O Segredo da Casa Amarela

Capítulo 3 — As Profundezas Esquecidas

por Bruno Martins

Capítulo 3 — As Profundezas Esquecidas

O cheiro de mofo e de terra úmida invadiu as narinas de Mariana assim que Rafael girou a maçaneta enferrujada da porta do porão. A umidade do ar pairava pesada, carregada de um silêncio que parecia mais antigo que as próprias pedras que compunham as paredes. A escada de madeira, rangendo a cada degrau, descia para a escuridão, onde apenas um fio tênue de luz emanava de um interruptor balançante no final do corredor. Era um lugar que Mariana sempre evitou, um espaço onde a jovialidade e a luz do sol pareciam não ousar entrar.

Rafael desceu primeiro, seguido de perto por Mariana, que sentia cada passo pesar com a apreensão crescente. A luz fraca do interruptor projetava sombras fantasmagóricas nas paredes, transformando objetos banais em figuras assustadoras. Havia caixas de madeira empoeiradas empilhadas em cantos escuros, ferramentas de jardinagem enferrujadas e um emaranhado de fios que pareciam teias de aranha gigantes.

“Onde fica?”, Rafael perguntou, sua voz ecoando no espaço confinado.

Mariana hesitou, tentando se lembrar das poucas palavras de Dona Eulália sobre o local exato. “Ela disse… atrás de uma velha estante de livros. No último cômodo.”

Eles caminharam pelo corredor estreito, a umidade grudando em suas peles. O som de seus próprios passos parecia amplificado, criando uma trilha sonora de suspense para sua exploração. Chegaram a uma porta de madeira maciça, mais escura e pesada que as outras, com uma fechadura robusta e enferrujada. Ao lado dela, encostada na parede, estava a estante de livros que Dona Eulália mencionara. Era antiga, coberta por uma espessa camada de poeira, e seus livros pareciam ter sido abandonados ali há décadas, suas capas desbotadas e páginas amareladas.

Rafael afastou a estante com esforço. O ranger da madeira arrastando no chão de cimento foi ensurdecedor, abrindo caminho para a porta trancada. A fechadura era antiga, e a chave parecia ter sumido com o tempo.

“Precisamos arrombar”, Rafael disse, avaliando a robustez da porta.

Mariana sentiu um arrepio. A ideia de forçar a entrada naquele local, que Dona Eulália tentara manter oculto por tantos anos, era perturbadora. Mas a carta dela era clara. O segredo estava ali.

Rafael buscou em uma caixa próxima e encontrou um pé de cabra. Com um movimento decidido, ele o inseriu na fresta da porta e aplicou força. A madeira gemeu, e o som de lascas se soltando ecoou no porão. Após alguns minutos de esforço, a porta cedeu com um estrondo, revelando o cômodo que Dona Eulália tanto temera.

O interior era ainda mais escuro e úmido que o restante do porão. O ar parecia pesado, carregado de uma energia opressora. No centro do pequeno cômodo, havia um cavalete empoeirado, sobre o qual repousava uma tela coberta por um pano branco. Ao redor, espalhados pelo chão e em prateleiras rústicas, estavam objetos diversos: potes de tinta ressecados, pincéis endurecidos, esboços de desenhos que pareciam perturbadores mesmo sob a camada de poeira. E, no canto, uma pequena caixa de madeira escura, com entalhes intrincados.

Mariana se aproximou do cavalete, seu coração batendo acelerado. Sentia uma mistura de curiosidade mórbida e um medo visceral. Rafael a seguiu, sua presença um conforto silencioso. Com as mãos trêmulas, Mariana estendeu a mão e puxou o pano que cobria a tela.

Um grito sufocado escapou de seus lábios.

Era um quadro. Um retrato. Mas não um retrato comum. Era o retrato de Arthur. Mas não o Arthur das fotografias alegres. Este Arthur tinha um olhar sombrio, perturbador, repleto de uma angústia que parecia transbordar da tela. Seus olhos, pintados com uma precisão assustadora, pareciam seguir Mariana por onde quer que ela se movesse. E havia algo mais. Algo nas sombras do quadro, nas linhas que compunham o fundo, que parecia se contorcer, como se a própria tela estivesse viva.

“Meu Deus…”, Mariana sussurrou, incapaz de desviar o olhar.

Rafael se aproximou, seu semblante sério. “É… perturbador. Ele tinha um talento incrível, mas também uma escuridão.” Ele olhou para os outros objetos espalhados pelo cômodo. “Parece que ele deixou tudo aqui. Suas ferramentas, seus trabalhos… e o que ele chamava de seu legado.”

Mariana se virou para a caixa de madeira escura no canto. Os entalhes eram complexos, representando figuras abstratas que pareciam se misturar em um padrão hipnótico. Sentiu um impulso irresistível de abri-la.

“O que você acha que tem aí dentro?”, ela perguntou a Rafael.

“Só há uma maneira de descobrir”, ele respondeu.

A caixa não estava trancada, mas a tampa parecia presa por anos de desuso. Juntos, eles a abriram. O interior era forrado com um veludo vermelho desbotado. Dentro, não havia objetos. Apenas uma substância escura, quase como um pó fino e resinoso, que parecia emanar um leve brilho fosforescente na penumbra. Havia também, no centro da caixa, um pequeno objeto embrulhado em seda preta.

Mariana pegou o objeto. Era um medalhão antigo, feito de metal escuro, com um símbolo gravado na superfície: um círculo com uma linha atravessando-o, emoldurado por espirais. O medalhão parecia frio ao toque, e Mariana sentiu uma estranha vibração emanar dele.

“Este símbolo…”, Rafael murmurou, inclinando-se para ver. “Eu já o vi antes. Em alguns dos esboços de Arthur. Ele o desenhava repetidamente.”

Mariana abriu o medalhão. Dentro, não havia retratos, como ela esperava. Havia apenas um espaço vazio, como se algo tivesse sido retirado. Mas, no fundo do medalhão, havia uma inscrição quase invisível, gravada em letras minúsculas. Ela se esforçou para decifrá-la.

“‘O eco de um amor não pode ser silenciado. Ele ressoa na eternidade’”, Mariana leu em voz baixa.

Um arrepio percorreu sua espinha. O eco de um amor. O amor de Arthur e Dona Eulália. Aquele amor que fora interrompido, que fora sepultado pela força, mas que parecia ter deixado uma marca indelével, um eco que se recusava a desaparecer.

De repente, um barulho alto e seco soou do lado de fora do cômodo. Parecia vir do corredor principal do porão. Ambos se sobressaltaram.

“O que foi isso?”, Mariana perguntou, sua voz tensa.

Rafael pegou o pé de cabra que havia deixado perto da porta. “Fique aqui. Vou verificar.”

Ele saiu do cômodo, sua figura desaparecendo na escuridão do corredor. Mariana esperou, o coração disparado, os ouvidos atentos a qualquer ruído. O silêncio que se seguiu foi ainda mais perturbador do que o barulho inicial. Ela olhou para a caixa com o pó escuro, para o medalhão em sua mão, para o quadro perturbador de Arthur. Tudo ali parecia carregar um peso, uma energia sinistra.

Então, ela ouviu os passos de Rafael se aproximando novamente. Sua expressão era sombria.

“Não há ninguém”, ele disse. “Mas a porta principal do porão foi aberta. E tem rastros de lama na escada. Alguém esteve aqui.”

Mariana sentiu um calafrio percorrer todo o seu corpo. Alguém sabia que eles estavam ali? Alguém estava observando? A casa amarela guardava segredos, mas parecia que esses segredos não estavam destinados a permanecer enterrados para sempre.

“Eulália estava certa”, Mariana disse, sua voz embargada. “Ela estava em perigo. E talvez nós também estejamos.”

Rafael olhou para o quadro de Arthur, para a caixa e o medalhão. “O legado de Arthur não é apenas uma obra de arte. É algo mais. Algo que alguém quer. Talvez a mesma pessoa que o fez desaparecer.”

Mariana pegou o medalhão, sentindo seu peso em sua mão. O símbolo gravado, as espirais, o frio que emanava dele. E o pó escuro na caixa, que parecia brilhar levemente. Ela sentiu que aquilo tudo estava conectado, que era parte de um quebra-cabeça maior.

“O que fazemos agora?”, ela perguntou, olhando para Rafael.

“Nós vamos terminar o que Eulália começou”, ele respondeu, com determinação em seus olhos. “Vamos descobrir o que é esse legado, e quem está interessado nele.” Ele fez uma pausa, seu olhar encontrando o dela. “Mas precisamos ser cuidadosos. Alguém está brincando conosco. E essa pessoa não parece querer que a verdade venha à tona.”

Eles saíram do cômodo trancado, Rafael fechando a porta para disfarçar a arrombada. Ao deixarem o porão úmido e sombrio, Mariana sentiu como se estivessem deixando para trás um mundo de sombras e entrando em outro, igualmente perigoso. A casa amarela, com seus segredos revelados e outros ainda ocultos, parecia agora um lugar ainda mais ameaçador. O eco do amor de Arthur e Dona Eulália ressoava não apenas nas palavras de uma carta, mas nas profundezas esquecidas daquela casa, aguardando o desenrolar de uma história que prometia ser muito mais sombria do que eles poderiam imaginar.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%