O Segredo da Casa Amarela

Capítulo 19 — A Rede do Passado e o Fio Condutor

por Bruno Martins

Capítulo 19 — A Rede do Passado e o Fio Condutor

O rugido do motor do carro de Ricardo se afastando da casa amarela era a trilha sonora perfeita para a turbulência que tomava conta de Mariana. A cidade, vista pela janela em movimento, parecia um borrão de luzes indistintas, um espelho da confusão em sua mente. Cada quilômetro percorrido a afastava fisicamente de sua casa, mas a aproximava, inexoravelmente, dos fantasmas de seu passado. Ao seu lado, Ricardo dirigia com uma concentração feroz, seus olhos fixos na estrada, mas Mariana sentia a tensão emanando dele, um reflexo do peso que agora compartilhavam.

"Para onde vamos?", Mariana perguntou, sua voz mal audível em meio ao barulho do carro.

Ricardo a olhou de relance, um lampejo de preocupação em seus olhos. "Para um lugar seguro. Um lugar onde ninguém vai nos encontrar. Pelo menos por enquanto."

"E o que era aquilo na casa? Quem eram aquelas pessoas?", Mariana insistiu, a necessidade de respostas a consumindo.

"Eu não sei", Ricardo respondeu, com uma franqueza que era ao mesmo tempo tranquilizadora e perturbadora. "Mas elas não pareciam amigas. E estavam procurando algo. Ou alguém." Ele apertou o volante, a mandíbula tensa. "O fato de terem arrombado a porta logo depois que saímos... é suspeito demais. Talvez elas soubessem que você encontraria o diário. Ou a caixa."

Mariana lembrou-se da rosa de cristal e da caixa de fotografias e cartas. "Eles queriam a rosa? Ou as cartas? Ou estão atrás de mim?"

"Não sei. Mas Dona Aurora nunca falou sobre guardiões. Apenas sobre a importância de manter tudo seguro. Talvez esse 'guardião' seja alguém que ela confiava para proteger esses segredos. E talvez essas pessoas sejam o oposto disso."

A conversa foi interrompida por um som estridente: o toque do celular de Ricardo. Ele pegou o aparelho, a expressão tornando-se ainda mais sombria.

"Alô?", ele disse, a voz tensa. Houve uma pausa, e então ele respondeu com um grunhido de desagrado. "Não, eu não sei onde ela está. Saí de lá há pouco tempo." Outra pausa. "Sim, eu entendo. Mas não posso falar agora." Ele desligou o telefone abruptamente, jogando-o no banco do passageiro.

"Quem era?", Mariana perguntou, o coração afundando.

"Um dos advogados da família", Ricardo respondeu, a voz carregada de irritação. "Eles estão ligando para todos. Procurando por você. E por mim."

"Por que eles estariam procurando por nós?", Mariana questionou, confusa.

"Porque Dona Aurora faleceu. E como você é a única herdeira direta, eles estão em busca do testamento. E, aparentemente, há cláusulas específicas sobre a casa amarela e seus pertences. Cláusulas que, tenho a impressão, não agradam a todos."

O testamento. Mariana não pensara nisso. Sua avó estava doente, mas a morte parecia um evento tão distante. Agora, tudo se encaixava. O falecimento de Dona Aurora seria o gatilho para a revelação de todos aqueles segredos, e talvez para o surgimento de novas ameaças.

Ricardo dirigiu por mais algumas horas, a estrada se tornando cada vez mais deserta. Finalmente, eles chegaram a uma pequena pousada, isolada em meio a uma paisagem montanhosa. Era um lugar rústico, charmoso, com um ar de tranquilidade que Mariana não sentia há dias.

"Aqui é o meu refúgio", Ricardo explicou, enquanto descarregavam as poucas malas que pegaram da casa. "Um lugar onde venho para pensar. Para fugir de tudo. Ninguém sabe que eu venho para cá."

Eles se instalaram em um quarto aconchegante, com uma lareira crepitante. Mariana sentou-se na poltrona, a rosa de cristal em suas mãos. Era um objeto de beleza singular, mas agora carregava o peso de uma história trágica. Ela abriu a caixa novamente, olhando para as fotografias. A mulher das fotos, Isadora, era incrivelmente parecida com sua mãe. A semelhança era inegável.

"Eu acho que sei quem era o homem", Mariana disse de repente, olhando para Ricardo. "O homem que amou Isadora e Dona Aurora. Ele é o seu pai. E o pai do meu pai."

Ricardo a encarou, seus olhos cheios de surpresa. "Como assim? Dona Aurora era sua avó. A mãe de você. Ela era sua mãe. Como ela pode ser sua avó?"

"Não, Ricardo. Dona Aurora era a minha avó. Mas ela era irmã de Isadora. A mãe de Isadora e Dona Aurora é a mesma mulher. Isadora era a irmã mais velha. Ela se apaixonou por um homem, o engravidou. Esse homem é o seu pai. E o pai do meu pai. Então, ele amou Isadora e teve você com ela. E depois ele se casou com Dona Aurora, a irmã de Isadora, e teve o meu pai com ela. Então meu pai é filho de Dona Aurora, mas também neto de Isadora. E eu sou filha do meu pai, e neta de Dona Aurora, e bisneta de Isadora."

A explicação de Mariana fez a cabeça de Ricardo girar. "Isso significa que meu pai era filho de Isadora, mas também de Dona Aurora? E você é filha do meu pai? Isso nos tornaria irmãos? Mas eu sou seu primo!"

"Não, não somos irmãos. Dona Aurora era a mãe do meu pai. E Isadora era a mãe do seu pai. Então, meu pai e seu pai eram irmãos. Eu sou filha do meu pai, e você é filho do seu pai. Então somos primos." Mariana tentou esclarecer, a voz embargada. "Mas o homem que amou Isadora e Dona Aurora... ele era o mesmo homem. Ele foi o pai de Isadora, que a engravidou. E ele também amou Dona Aurora, e foi pai do meu pai. Então, ele é o pai de Isadora e o avô do meu pai."

Ricardo balançou a cabeça, tentando assimilar a avalanche de informações. "O homem que amou Isadora e a engravidou, é o meu pai? E ele também amou Dona Aurora, e foi o pai do seu pai? Então, meu pai e seu pai são meio-irmãos? E eu sou filho do meu pai, e você é filha do seu pai. Então somos primos. E o homem que as amou é o meu avô e o seu avô?"

"Não", Mariana corrigiu pacientemente. "O homem que amou Isadora e a engravidou é o seu pai. E ele também amou Dona Aurora, e foi o pai do meu pai. Então, seu pai e meu pai são meio-irmãos. E você e eu somos primos. E o homem que amou as duas mulheres é o seu avô. O avô do seu pai, e o avô do meu pai. É isso."

Ricardo suspirou, um misto de alívio e exaustão. "Então, eu sou seu primo. E você é minha prima. E o homem que amou Isadora e Dona Aurora é o meu avô. E o pai de Isadora. E o pai do meu pai. E o pai do seu pai. Então ele é o pai do meu pai e o pai do seu pai. Então eles são meio-irmãos. E eu sou filho do meu pai. E você é filha do seu pai. Então somos primos."

Mariana assentiu, exausta, mas com a mente mais clara. A rede de parentesco era complexa, mas finalmente compreensível. A rosa de cristal, o símbolo do amor proibido de Isadora, era agora a chave para desvendar essa intrincada teia familiar.

"Mas e a carta de Dona Aurora?", Ricardo perguntou. "Ela fala de um filho levado. O meu filho. O que aconteceu com ele?"

Mariana pegou a carta novamente. As palavras de Dona Aurora sobre o filho levado a assombravam. "O meu filho que eu tive com o homem que te deu a rosa, foi levado. Levado por aqueles que não entendiam o amor, que não entendiam a dor. Eles o chamaram de um nome que eu nunca mais quis ouvir. O nome dele é Ricardo."

"Não...", Mariana sussurrou, a voz cheia de horror. "Não pode ser. O nome dele é Ricardo... Você... você é o filho de Dona Aurora?"

Ricardo olhou para ela, confuso. "Sim. Eu sou filho de Dona Aurora. Mas eu sou filho dela com quem? Ela nunca me disse quem era meu pai."

Mariana sentiu o sangue gelar. "A carta diz... o meu filho que eu tive com o homem que te deu a rosa... o nome dele é Ricardo."

"O homem que deu a rosa a Isadora? O meu pai?", Ricardo perguntou, a voz trêmula. "Isso significa que Dona Aurora... ela teve um filho com o meu pai? E esse filho sou eu?"

A implicação era devastadora. Ricardo não era apenas primo de Mariana, mas também seu meio-irmão, filho da mesma mulher que a concebeu. E o homem que amou as duas irmãs, Isadora e Dona Aurora, era o pai de ambos. O "guardião" que Dona Aurora mencionava poderia ser esse homem?

A noite avançava, e com ela, a revelação de segredos ainda mais sombrios. A rosa de cristal, guardada a sete chaves, era agora o fio condutor que ligava todos eles a um passado de paixões proibidas, perdas devastadoras e uma verdade que os unia de forma inseparável. A fuga da casa amarela não fora um fim, mas um novo começo para desvendar a complexa teia do passado.

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