A Lâmina do Tempo e da Saudade
Capítulo 15 — O Coração em Ruínas de Eldoria
por Lucas Pereira
Capítulo 15 — O Coração em Ruínas de Eldoria
A noite era fria e implacável enquanto Elara, Kaelen e o recém-chegado Sir Kaelan atravessavam as planícies desoladas que circundavam as ruínas de Eldoria. O ar estava impregnado com um odor de decadência e desespero, um lembrete constante da maldição que havia assolado o reino. As estrelas, antes um farol de esperança, agora pareciam frias e distantes, seus raios mal conseguindo penetrar a névoa sombria que pairava sobre a terra.
Elara sentia a Lâmina do Tempo e da Saudade vibrar em sua mão, uma energia latente que parecia ressoar com a própria desolação ao redor. A presença da arma era um conforto, mas também um fardo, um lembrete constante da responsabilidade que recaía sobre seus ombros. Sir Kaelan, com sua armadura antiga e olhar determinado, marchava ao lado deles, um farol de coragem em meio à escuridão.
“As ruínas são traiçoeiras,” Sir Kaelan advertiu, sua voz grave ecoando na quietude opressora. “Morwen e seus asseclas espreitam nas sombras, atraídos pelo poder da Lâmina. Precisamos nos mover com cautela.”
Eldoria. A cidade que um dia fora o coração pulsante de um reino próspero, agora era um esqueleto de pedra e desespero. Edifícios majestosos jaziam em ruínas, suas paredes desmoronadas e telhados caídos. A praça central, outrora repleta de vida, agora era um campo de escombros, onde o vento uivava entre os destroços, carregando consigo os lamentos dos perdidos.
À medida que se aproximavam do centro da cidade, a maldição parecia se intensificar. O ar ficou mais pesado, e Elara sentiu uma opressão em seu peito, como se a própria terra estivesse sufocando. Ela via vislumbres fugazes de cenas do passado: a alegria de um festival, o clamor de um mercado movimentado, o brilho das bandeiras reais em dias de celebração. Mas essas visões eram rapidamente ofuscadas pela desolação presente, pela presença palpável do desespero.
“Meu pai… minha mãe… eles viveram aqui,” Elara sussurrou, a voz embargada pela emoção. Ela olhou para os restos de um palácio em ruínas, imaginando seus pais caminhando por aqueles salões outrora grandiosos.
“Eles lutaram bravamente,” Sir Kaelan disse, colocando uma mão reconfortante em seu ombro. “E o espírito deles ainda reside nestas terras. A Lâmina é a chave para honrar sua memória e para restaurar o que foi perdido.”
Eles adentraram o que um dia fora o salão do trono. A arquitetura era grandiosa, mesmo em sua ruína, com colunas imponentes que pareciam sustentar o próprio céu. No centro do salão, sobre um pedestal de mármore quebrado, repousava o que restava de um trono, esculpido com a imagem de um leão rampante, símbolo de Eldoria.
Mas o salão não estava deserto. Sombras escuras se moviam nas ruínas, e um frio antinatural emanava de todos os cantos. De repente, a escuridão se coalesceu, formando figuras sinistras, os servos de Morwen, seus olhos vermelhos brilhando na penumbra.
“A princesa e seus guardiões,” uma voz sombria e distorcida ecoou pelo salão. “Vocês não deveriam ter vindo aqui. Eldoria é o meu domínio agora.”
Morwen emergiu das sombras, seu manto escuro se misturando com a escuridão circundante. Seus olhos fixaram-se em Elara, um brilho de ódio e cobiça neles. Ele estendeu a mão, e a maldição pareceu se intensificar, o ar se tornando rarefeito e frio.
“A Lâmina,” Morwen sibilou. “Entregue-a a mim, e talvez eu poupe suas vidas insignificantes.”
“Nunca!”, Elara gritou, erguendo a Lâmina do Tempo e da Saudade. A arma brilhou com uma luz intensa, repelindo as sombras que Morwen conjurava.
Kaelen e Sir Kaelan se posicionaram ao lado de Elara, prontos para defender a princesa e a Lâmina. A batalha irrompeu no salão em ruínas, um choque entre a luz e as trevas. A Lâmina cortava as sombras com precisão, enquanto Kaelen e Sir Kaelan lutavam com ferocidade contra os servos de Morwen.
No entanto, a maldição parecia pesar sobre eles, enfraquecendo seus movimentos e diminuindo sua força. As visões de desespero e perda que assombravam o salão pareciam se materializar, tentando consumi-los. Elara sentiu a Lâmina em sua mão lutar contra a influência da maldição, sua luz vacilando sob a pressão.
“A Lâmina não pode lutar sozinha, princesa!”, Sir Kaelan gritou, desviando de um golpe sombrio. “Você deve canalizar seu próprio poder! A força de Eldoria reside em você!”
Elara fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Ela pensou em seus pais, em seu povo, na esperança de um futuro. Ela sentiu a conexão com a Lâmina se aprofundar, não apenas como uma arma, mas como um canal para o próprio espírito de Eldoria. Ela abriu os olhos, sua determinação ardendo mais forte do que nunca.
Ela ergueu a Lâmina, não apenas para cortar, mas para canalizar a luz e a memória de Eldoria. Ela sentiu a energia do reino fluindo através dela, a força de seus ancestrais, a esperança de seu povo. Um feixe de luz branca e pura disparou da Lâmina, atingindo Morwen em cheio.
Morwen gritou de dor e fúria, seu corpo se contorcendo sob o ataque. A luz da Lâmina repeliu a maldição que ele emanava, expondo sua verdadeira forma: um ser sombrio e distorcido, alimentado pela dor e pelo desespero.
“Você não pode me destruir!”, Morwen rugiu, sua voz cheia de ódio. “Eu sou parte de Eldoria! Eu sou a própria ruína!”
“Você é apenas um parasita!”, Elara respondeu, sua voz ressoando com a força da Lâmina. “Você se alimenta da dor, mas não pode apagar a esperança!”
Ela avançou, a Lâmina brilhando intensamente. Morwen, sentindo a sua força diminuir, tentou fugir, desaparecendo nas sombras das ruínas. Mas Elara o seguiu, guiada pela Lâmina e pela determinação de acabar com ele.
Eles se encontraram no centro da praça em ruínas, onde a maldição era mais forte. Morwen, desesperado, tentou invocar mais sombras, mas a luz da Lâmina as repeliu.
“Renda-se, Morwen!”, Elara ordenou. “Seu tempo acabou!”
“Nunca!”, ele gritou, reunindo suas últimas forças. Ele tentou lançar um último ataque contra Elara, mas Kaelen e Sir Kaelan se colocaram entre eles, protegendo a princesa.
Elara, sentindo a energia da Lâmina em seu ápice, desferiu um golpe final, um arco de luz pura que envolveu Morwen. Ele gritou, um som horripilante que ecoou pela cidade em ruínas, e então… desapareceu. Sua sombra se dissipou, e a maldição que ele personificava começou a recuar.
O ar nas ruínas de Eldoria pareceu clarear, e a névoa sombria começou a se dissipar. O silêncio que se seguiu foi diferente do silêncio opressor de antes. Era um silêncio de paz, de alívio.
Elara olhou para a Lâmina em sua mão, sua luz agora mais suave, mas ainda irradiando um poder sereno. Ela olhou para Kaelen e Sir Kaelan, seus rostos marcados pela batalha, mas iluminados pela esperança.
“Acabou?”, Kaelen perguntou, sua voz cheia de exaustão e alívio.
“Por agora,” Sir Kaelan respondeu, seu olhar varrendo as ruínas. “Morwen foi derrotado, mas a maldição ainda deixa suas marcas. Eldoria precisa ser curada, e isso levará tempo.”
Elara sentiu uma onda de emoção percorrer seu corpo. Ela havia enfrentado seu medo, havia lutado por seu reino, e havia vencido. Ela olhou para as ruínas, não mais com desespero, mas com uma nova esperança. Eldoria poderia ser restaurada. Seu povo poderia retornar.
“Não está acabado,” Elara disse, sua voz firme e cheia de determinação. “Estamos apenas no começo. Eldoria voltará a florescer.”
Ela sentiu a Lâmina em sua mão pulsar suavemente, como se concordasse. O tempo havia sido um inimigo, mas agora, com a Lâmina e a esperança renovada, ela estava pronta para moldar um novo futuro para seu reino. A jornada seria longa, mas ela não estava mais sozinha. Juntos, eles começariam a reconstruir Eldoria, um pedaço de esperança de cada vez.