando dele. "É como se a terra aqui estivesse doente, Kadu. Profundamente doente." Ela olhou para o céu, onde as nuvens pareciam mais densas e escuras do que o normal. "Parece que estamos entrando em território desconhecido. E não é apenas uma desconhecimento geográfico."

De repente, um barulho alto irrompeu da mata densa à frente deles. Era o som de metal raspando em pedra, seguido por gritos estranhos e guturais. Kadu e Iara se entreolharam, o alarme em seus olhos.

"O que é isso?", Kadu sussurrou, fazendo um sinal para que Iara ficasse para trás. Ele se moveu com a discrição de um predador, esgueirando-se entre as árvores para espiar o que estava acontecendo.

O que ele viu o deixou chocado. Em uma clareira, havia um grupo de homens vestidos com roupas estranhas, feitas de um material que ele nunca vira antes, de cor escura e sem brilho. Eles portavam ferramentas metálicas que emitiam um zumbido agudo e estavam derrubando árvores com uma velocidade assustadora. As árvores, ao caírem, pareciam gemer, e o musgo negro se espalhava rapidamente pelos tocos. Os homens não falavam a língua que Kadu conhecia, seus sons eram ásperos e sem melodia.

Iara se aproximou dele, o coração batendo forte no peito. "Quem são eles, Kadu? De onde eles vêm?"

"Não sei", ele respondeu, a voz tensa. "Nunca vi gente assim. Eles estão destruindo a floresta. E de um jeito que eu nunca vi. Com essas… máquinas."

Os homens pareciam alheios à beleza ao redor, focados apenas em sua tarefa destrutiva. Um deles, que parecia ser o líder, usava um capacete metálico que refletia a pouca luz que penetrava na copa das árvores. Ele gesticulava e gritava ordens, a voz amplificada por algum dispositivo em seu pescoço.

Iara sentiu uma pontada de medo. Aqueles eram os "desconhecidos" que sua avó mencionara em suas histórias, os que vinham de um mundo diferente, com ambições que não respeitavam a vida da floresta. "São eles, Kadu. São os que estão trazendo a sombra. Minha avó me falou sobre eles. Eles vêm de longe, com fome de terra e de riquezas que não entendem."

Kadu apertou o punho em volta da lança. A raiva borbulhava em seu peito. Ver aquelas árvores centenárias serem derrubadas com tanta brutalidade o enchia de indignação. "Eles não podem fazer isso! Esta é a nossa casa!"

"Precisamos ser cuidadosos", Iara o alertou, segurando seu braço. "Eles são muitos, e têm essas máquinas que parecem mais poderosas do que qualquer arma que conhecemos. Não podemos enfrentá-los diretamente."

Enquanto observavam, um dos homens tropeçou em uma raiz e caiu. Ao se levantar, ele pisou em uma flor rara, que desintegrou em pó em contato com sua bota. Iara sentiu uma dor aguda, como se a flor fosse parte dela.

"Eles não sabem o que fazem", ela murmurou, a voz embargada pela tristeza. "Não veem a vida que destroem."

Kadu assentiu, a raiva substituída por uma determinação fria. "Então teremos que impedi-los. Mas como? Não podemos lutar contra essas máquinas."

"Talvez não precisemos lutar contra as máquinas", Iara disse, uma ideia começando a se formar em sua mente. Ela observou um dos homens usando um pequeno dispositivo que emitia uma luz vermelha. "Eles parecem depender muito dessas coisas. E não conhecem os caminhos da floresta. Podemos usá-la contra eles."

Os dois observaram por mais algum tempo, memorizando os movimentos dos homens, a disposição de suas máquinas. Kadu notou que eles pareciam ter um acampamento improvisado a poucos metros de onde estavam, com tendas e mais equipamentos.

"Eles vão ficar por aqui por um tempo", Kadu concluiu. "Isso nos dá tempo para pensar."

Decidiram se afastar discretamente, encontrando um local mais seguro para discutir seus próximos passos. Enquanto caminhavam, Iara sentiu o amuleto de açaí vibrar suavemente, como se respondesse à presença dos invasores.

"O amuleto está reagindo à energia deles", ela disse. "Mas é uma energia estranha, Kadu. Não é exatamente a sombra que encontramos antes. É diferente. Mais artificial, mais… fria."

"Eles são de fora, Iara", Kadu respondeu. "É natural que a energia deles seja diferente. O importante é que eles estão aqui, destruindo tudo. Precisamos encontrar uma maneira de pará-los, e de chegar ao Berço das Ninfas antes que eles o encontrem também."

Passaram o resto do dia traçando um plano. Kadu, com seu conhecimento da mata, sugeriu rotas alternativas que os levariam para mais perto do local onde sentiam que o Berço das Ninfas estaria, evitando a área onde os homens estavam operando. Iara, com seus dons de cura e conhecimento das plantas, propôs usar o ambiente a seu favor.

"Podemos usar as plantas que produzem um pó que irrita a pele e os olhos deles", ela sugeriu. "E eu sei de algumas raízes que, se colocadas na água que eles usam para beber, podem causar desorientação e sono profundo. Não queremos machucá-los gravemente, mas precisamos fazê-los ir embora."

Kadu concordou. "E podemos criar armadilhas naturais. Cipós bem posicionados para fazê-los cair, ou caminhos que levem a pântanos escondidos. Eles não conhecem os perigos da floresta como nós."

Naquela noite, enquanto preparavam uma pequena refeição com frutas e castanhas que encontraram, Kadu perguntou: "E se eles já estiverem perto do Berço das Ninfas? E se estiverem destruindo o coração da Amazônia agora?"

Iara olhou para o amuleto em sua mão. A pequena semente parecia brilhar fracamente na escuridão. "Minha avó me disse que o Berço das Ninfas é protegido. Que as árvores antigas e os espíritos da água não permitirão que ele seja profanado facilmente. Precisamos ter fé."

"Fé não enche barriga nem para um animal, Iara", Kadu disse com um leve sarcasmo, mas com um olhar de preocupação. "Precisamos de ação. E de um plano melhor."

"Nosso plano é este, Kadu", Iara respondeu com firmeza. "Vamos desviar deles, encontrando um caminho mais seguro. E quando tivermos a chance, vamos usar o que a floresta nos oferece para afastá-los. O coração da Amazônia está em perigo, e essa gente desconhecida é a ameaça mais imediata que encontramos."

Eles decidiram se mover durante a noite, aproveitando a escuridão para se afastar dos invasores. Kadu guiava o caminho com a habilidade de quem nasceu para andar na mata, enquanto Iara seguia de perto, o amuleto de açaí em sua mão como um farol silencioso. O som das máquinas de corte parecia ecoar pelas árvores, um lembrete constante do perigo que se aproximava.

Ao amanhecer, eles estavam a uma boa distância do local onde os homens estavam operando. O ar, embora ainda denso, parecia mais limpo, e os sons da floresta começavam a retornar, tímidos no início, mas cada vez mais audíveis.

"Conseguimos nos afastar", Kadu disse, respirando fundo. "Mas eles continuam lá. Destruindo."

Iara olhou para o amuleto. A energia estava voltando, fraca, mas presente. "O Berço das Ninfas está mais perto. Sinto isso. Mas precisamos ter cuidado. Eles podem estar espalhados pela floresta. E não sabemos quais são suas intenções reais."

A descoberta dos invasores adicionou uma nova camada de complexidade à sua missão. Não era apenas uma luta contra uma doença misteriosa, mas uma batalha contra aqueles que, por ignorância ou ganância, ameaçavam destruir o que havia de mais sagrado na Amazônia. O Coração da Amazônia em guerra agora tinha um inimigo visível, e Iara e Kadu sabiam que teriam que ser mais astutos e corajosos do que nunca para proteger o futuro de seu lar.

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