A Lâmina do Tempo e da Saudade

Capítulo 2 — O Mercador e o Sussurro da Lâmina

por Lucas Pereira

Capítulo 2 — O Mercador e o Sussurro da Lâmina

O dia seguinte amanheceu com a mesma luz suave e dourada que parecia ser a marca registrada de Arcania, mas o vilarejo fervilhava com uma energia diferente. A chegada do mercador de Oakhaven era um evento significativo, que quebrava a monotonia das colheitas e trazia novidades, tecidos coloridos, especiarias exóticas e, para os mais sonhadores, histórias de terras distantes. Elara, com um misto de curiosidade e uma leve apreensão, ajudava a mãe a arrumar a banca, expondo as frutas secas, os potes de mel e os tecidos bordados com os motivos florais típicos de Arcania.

O mercador, um homem corpulento e jovial chamado Borin, chegou em uma carroça alta e robusta, puxada por dois bois fortes. Seus olhos azuis faiscavam de vivacidade e um sorriso largo sempre se abria em seus lábios quando ele descarregava suas mercadorias. Ele era conhecido por negociar não apenas bens, mas também boatos e fofocas das estradas e dos vilarejos que visitava.

“Bom dia, Dona Clara! Que maravilha ver seus produtos tão bem arranjados! Arcania sempre me surpreende com a qualidade de seus dons!”, exclamou Borin, sua voz ressoando com entusiasmo enquanto ele cumprimentava a todos com um aceno amigável.

“Bom dia, Borin! Que bom que chegou em segurança. Que os céus o protejam nas estradas de volta”, respondeu Dona Clara, o rosto iluminado por um sorriso genuíno.

Elara observava Borin com atenção, esperando pacientemente pela oportunidade de fazer suas perguntas. Ela sabia que o mercador, por viajar tanto, poderia ter ouvido algo, visto algo, que pudesse se conectar com as histórias de seu pai. Ela tinha um pequeno embrulho de seda amarrado em sua cintura, contendo uma moeda de bronze antiga, a única relíquia que seu pai deixara para trás, uma moeda com um símbolo estranho que ela nunca conseguira identificar.

Enquanto os adultos tratavam dos negócios, Elara se aproximou de uma das caixas de Borin que continha objetos mais peculiares: amuletos, pedras polidas, pequenos instrumentos metálicos. Seus dedos percorreram os objetos com delicadeza, sentindo a textura e o frio do metal. Foi então que seus olhos pousaram em algo que fez seu coração dar um salto. Era uma pequena lâmina curva, de um metal escuro e polido, com entalhes intrincados que pareciam dançar sob a luz. Ela não era afiada como uma faca de cozinha, mas emanava uma aura de poder e mistério que a hipnotizou.

“O que é isso?”, perguntou Elara, a voz embargada pela surpresa.

Borin, que estava conversando com um dos fazendeiros, virou-se. “Ah, isso? É um achado interessante, minha jovem. Encontrei em uma feira em Silverwood, um lugarzinho para lá do Vale Nebuloso. Dizem que é um artefato antigo, de uma civilização que se perdeu no tempo. Chamam-na de ‘Lâmina do Sussurro’.”

“Lâmina do Sussurro?”, repetiu Elara, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Parecia tão certo, tão familiar, como se a lâmina tivesse sido feita para ela.

“Sim. A história que me contaram é que ela…”, Borin hesitou, olhando para a lâmina com um leve receio, “que ela pode revelar segredos. Que se você a segurar em momentos de profunda reflexão, ela pode te guiar, te mostrar caminhos que você não vê.”

O coração de Elara batia descompassado. Segredos. Caminhos. Era exatamente o que ela buscava. “Quanto custa?”, ela perguntou, sua voz quase um sussurro.

Borin riu, um som caloroso e amigável. “Para você, minha jovem? Vamos, não vamos estragar a magia com dinheiro. Mas confesso que tenho curiosidade. O que te atrai tanto nela?”

Elara hesitou por um instante. Como explicar a saudade que sentia, a conexão inexplicável com aquele objeto? “Eu… eu gosto do desenho. E sempre fui fascinada por histórias antigas.” Ela então teve uma ideia. Tirou a pequena bolsa de seda de sua cintura. “Eu posso te dar isso. É uma moeda antiga. Meu pai me deu antes de… antes de ele ir embora.”

Borin pegou a moeda com cuidado. Ela era realmente antiga, o metal desgastado pelo tempo, mas o símbolo gravado nela era único. Ele a virou e revirou, a testa franzida em concentração. O símbolo parecia vagamente familiar, mas ele não conseguia identificar de qual região ou época.

“Essa moeda é interessante também, Elara. Nunca vi nada parecido. Mas a lâmina… se você realmente sente algo por ela, sinta-se à vontade para levá-la. Considere um presente pela sua beleza e pela sua alma curiosa.” Ele sorriu e colocou a lâmina nas mãos de Elara.

Os dedos de Elara fecharam-se ao redor do cabo frio da lâmina. Imediatamente, uma corrente elétrica pareceu percorrer seu corpo. Era uma sensação estranha, mas não desagradável. Era como se a lâmina vibrasse em sintonia com algo dentro dela. Ela olhou para Borin, um sorriso genuíno de gratidão em seu rosto.

“Muito obrigada, Borin! Nunca esquecerei sua generosidade.”

“Eu que agradeço pela oportunidade de ter te conhecido, Elara. Você tem um espírito incomum. Se um dia precisar de algo, lembre-se de Borin, o mercador de Oakhaven.” Ele piscou um olho e voltou a seus afazeres.

Durante o resto do dia, enquanto os negócios transcorriam, Elara mantinha a lâmina escondida em suas vestes, sentindo seu peso e seu calor sutil. A cada instante, ela a tocava, como se buscasse decifrar seus segredos. Ela ouvia as conversas, as trocas de mercadorias, mas sua mente estava em outro lugar, voltada para a lâmina e para as possibilidades que ela representava.

À noite, depois que Borin partiu e a névoa dourada começou a descer, Elara se retirou para seu quarto. A lamparina projetava uma luz fraca sobre as paredes. Ela sentou-se em sua cama, a lâmina do sussurro em suas mãos. Ela fechou os olhos, concentrando-se na sensação do metal, na saudade que a consumia, na memória de seu pai.

“Pai… se você puder me ouvir… se essas histórias forem verdade… me mostre o caminho”, sussurrou Elara, sua voz embargada pela emoção.

Ela apertou a lâmina com mais força. Por um instante, nada aconteceu. Apenas o silêncio, o crepitar da lamparina e o som distante dos grilos. Então, um fio tênue de luz dourada começou a emanar dos entalhes da lâmina. A luz se intensificou, projetando padrões efêmeros nas paredes. E na mente de Elara, imagens começaram a se formar, como vislumbres em um sonho febril.

Ela viu montanhas imponentes, cobertas por uma neve que parecia brilhar com luz própria. Viu um rio que serpenteava por um vale de cores vibrantes, um rio de um azul tão intenso que parecia irreal. E então, viu uma figura solitária, um homem em pé no topo de uma montanha, olhando para o horizonte. A figura era esguia, vestida com roupas simples, mas havia algo em sua postura que a fez reconhecer, com uma certeza avassaladora, seu pai. Ele estava olhando para algo que ela não conseguia discernir, mas seu semblante era de profunda contemplação.

A visão se desfez tão rapidamente quanto surgiu, deixando Elara ofegante e com os olhos marejados. A luz da lâmina se apagou, retornando à sua cor escura. Mas a imagem, o vislumbre, estava gravado em sua mente.

“Pai…”, ela sussurrou novamente, a voz cheia de um novo tipo de esperança, uma esperança que parecia mais real, mais palpável.

Ela segurou a lâmina com mais firmeza. O mercador de Oakhaven havia trazido mais do que mercadorias e fofocas; ele havia trazido um catalisador, um objeto que prometia desvendar os mistérios que a atormentavam. A lâmina do sussurro parecia ter confirmado suas suspeitas mais profundas: seu pai não havia desaparecido sem rumo. Ele estava em algum lugar, em algum lugar distante e mágico, guiado por motivos que ela ainda não compreendia.

Elara olhou para fora da janela, para a névoa dourada que envolvia Arcania. A névoa não parecia mais um véu que escondia o mundo, mas um convite. Um convite para explorar, para descobrir, para seguir os sussurros da lâmina e encontrar o seu caminho. A saudade que a consumia agora tinha uma direção, um propósito. Ela não era mais apenas um anseio vago, mas uma bússola apontando para o desconhecido. Ela sabia que a jornada seria árdua e perigosa, mas a visão de seu pai no topo da montanha, e o poder latente na lâmina em suas mãos, a impulsionavam para frente. A lâmina do tempo e da saudade havia começado a revelar seus segredos, e Elara estava pronta para ouvi-los.

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