A Lâmina do Tempo e da Saudade

A Lâmina do Tempo e da Saudade

por Lucas Pereira

A Lâmina do Tempo e da Saudade

Autor: Lucas Pereira

Capítulo 11 — O Peso das Promessas Quebradas

A luz filtrada pelas copas densas da Floresta Sussurrante parecia zombar de Elara. Era um dia de primavera que se recusava a clarear a escuridão que se instalara em sua alma. A visão da Lâmina, um portal para um passado dilacerado e um futuro incerto, ecoava em sua mente como um grito mudo. Kaelen, com seus olhos de um azul tempestuoso que refletiam a angústia que ele tentava esconder, estava inquieto. Seus passos ressoavam no chão úmido da floresta, um ritmo frenético que espelhava a turbulência interna de Elara.

“Não consigo parar de pensar nisso, Kaelen,” ela sussurrou, a voz embargada pela emoção. O cheiro terroso da floresta, antes reconfortante, agora parecia sufocante. “Aquela visão… a dor de minha mãe, o desespero nos olhos do meu pai… E tudo por causa daquela maldição. Daquela promessa quebrada.”

Kaelen parou, voltando-se para ela com uma intensidade que a fez recuar um passo. Seu rosto, geralmente marcado por uma serenidade quase inatingível, estava contraído em dor. “Promessas quebradas, Elara, são as feridas mais profundas que o tempo pode infligir. E a nossa história é um livro repleto delas.” Ele estendeu a mão, seus dedos roçando suavemente o tecido de seu vestido. “A visão que você teve… ela não é apenas um eco do passado. É um aviso. É a Lâmina mostrando a você o preço que todos nós pagamos.”

Eles estavam em uma clareira, onde a luz do sol conseguia penetrar em feixes dourados, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Uma brisa suave agitou as folhas, criando um murmúrio constante que parecia carregar segredos antigos. Elara fechou os olhos, tentando afastar as imagens vívidas: sua mãe, a rainha Lyra, com o rosto pálido e os olhos vazios, e seu pai, o rei Theron, ajoelhado diante de um altar sombrio, implorando a uma força que não o ouvia. A Lâmina, em sua visão, pulsava com uma luz fria e sinistra, alimentada pela desespero.

“Eu a vi fugindo,” Elara disse, sua voz ainda um sussurro. “Minha mãe… ela estava fugindo de algo. E meu pai… ele estava consumido pela culpa. Por que ele não a ajudou? Por que ele fez um pacto que levou à nossa ruína?”

Kaelen suspirou, o som pesado como as rochas ancestrais que pontilhavam a floresta. “Theron era um homem bom, Elara. Um rei que amava seu povo e sua família mais do que a si mesmo. Mas a maldição sobre o reino… era algo que nem mesmo o seu amor e coragem poderiam deter. Ele acreditava que a única forma de nos proteger era fazer um sacrifício.”

“Um sacrifício?” A palavra soou amarga na boca de Elara. “Que tipo de sacrifício exigiria o desespero de uma mãe e a desgraça de um reino inteiro?” Ela olhou para ele, buscando uma resposta que ele parecia hesitar em dar. “Você sabe, não é? Você sempre soube mais do que me conta.”

O olhar de Kaelen se aprofundou, carregado de uma tristeza ancestral. “O conhecimento tem seu preço, Elara. E o preço de saber a verdade sobre a queda de Eldoria é um fardo pesado para carregar.” Ele se aproximou, suas mãos agora repousando em seus ombros. “A Lâmina não mostra apenas a dor. Ela mostra a origem dela. E a origem da nossa dor… foi um pacto feito nas sombras, uma barganha com o tempo e o esquecimento para tentar salvar o que se perderia de qualquer forma.”

Ele a guiou até um tronco caído, coberto de musgo verdejante. Sentaram-se lado a lado, o silêncio da floresta os envolvendo. Elara sentiu o calor do corpo de Kaelen ao seu lado, um consolo tênue contra a tempestade que se agitava dentro dela.

“A maldição que assolou Eldoria não foi um evento aleatório,” Kaelen começou, sua voz baixa e ponderada. “Foi uma consequência. Uma consequência de um poder que foi desestabilizado. Um poder antigo, guardado pela linhagem real. O equilíbrio foi perturbado, e o tempo, que deveria ser um rio constante, tornou-se um mar revolto, arrastando tudo consigo.”

Ele fez uma pausa, seus olhos fixos em um ponto distante na floresta, como se pudesse ver as eras passadas ali projetadas. “Seu pai, Theron, era um guardião relutante desse poder. Ele tentou controlá-lo, domá-lo, mas era uma força selvagem demais. E quando a maldição começou a consumir o reino, a desesperança tomou conta dele. Ele acreditava que havia uma maneira de reverter o estrago, de aprisionar a própria essência da ruína. E para isso… ele precisava de um sacrifício. Um sacrifício que envolvia um pedaço do tempo, e um pedaço de si mesmo.”

“Um pedaço de si mesmo?” Elara perguntou, o coração apertado.

“Sim,” Kaelen confirmou, sua voz tingida de melancolia. “Ele fez um pacto com uma entidade antiga, a guardiã das eras esquecidas. Um pacto que prometia reverter a maldição em troca de algo de valor inestimável. A entidade exigiu um fragmento da memória de Theron, um fragmento de sua própria essência vital, para selar o acordo. Ele concordou, na esperança de salvar seu povo e sua família. Mas o preço era mais alto do que ele imaginava. A entidade não apenas tomou sua memória, mas também o aprisionou em um ciclo de arrependimento e esquecimento. A visão que você teve… é a Lâmina mostrando o momento em que ele fez essa escolha fatídica. O momento em que a esperança se transformou em um fardo eterno.”

Lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Elara. As peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar, mas o quadro que se formava era de uma dor insuportável. “Então… ele não abandonou minha mãe. Ele tentou salvá-los. Mas o preço… ele perdeu a si mesmo.”

“Exatamente,” Kaelen disse, sua voz suave. “E sua mãe, Lyra… ela sabia do sacrifício que ele faria. Ela tentou impedi-lo, mas era tarde demais. A maldição já estava em movimento. E quando Theron se perdeu para si mesmo, Lyra sentiu que não havia mais nada a fazer. A dor de ver o homem que amava desaparecer, e o peso da maldição sobre seu povo… ela não suportou. A Lâmina mostra o momento em que ela, em sua própria desolação, buscou um refúgio. E nesse refúgio, ela fez outra escolha, uma escolha que a levou para longe de nós, para um exílio autoimposto de dor e silêncio.”

A lembrança de sua mãe, distante e quase etérea em suas memórias, ganhou um novo contorno de tragédia. Elara sempre sentiu uma lacuna em sua infância, uma ausência que nunca conseguiu preencher. Agora, ela entendia o porquê. Sua mãe não a abandonou por falta de amor, mas por uma dor que a consumiu.

“E a Lâmina?”, Elara perguntou, a voz trêmula. “Por que a Lâmina está ligada a tudo isso? Por que ela revela essas verdades agora?”

“A Lâmina do Tempo e da Saudade é uma arma ancestral,” Kaelen explicou. “Ela foi forjada com fragmentos de tempo e a essência da memória. Ela não apenas corta carne e osso, mas também o próprio tecido da realidade, das lembranças, e do destino. Ela é um reflexo da própria história de Eldoria. E agora, com a maldição se intensificando, a Lâmina se ativa. Ela busca ser empunhada por alguém que possa entender o seu poder, que possa, talvez, consertar o que foi quebrado. E essa pessoa, Elara… é você.”

Elara olhou para suas mãos. As mesmas mãos que, em sua visão, seguraram a Lâmina com um misto de terror e determinação. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A responsabilidade era esmagadora. Ela não era apenas uma princesa exilada, mas a portadora de um legado de dor e a esperança de um futuro que parecia cada vez mais sombrio.

“Eu não sei se sou forte o suficiente, Kaelen,” ela sussurrou, a voz embargada.

“Você é,” ele respondeu, sua voz firme e cheia de convicção. “Você carrega a força de seus pais, a resiliência de seu povo, e a chama da verdade em seu coração. A Lâmina escolheu você. E eu estarei ao seu lado, em cada passo do caminho.” Ele segurou suas mãos, seus olhos encontrando os dela com uma ternura que a fez sentir uma força renovada. “O tempo nos mostra as feridas, Elara. Mas a saudade… a saudade é o que nos impulsiona a curá-las.”

A floresta parecia ter se acalmado, o sussurro das folhas agora soava como um abraço. Elara ainda sentia o peso das promessas quebradas, mas agora, misturado à dor, havia um fio de determinação. Ela sabia que o caminho à frente seria árduo, repleto de verdades dolorosas e decisões difíceis. Mas ela não estava sozinha. E a Lâmina, aquela arma antiga e misteriosa, não era apenas um símbolo de destruição, mas também a chave para desvendar um passado esquecido e, talvez, forjar um novo futuro. A primavera da Floresta Sussurrante, antes um espelho de sua tristeza, agora parecia anunciar um novo amanhecer, um amanhecer de esperança e coragem.

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