A Lâmina do Tempo e da Saudade
A Lâmina do Tempo e da Saudade
por Lucas Pereira
A Lâmina do Tempo e da Saudade
Autor: Lucas Pereira
---
Capítulo 1 — O Sussurro da Névoa Dourada
O sol beijava a terra com um calor que parecia sussurrar segredos antigos, mas em Arcania, o crepúsculo era sempre envolto em uma névoa dourada, um véu etéreo que descia das montanhas e abraçava os vales com um toque de mistério. Era nesse crepúsculo que Elara, com seus dezesseis anos e uma alma tão vibrante quanto as flores silvestres que adornavam seus cabelos escuros, sentia a vida pulsar em seu peito com uma intensidade quase dolorosa. Ela estava no alto da colina que dominava o vilarejo, o vento revolvendo seus cabelos e o cheiro de pinho e terra molhada preenchendo seus pulmões. De lá, Arcania parecia um bordado de telhados vermelhos e fumaça preguiçosa, um quadro sereno pintado em tons terrosos. Mas para Elara, a serenidade era um disfarce fino para as correntes subterrâneas de anseio que a consumiam.
Ela sabia que a névoa dourada não era apenas um fenômeno natural. Os anciãos contavam histórias, sussurradas em volta das fogueiras, de que era um sopro do próprio Tempo, uma lembrança constante de que tudo era efêmero, de que o passado espreitava no presente e o futuro aguardava, incerto. Elara, no entanto, sentia mais do que a mera impermanência. Sentia uma saudade por algo que nunca conhecera, uma melodia distante que ressoava em sua alma sem explicação.
“Elara! Desça daí, menina! Vai cair e quebrar um braço justo agora que as colheitas estão chegando!”, gritou Dona Clara, sua voz um pouco rouca, mas cheia do calor que só uma mãe podia oferecer. Ela estava na porta de sua modesta casa, o avental salpicado de farinha, um sorriso cansado no rosto.
Elara soltou uma risadinha e começou a descer a encosta íngreme, os pés ágeis desviavam de pedras soltas com a familiaridade de quem conhece cada centímetro do terreno. “Eu não vou cair, mãe! Só estava admirando a vista. O céu hoje está mais bonito que o normal.”
“O céu está sempre bonito, minha filha. O que não está sempre bonito é a sua cabeça nas nuvens. Venha, ajude-me a organizar os cestos. O mercador de Oakhaven chega amanhã e precisamos ter tudo pronto.”
Elara abraçou a mãe por trás, sentindo o cheiro reconfortante de pão fresco e lavanda. “Eu sei, mãe. Mas às vezes sinto que há mais do que apenas cestos e colheitas no mundo.”
Dona Clara suspirou, alisando os cabelos da filha. “E há, meu amor. Mas por enquanto, o nosso mundo é Arcania. E aqui, o trabalho é o que nos sustenta. Não se preocupe com o que está além do nosso vale. A vida é dura o suficiente sem adicionarmos fantasias.”
“Mas e se as fantasias forem reais?”, murmurou Elara, mais para si mesma do que para a mãe.
Na vila, a vida seguia seu ritmo ancestral. As mulheres debulhavam o trigo no pátio, os homens consertavam as cercas e as crianças corriam atrás de galinhas, suas risadas ecoando como sinos alegres. Elara se juntou à mãe, suas mãos ágeis pegando frutas vermelhas e as colocando delicadamente em cestos de vime. Enquanto trabalhava, seus olhos vagavam para a linha das montanhas, picos cobertos de florestas densas onde se dizia que criaturas antigas ainda habitavam. E mais além, para onde o sol se punha, para o vasto desconhecido.
Seu pai, um homem forte e calado, que desapareceu em uma expedição nas montanhas anos atrás e nunca mais voltou, era a origem daquela saudade que a assombrava. Ele era o contador de histórias, o que olhava para as estrelas com um brilho peculiar nos olhos, o que sempre dizia que o mundo era muito maior do que Arcania podia oferecer. Desde sua partida, um vazio se instalara no coração de Elara, um espaço que ela tentava preencher com sonhos e com a esperança secreta de que um dia, ele voltaria. Ou que ela o encontraria.
O sol finalmente cedeu lugar à escuridão, e a névoa dourada se adensou, envolvendo as casas em um abraço etéreo. A luz das lamparinas projetava sombras dançantes nas paredes rústicas. Na cozinha, Dona Clara preparava o jantar, o aroma de ensopado de legumes e ervas pairava no ar. Elara estava sentada à mesa, rabiscando em um pedaço de pergaminho velho. Era um mapa rudimentar, desenhado a partir das histórias que seu pai contava, de lugares que ele dizia ter visto em seus sonhos. Montanhas que tocavam o céu, rios de prata líquida, florestas onde árvores cantavam.
“O que você está desenhando, filha?”, perguntou seu irmão mais novo, Kael, com seus olhos arregalados de curiosidade infantil. Ele era uma cópia em miniatura de Elara, com o mesmo brilho inquisitivo nos olhos.
“Um sonho, Kael”, respondeu Elara, um leve sorriso brincando em seus lábios. “Um sonho do papai.”
Kael se aproximou, apontando para um ponto específico no mapa. “E o que é isso aqui? Uma montanha com asas?”
“É a Montanha Acoriana”, explicou Elara, sua voz ganhando um tom reverente. “Dizem que lá, o tempo flui diferente. Que se pode vislumbrar os ecos do passado.”
Dona Clara veio até eles, secando as mãos no avental. Ela olhou para o desenho de Elara com uma mistura de afeição e preocupação. “Elara, você sabe que essas são apenas histórias para adormecer as crianças. Seu pai amava inventar. Não se iluda com elas.”
“Mas mãe, ele falava delas com tanta convicção! E ele desapareceu perto das Montanhas Sombrias, não foi? E se ele foi até a Montanha Acoriana?”, a voz de Elara era um fio de súplica.
“Ele foi para as montanhas, Elara. E não voltou. Essa é a única verdade que precisamos aceitar agora. Não alimente esperanças que só vão te machucar.” Dona Clara sentou-se ao lado da filha, sua mão pousando sobre a dela, que segurava o carvão. “Foque no que temos. No nosso lar, na nossa comunidade. A vida é feita de pequenos momentos, não de grandes aventuras que só existem em histórias.”
Elara olhou para o mapa, para o traço sinuoso que representava um rio, para as linhas irregulares que formavam montanhas. Ela sentia a verdade nas palavras da mãe, o peso da realidade que tentava aprisioná-la. Mas uma faísca teimosa de rebeldia ardia em seu peito. Aquela saudade, aquela melodia distante, não eram apenas invenções. Eram chamados. Chamados de um mundo que ela ansiava conhecer, de um destino que a esperava, mesmo que ela não pudesse ainda nomeá-lo.
Naquela noite, sob o céu estrelado de Arcania, com a névoa dourada sussurrando em seus ouvidos, Elara fez um juramento silencioso. Ela não deixaria que as histórias de seu pai fossem apenas contos. Ela encontraria a verdade por trás deles. Ela desvendaria os segredos da névoa dourada. E talvez, apenas talvez, encontraria o que seu coração tanto buscava. A esperança, alimentada pela saudade e pelo eco das palavras de seu pai, era uma lâmina afiada que ela empunhava em seu peito, pronta para cortar as amarras da rotina e voar em busca do desconhecido. O amanhã traria o mercador de Oakhaven, mas para Elara, o amanhã já era um horizonte de possibilidades, tão vasto e misterioso quanto a névoa dourada que envolvia o mundo.