A Lâmina do Tempo e da Saudade
Capítulo 14 — A Sombra da Ruína e o Chamado de Kaelen
por Lucas Pereira
Capítulo 14 — A Sombra da Ruína e o Chamado de Kaelen
O brilho intenso da Lâmina do Tempo e da Saudade diminuiu gradualmente, deixando Elara e Kaelen na penumbra da caverna subterrânea, o Coração Adormecido de Eldoria. A arma, agora firme em sua mão, irradiava uma energia palpável, uma promessa silenciosa de poder e responsabilidade. O eco da melodia antiga, que antes preenchera o espaço, agora se resumia a um leve zumbido, como um coração pulsando no silêncio.
“Você a empunhou, Elara,” Kaelen disse, sua voz carregada de admiração e um toque de apreensão. “A Lâmina reconheceu você. Isso é um sinal de que você está no caminho certo.”
Elara apertou o cabo da Lâmina, sentindo a sua conexão com ela se aprofundar. Era como se a arma fosse uma extensão de seu próprio corpo, cada fibra de seu ser vibrando em sintonia com seu poder. Ela olhou para Kaelen, seus olhos brilhando com uma nova determinação. “Eu sinto isso, Kaelen. Sinto o peso da história, a dor das perdas, mas também a força para seguir em frente.”
“O caminho à frente não será fácil,” Kaelen advertiu, seu olhar fixo nas profundezas escuras da caverna. “As ruínas de Eldoria são um lugar de grande perigo. A maldição que as assola é poderosa, e as sombras que lá residem são antigas e implacáveis. Além disso, não somos os únicos que buscam o poder da Lâmina.”
A menção a outros que poderiam estar interessados na Lâmina fez um arrepio percorrer a espinha de Elara. Ela sabia que a Lâmina era um artefato de imenso poder, capaz de moldar o destino. Não era surpreendente que outros a cobiçassem.
“Quem mais sabe sobre a Lâmina?”, ela perguntou, a voz tensa.
“Há aqueles que serviram às forças sombrias que trouxeram a maldição sobre Eldoria,” Kaelen respondeu, sua voz baixa e grave. “Eles buscam a Lâmina para solidificar seu domínio, para mergulhar o reino em uma escuridão eterna. Um deles, em particular, tem um interesse especial em você. Um homem conhecido como Morwen, o Caçador de Almas. Ele foi um dos arquitetos da queda de Eldoria, e ele sente o poder da Lâmina emanando de você.”
A imagem de Morwen, o Caçador de Almas, que ela vislumbrara em seus pesadelos, retornou com força total. Aquele homem cruel e sombrio, com seus olhos vazios e sorriso desdenhoso, era um prenúncio do mal que ainda espreitava.
“Morwen,” Elara repetiu o nome, sentindo uma repulsa visceral. “Eu vi ele antes. Ele é uma sombra que se alimenta do desespero.”
“Ele é,” Kaelen confirmou. “E ele não hesitará em usar qualquer meio para obter a Lâmina. Precisamos ser cautelosos. A jornada para as ruínas será longa e perigosa.”
Eles deixaram a caverna, o caminho de volta através dos túneis subterrâneos parecendo mais longo e sombrio do que antes. A presença da Lâmina em sua posse parecia ter intensificado a atmosfera opressora. As sombras pareciam mais densas, os ecos mais sinistros.
Ao emergirem da terra, a luz do sol já havia se posto, e a noite envolvia a Floresta Sussurrante em um manto de escuridão. O ar estava frio, e um vento gélido uivava entre as árvores, carregando consigo um sussurro de presságio.
“Precisamos chegar às ruínas antes que Morwen nos encontre,” Kaelen disse, seu olhar varrendo a escuridão ao redor. “As planícies desoladas que cercam Eldoria são o seu domínio. Ele terá vantagem lá.”
Eles iniciaram a jornada em direção às ruínas, atravessando a floresta sob a luz fraca das estrelas. A cada passo, Elara sentia a presença da maldição se intensificar, como se a própria terra estivesse imbuída de um desespero antigo. As árvores pareciam se retorcer em formas grotescas, e os sons noturnos da floresta soavam como lamentos fantasmagóricos.
Em um determinado ponto, enquanto atravessavam uma área onde a floresta se tornava mais esparsa, Elara sentiu uma mudança sutil no ar. Um cheiro acre de enxofre e algo mais, algo putrefato, pairou no ar. As sombras pareciam se adensar, coalescendo em formas indistintas.
“Morwen,” Kaelen sussurrou, sua mão instintivamente se posando no punho de sua própria espada. “Ele sabe que estamos aqui.”
De repente, figuras sombrias emergiram das trevas. Eram criaturas retorcidas, com olhos que brilhavam com uma luz vermelha malevolente, e garras afiadas que arranhavam o chão. Eram os servos de Morwen, os guardiões das sombras que assolavam as terras ao redor de Eldoria.
“A Lâmina!”, um dos servos rosnou, sua voz gutural e áspera. “Entreguem a Lâmina, ou pereçam!”
Elara sentiu o medo se apoderar dela, mas a Lâmina em sua mão pulsava com uma energia que a impelia a lutar. Ela levantou a arma, sua lâmina cintilando sob a luz das estrelas.
“Nunca!”, ela gritou, sua voz ecoando com uma força inesperada.
A batalha começou. Kaelen, com sua agilidade e habilidade de combate, enfrentou os servos com ferocidade. Elara, sentindo a Lâmina como uma extensão de sua vontade, desferiu golpes poderosos, sua lâmina cortando as sombras com uma precisão mortal. A energia da Lâmina parecia repelir as criaturas, fazendo-as recuar com gritos de dor.
No entanto, os servos eram numerosos, e o ar estava carregado de uma aura de desespero que parecia enfraquecê-la. Elara sentiu sua força diminuir, e a Lâmina, por um momento, pareceu pesar em sua mão.
De repente, uma risada fria e zombeteira ecoou pela floresta. Uma figura alta e sombria emergiu das sombras, envolta em um manto escuro. Era Morwen, o Caçador de Almas. Seus olhos eram como poços de escuridão, e seu sorriso era cruel e predador.
“Tola!”, Morwen sibilou, sua voz cheia de desdém. “Você acha que pode empunhar a Lâmina? Ela é um poder antigo demais para você, uma criança brincando com fogo.”
Ele estendeu a mão, e uma onda de energia sombria emanou dele, atingindo Elara em cheio. Ela foi jogada para trás, caindo no chão. A Lâmina escapou de sua mão, rolando alguns metros adiante.
“Elara!”, Kaelen gritou, correndo em sua direção. Mas os servos de Morwen o cercaram, impedindo-o de alcançá-la.
Morwen se aproximou da Lâmina caída, seu rosto se contorcendo em um sorriso vitorioso. “Agora, a Lâmina pertence a mim. E Eldoria será mergulhada em uma escuridão eterna!”
Enquanto ele estendia a mão para pegar a Lâmina, uma voz profunda e ressonante ecoou pela floresta, vinda de um lugar além do alcance da escuridão.
“Não tão rápido, Morwen!”
Uma figura alta e imponente surgiu das árvores, envolta em uma armadura antiga que brilhava com uma luz prateada. Era um guerreiro de eras passadas, um dos antigos defensores de Eldoria, renascido pela energia do chamado.
“O chamado foi ouvido!”, a figura declarou, sua voz cheia de poder. “A Lâmina não será profanada!”
Morwen rosnou de fúria. “Um fantasma do passado! Você não pode me deter!”
O antigo guerreiro, com uma espada que brilhava com luz própria, avançou contra Morwen. A batalha entre as forças da luz e da escuridão começou, travada sob o céu estrelado. Kaelen, vendo uma oportunidade, lutou com renovada ferocidade, abrindo caminho para Elara.
Elara, atordoada, mas impulsionada pela visão do antigo guerreiro lutando por seu reino, se levantou. Ela sentiu a Lâmina chamando por ela, pulsando com uma energia que a convidava a recuperá-la. Ela correu em direção à Lâmina, ignorando a dor em seu corpo.
No momento em que Morwen estava prestes a tocar a Lâmina, Elara a agarrou. A energia da arma a envolveu novamente, mais forte do que antes. Ela sentiu a força de todos os seus antepassados fluindo através dela.
“Você não vai a lugar nenhum, Morwen!”, Elara gritou, sua voz cheia de poder.
Ela ergueu a Lâmina, e um feixe de luz branca e pura disparou da lâmina, atingindo Morwen em cheio. Ele gritou de dor e fúria, seu corpo se contorcendo sob o ataque. A luz da Lâmina o repeliu, forçando-o a recuar, seus servos se dispersando na escuridão.
“Isso não acabou, princesa!”, Morwen sibilou, seu corpo se dissolvendo em sombras. “Eu voltarei!”
A escuridão recuou, e o antigo guerreiro, exausto, mas vitorioso, baixou sua espada. Ele se voltou para Elara, seu olhar sério.
“Você provou ser digna, portadora da Lâmina,” ele disse, sua voz embargada pela idade. “Mas a batalha está longe de terminar. Morwen é um inimigo astuto e persistente. Ele voltará, e você precisará estar preparada.”
Ele então se ajoelhou diante de Elara, curvando a cabeça. “Eu sou Sir Kaelan, um dos últimos guardiões de Eldoria. Eu respondi ao seu chamado, e servirei a você e à Lâmina com toda a minha força.”
Elara olhou para o antigo guerreiro, sentindo uma onda de gratidão. Ela não estava mais sozinha. Havia outros que lutavam pela luz, que acreditavam em um futuro para Eldoria. Ela se voltou para Kaelen, que a observava com orgulho e alívio.
“Precisamos ir para as ruínas,” Elara disse, sua voz firme. “Precisamos encontrar uma maneira de deter Morwen e a maldição de uma vez por todas.”
O antigo guerreiro, Sir Kaelan, assentiu. “As ruínas guardam segredos antigos, princesa. Segredos que podem ser a chave para a nossa vitória. Mas o caminho até lá é perigoso, e o tempo está se esgotando.”
Enquanto eles se preparavam para continuar, Elara sentiu a Lâmina em sua mão pulsar, como se estivesse ciente da urgência. A sombra da ruína pairava sobre eles, mas agora, com a Lâmina em sua posse e novos aliados ao seu lado, a esperança de um futuro para Eldoria parecia um pouco mais real. A batalha havia apenas começado, mas Elara estava pronta para enfrentá-la.