A Lâmina do Tempo e da Saudade

A Lâmina do Tempo e da Saudade

por Lucas Pereira

A Lâmina do Tempo e da Saudade

Capítulo 6 — O Abraço Gelado da Montanha

O vento uivava como um lobo faminto, chicoteando as vestes esfarrapadas de Elara enquanto ela ascendia pela trilha sinuosa. Cada passo era uma batalha contra a gravidade e o frio implacável que parecia sugar a vida de seus ossos. A Montanha das Brumas, com seus picos açoitados pelo tempo e envoltos em um véu etéreo de neblina, erguia-se como um colosso sombrio contra o céu cinzento. A promessa da Lâmina do Tempo, um eco distante na mente de Elara, era o único calor que a impulsionava naquela solidão desoladora.

Lembrou-se das palavras de Kaelen, o mercador de olhar esquivo e sorriso forçado, que a havia alertado sobre os perigos da ascensão. “A montanha guarda segredos antigos, moça,” ele dissera, a voz rouca como a areia de um deserto. “E segredos cobram um preço. Seus ecos te assombrarão, te farão questionar tudo que crê.” O preço, ela sabia, era a própria sanidade, a esperança escorrendo por entre os dedos como água.

A cada curva, a paisagem se tornava mais agreste. As árvores, retorcidas e despidas de folhas, agarravam-se às rochas com garras desesperadas. A vegetação rasteira, um tapete esparso de musgo e líquen, pintava a terra de tons sombrios. Elara sentia o olhar da montanha sobre si, um julgamento silencioso de eras. O ar rarefeito arranhava seus pulmões, e uma tosse seca e dolorosa irrompia de seu peito. O corpo, antes ágil e forte, agora respondia com gemidos de exaustão.

“Só mais um pouco,” murmurou para si mesma, a voz quase inaudível contra o rugido do vento. A imagem de sua vila em chamas, das faces apavoradas de seus conterrâneos, era uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar. A Lâmina do Tempo era a única esperança de reescrever aquele pesadelo, de desfazer o nó cruel do destino. Mas a montanha não entregava seus tesouros facilmente.

Em um trecho particularmente íngreme, seus pés escorregaram em uma placa de gelo disfarçada sob uma fina camada de neve. Com um grito abafado, ela despencou, sentindo a pedra fria rasgar suas mãos e joelhos. A dor era lancinante, mas o desespero a impeliu a se levantar. Olhou para a fenda que se abria em seu braço, um filete vermelho contra a pele pálida. O sangue, quente e vital, era um contraste irônico com o frio mortal que a cercava.

Continuou a escalada, seus pensamentos vagando para as figuras que marcavam sua jornada. O ancião de olhos fundos, cujas palavras a haviam impulsionado para fora de sua reclusão. O caçador de olhar sombrio, cujo pacto com as sombras a assombrava. E agora, Kaelen, com seus avisos velados. Cada encontro parecia um fio trançado em um destino incerto, um presságio que ela não conseguia decifrar completamente.

O sol, um disco pálido e fraco, começava a se pôr no horizonte, tingindo as nuvens de um laranja melancólico. A escuridão se aproximava, e com ela, um medo primordial que Elara lutava para controlar. A floresta, que ela deixara para trás, parecia um refúgio acolhedor em comparação com a desolação rochosa da montanha.

Enquanto buscava um local para descansar, seus olhos captaram um brilho incomum entre as pedras. Curiosa, aproximou-se. Era um pequeno cristal, incrustado em uma fenda. Ao tocá-lo, uma onda de frio percorreu seu corpo, mas diferente do frio da montanha, este parecia… vivo. Uma luz tênue emanou do cristal, iluminando um padrão intrincado gravado na rocha adjacente. Era um símbolo antigo, um que ela reconhecia vagamente de antigos contos folclóricos de sua vila. O símbolo do Guardião da Montanha.

Um arrepio percorreu sua espinha. Os sussurros da montanha ganharam voz em sua mente. Eram fragmentos de antigas batalhas, lamentos de almas perdidas, o rogar de criaturas esquecidas. O cristal pulsava em sua mão, aquecendo-a ligeiramente, como se estivesse absorvendo a essência da montanha e a transmitindo para ela.

“O que você quer de mim?”, ela sussurrou, o som perdido no uivo do vento. A montanha não respondeu com palavras, mas com uma sensação avassaladora de observação. Era como se a própria rocha estivesse viva, seus olhos invisíveis focados nela.

Elara sentiu uma necessidade premente de continuar. O descanso poderia esperar. A fome roía seu estômago, mas a urgência em seu peito era maior. Ela precisava encontrar a Lâmina. E a montanha, com sua sabedoria ancestral, parecia guiá-la, ou talvez testá-la.

Com o cristal na mão, ela retomou a ascensão. Os passos ganharam um novo ímpeto, impulsionados por uma força desconhecida que emanava do artefato. O frio ainda açoitava, mas a sensação de isolamento diminuiu um pouco. Era como se ela não estivesse mais sozinha, mas acompanhada por um espírito antigo, um guardião silencioso que a observava.

À medida que a noite caía, as estrelas começaram a perfurar o manto negro do céu. Eram pontos de luz fria e distante, testemunhas silenciosas de sua jornada. Elara encontrou uma pequena caverna, um refúgio precário contra o vento cortante. Acendeu uma pequena fogueira com os poucos gravetos que havia coletado, o brilho dançante das chamas um consolo bem-vindo.

Sentou-se, o cristal repousando em seu colo. Sua mente, exausta, lutava contra o sono, mas os sussurros da montanha se intensificaram. Não eram mais fragmentos aleatórios, mas sim vozes, como ecos de conversas perdidas no tempo. Ela ouviu fragmentos de juramentos, de despedidas, de promessas quebradas. E entre esses ecos, um nome se repetia, quase um lamento: Lyra.

Quem era Lyra? Um nome de amor? De perda? Elara sentiu uma pontada de saudade, uma emoção estranha e avassaladora que não lhe pertencia. Era a saudade da montanha, do tempo, de algo que ela nunca havia conhecido. A Lâmina do Tempo, ela percebeu com um calafrio, não era apenas uma arma, mas um receptáculo de memórias, de emoções congeladas pelo tempo. E ela, ao buscá-la, estava se tornando parte disso.

O sono finalmente a venceu, mas seus sonhos eram um turbilhão de imagens fragmentadas: um homem com olhos cheios de dor, uma mulher de cabelos prateados chorando sob a luz da lua, a lâmina brilhando com uma luz azul etérea. A montanha a estava testando, a estava moldando, a estava forçando a confrontar a própria natureza da perda e da memória. E Elara sabia, com uma certeza gélida, que a jornada pela Lâmina do Tempo estava apenas começando, e que o preço seria muito maior do que ela jamais imaginara.

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