A Lâmina do Tempo e da Saudade

Capítulo 9 — O Sombra do Caçador e a Dança da Ilusão

por Lucas Pereira

Capítulo 9 — O Sombra do Caçador e a Dança da Ilusão

O caminho de volta pela Floresta Sussurrante era diferente. A névoa parecia menos densa, as árvores menos ameaçadoras. A Lâmina do Tempo, agora firmemente em posse de Elara, irradiava uma aura sutil que parecia afastar as sombras mais profundas. Ela sentia a presença da lâmina, um companheiro silencioso e poderoso, mas também carregava o peso de sua história, a saudade de Elian e Lyra que agora fazia parte dela.

A cada passo, Elara se sentia mais forte, mais confiante. A experiência no Bosque dos Ecos a havia transformado. Ela não era mais apenas uma jovem em busca de vingança; era uma portadora de um artefato antigo, com uma compreensão mais profunda do tempo e da perda. A saudade que ela sentia não era mais um fardo esmagador, mas uma lembrança do preço da história e da importância de proteger o presente.

Enquanto se aproximava da orla da floresta, onde a luz do sol começava a penetrar com mais força, uma sensação de alerta a atingiu. O ar ficou mais frio, e um cheiro de terra revolvida e algo metálico, como sangue seco, pairou no ar. Era um cheiro que ela reconhecia, o cheiro da presença do caçador.

Ela apertou o cabo da Lâmina do Tempo. O metal frio pareceu responder, um leve formigamento percorrendo seus dedos. O caçador recluso, com seu pacto sombrio, era uma ameaça real, e ela sabia que ele estaria interessado na Lâmina.

Emergiu da floresta, a luz do sol forte em seus olhos. A paisagem ao redor era um campo aberto, salpicado de rochas e arbustos esparsos. Era um terreno mais exposto, onde a furtividade seria difícil. Elara vasculhou o horizonte, buscando qualquer sinal de movimento.

Então, ela o viu. A figura do caçador, encurvada e sombria, emergiu de trás de uma grande rocha a uma distância considerável. Ele estava vestido com peles escuras e desgastadas, e uma besta pesada estava em suas mãos. Seus olhos, mesmo à distância, pareciam fixos nela, cheios de uma intensidade predatória.

“Você não deveria ter retornado, moça,” a voz do caçador ecoou pelo campo, distorcida e rouca, como se tivesse sido polida por anos de gritos silenciosos. “Aquilo que você carrega não pertence a este mundo. Pertence às sombras.”

Elara não respondeu imediatamente. Ela ergueu a Lâmina do Tempo, sentindo sua energia vibrar em sintonia com sua própria determinação. “Esta lâmina pertence àqueles que buscam justiça, não às sombras que você serve.”

O caçador soltou uma risada seca e sem humor. “Justiça? A justiça é uma ilusão criada pelos fracos para confortar seus corações. O que existe é o poder. E o poder reside nas sombras que eu domino.” Ele levantou a besta. “Entregue a lâmina, e eu a deixarei ir. Talvez eu até a use para o meu próprio propósito. Mas se resistir…”

Um projétil rápido e silencioso disparou em direção a Elara. Ela reagiu instintivamente, girando a Lâmina do Tempo em um arco protetor. A lâmina brilhou com uma luz azul intensa, e o projétil se desintegrou no ar antes de atingi-la, transformando-se em poeira escura que o vento levou.

Os olhos do caçador se arregalaram ligeiramente em surpresa. Ele não esperava tamanha resistência. “Interessante,” ele murmurou. “Talvez você seja mais do que aparenta.”

O caçador começou a avançar, movendo-se com uma agilidade surpreendente para alguém de sua aparência reclusa. Elara se preparou para o confronto. Ela sabia que a força bruta não seria suficiente contra ele. Seu pacto sombrio lhe concedia habilidades que ela não compreendia completamente.

“Você está brincando com forças que não entende,” o caçador rosnou enquanto se aproximava. “Essas sombras… elas se alimentam da dor, do medo. E você carrega ambos em abundância.”

Enquanto ele falava, Elara sentiu uma mudança sutil no ambiente. As sombras ao redor do caçador pareceram se adensar, distorcer, ganhar vida própria. Figuras fantasmagóricas começaram a emergir da escuridão, formas indistintas que se contorciam e se contorciam. Eram ilusões, criadas pelo pacto do caçador, destinadas a desorientá-la e a atormentá-la.

Elara fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Lembrou-se do que Lyra lhe dissera sobre a Lâmina do Tempo: ela revelava a verdade. A verdade por trás das ilusões era a saudade, a dor.

Ela abriu os olhos e ergueu a Lâmina do Tempo. A luz azul que emanava dela se intensificou, penetrando as sombras e dissipando as ilusões. As figuras fantasmagóricas gritaram e se desintegraram, incapazes de suportar a clareza da lâmina.

“Suas ilusões não me enganam,” Elara disse, sua voz firme e clara. “Eu já enfrentei meus próprios fantasmas, e sei que eles são mais fortes quando não são confrontados.”

O caçador soltou um grunhido de frustração. Ele sabia que precisava de uma nova tática. Ele era um caçador, um mestre em emboscadas e em explorar as fraquezas de suas presas.

De repente, o caçador desapareceu de sua visão. Elara se virou em um círculo, a lâmina em guarda. O silêncio voltou, mas era um silêncio tenso, carregado de perigo. Ela sabia que ele estava por perto, observando, esperando o momento certo para atacar.

Então, ela ouviu. Um sussurro baixo, quase inaudível, vindo de trás dela. Ela se virou rapidamente, mas não viu nada. O sussurro se repetiu, desta vez mais perto, parecendo vir de todas as direções ao mesmo tempo. Eram palavras, fragmentos de pensamentos, sussurros de seus medos mais profundos.

“Você é fraca…” “Não consegue salvar ninguém…” “Sua vila está perdida para sempre…” “Você é um fardo…”

Eram os ecos da Floresta Sussurrante, amplificados pela escuridão que o caçador invocava. Elara sentiu uma pontada de dúvida, uma faísca de medo que ela lutou para apagar.

“Cale a boca!” ela gritou, mas sua voz tremeu.

O caçador reapareceu, desta vez do lado, com um sorriso cruel no rosto. “O medo é um veneno doce, não é? E eu sou o mestre em administrá-lo.” Ele avançou rapidamente, sua besta levantada novamente.

Elara reagiu, girando a lâmina em um movimento defensivo. Desta vez, a besta disparou um projétil que parecia envolto em sombras. A Lâmina do Tempo interceptou-o, mas o impacto foi mais forte. A luz azul vacilou por um momento, e Elara sentiu uma corrente fria percorrer seu braço.

Ela cambaleou para trás, sentindo uma fraqueza crescente. O pacto do caçador estava drenando sua energia, explorando a saudade que ela carregava. Ela precisava encontrar uma maneira de atacá-lo diretamente, de quebrar seu domínio sobre as sombras.

Pensou em Elian e Lyra. Pensou no amor que os unia, na tragédia que os separava. A saudade que ela sentia pela lâmina era também uma lembrança da força que nasce do amor e da perda.

“Você fala de sombras,” Elara disse, sua voz ganhando força. “Mas você se esconde nelas. Eu carrego a luz, a memória de um amor que nem mesmo a morte pode apagar.”

Ela ergueu a Lâmina do Tempo, focando toda a sua vontade e emoção nela. A luz azul irrompeu com uma intensidade renovada, mais brilhante do que nunca. Ela projetou um feixe de luz pura em direção ao caçador, não como um ataque, mas como uma revelação.

O caçador gritou quando a luz o atingiu. As sombras ao redor dele recuaram, se contorcendo como se estivessem sendo queimadas. Ele cobriu os olhos com as mãos, o semblante contorcido em dor.

“Não! Você não pode…!” ele gritou.

Elara avançou, não para feri-lo, mas para desmantelar seu poder. Ela girou a lâmina em um padrão complexo, cortando os fios invisíveis de seu pacto sombrio. Ela sentiu as sombras lutando contra ela, uma resistência fria e desesperada, mas a luz da Lâmina do Tempo era mais forte.

Com um último movimento poderoso, Elara desferiu um golpe no chão à frente do caçador. Uma onda de energia azul emanou da lâmina, espalhando-se pelo campo. As sombras se dissiparam completamente, como fumaça ao vento. O caçador caiu de joelhos, ofegante, suas vestes escuras parecendo agora desbotadas e sem vida.

Ele olhou para Elara, a intensidade em seus olhos substituída por uma perplexidade crua. “O que você fez…?”

“Eu libertei você das sombras,” Elara respondeu, abaixando a lâmina. “Agora você é livre para escolher seu próprio caminho. Sem pactos, sem ilusões.”

O caçador permaneceu ajoelhado por um longo momento, olhando para as próprias mãos como se não as reconhecesse. Lentamente, ele se levantou, seus ombros menos curvados, sua postura menos ameaçadora.

“Eu… eu não sei como te agradecer,” ele disse, sua voz ainda rouca, mas agora com um toque de genuína gratidão. “Eu estava perdido. Preso em um ciclo de escuridão.”

“Você não precisa agradecer,” Elara disse. “Apenas lembre-se do que viu aqui. Lembre-se que há mais no mundo do que as sombras que você serve.”

O caçador assentiu lentamente. Ele olhou para a Lâmina do Tempo em suas mãos, um respeito recém-descoberto em seus olhos. “A lâmina… ela é poderosa. Mais do que eu imaginava.”

“Ela é,” Elara concordou. “E eu a usarei com sabedoria.”

O caçador fez uma reverência curta e um tanto desajeitada. “Eu… eu devo ir. Mas se algum dia precisar de ajuda… meu nome é Roric.”

Com essas palavras, Roric se virou e se afastou, não mais com a postura furtiva de um predador, mas com a caminhada de um homem buscando um novo propósito. Elara o observou partir, sentindo uma onda de alívio misturada com a satisfação de ter superado mais um obstáculo.

Ela olhou para a Lâmina do Tempo em suas mãos. A saudade ainda estava ali, um eco suave, mas agora ela também sentia uma nova força, uma capacidade de canalizar a energia da lâmina sem se perder em sua tristeza. Ela estava pronta para o próximo desafio.

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