O Segredo da Casa Amarela

Capítulo 4 — Sussurros na Noite

por Bruno Martins

Capítulo 4 — Sussurros na Noite

A noite caiu sobre Paraty como um manto escuro, envolvendo a cidade em um silêncio que, para Mariana, agora parecia carregado de ameaças latentes. As estrelas, antes amigas em sua quietude, agora pareciam observadoras frias, testemunhas silenciosas do turbilhão de eventos que se desenrolavam na casa amarela. Depois de explorarem o porão e desvendarem parte do legado de Arthur, uma sensação de urgência pairava no ar. A descoberta de que alguém havia entrado na casa naquela noite só intensificou o medo e a paranoia.

Mariana e Rafael estavam na sala principal, a luz fraca de um abajur iluminando o centro do cômodo, criando um pequeno oásis de claridade em meio à escuridão que se espalhava pelos cantos. O medalhão de Arthur repousava sobre a mesa de centro, ao lado da carta de Dona Eulália e das fotografias amareladas. O pó escuro da caixa, que eles trouxeram do porão, estava agora em um pequeno recipiente de vidro, seu brilho tênue quase imperceptível sob a luz artificial.

“Precisamos investigar mais a fundo sobre Arthur”, Rafael disse, sua voz quebrando o silêncio. Ele estava sentado em uma poltrona, folheando um caderno de esboços de Arthur que encontraram no porão. “Eulália disse que ele desapareceu misteriosamente após o incêndio de seu ateliê. Precisamos descobrir o que aconteceu com ele.”

Mariana assentiu, esfregando os braços como se sentisse um frio que vinha de dentro. “E quem poderia ter entrado aqui. Por que eles queriam o que estava no porão? Ou eles apenas queriam nos assustar?”

“Talvez ambos”, Rafael ponderou, o olhar fixo nas páginas do caderno. “Esse símbolo no medalhão… ele o desenhou em vários lugares. Parece ter um significado importante para ele. E o que estava naquela caixa… aquela substância escura. O que era aquilo?”

“Eulália o chamou de ‘legado enigmático’”, Mariana lembrou, a voz baixa. “Ela parecia acreditar que era algo perigoso. Algo que ele deixou para trás.”

Enquanto conversavam, um barulho sutil chamou a atenção de Mariana. Um leve arranhar vindo de uma das janelas da sala. Ela congelou, seu corpo tensionando.

“Você ouviu isso?”, ela sussurrou.

Rafael levantou a cabeça, seus sentidos aguçados. O som se repetiu, um arranhar leve e persistente na vidraça. Não era o vento. Era algo deliberado.

Rafael se levantou silenciosamente, pegando o pé de cabra que ainda estava por perto. Mariana o seguiu, o coração disparado, aproximando-se cautelosamente da janela. Através do vidro empoeirado, a escuridão do lado de fora parecia densa, impenetrável.

De repente, um vulto passou rapidamente pela janela, e um som de algo batendo no vidro ecoou na sala. Mariana deu um sobressalto.

“O que foi isso?”, ela perguntou, assustada.

Rafael se aproximou da janela, espiando para o lado de fora. “Parece que alguém jogou uma pedra.”

“Mas por quê?”, Mariana perguntou, a paranoia aumentando. “Eles queriam que soubéssemos que estavam ali?”

Rafael balançou a cabeça. “Ou queriam nos atrair para fora.”

Ele hesitou por um momento, seu olhar encontrando o dela. “Eu vou verificar. Fique aqui e tranque esta porta.”

Antes que Mariana pudesse protestar, Rafael se moveu com agilidade em direção à porta da varanda. Ele a abriu com cuidado e saiu para a noite, o pé de cabra em punho. Mariana o observou sair, sentindo uma angústia crescente. A casa amarela, que deveria ser seu refúgio, agora parecia um palco de perigo iminente.

Ela correu para a porta da sala e a trancou, depois se aproximou da janela por onde o vulto passou. Olhou para fora, tentando discernir algo na escuridão. Nada. Apenas as sombras das árvores balançando ao vento.

Então, ela ouviu. Um sussurro. Um som baixo, quase inaudível, vindo de fora. Parecia uma voz, mas distorcida, como se estivesse falando através de algo.

Mariana se aproximou da janela, tentando focar sua audição. O sussurro parecia se repetir, formando palavras que ela não conseguia decifrar completamente. Era uma voz fria, melódica e perturbadora.

“…ele virá… ele cobrará… o eco… não pode ser silenciado…”

As palavras eram as mesmas do medalhão. O eco não pode ser silenciado. Mariana sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Aquilo não era uma coincidência. Alguém estava lá fora, observando-os, sabendo sobre o legado de Arthur.

De repente, um grito ecoou pela noite. Era a voz de Rafael.

Mariana se virou em direção à varanda, o pânico tomando conta dela. Destrancou a porta e correu para fora, para a noite escura.

“Rafael!”, ela gritou, correndo em direção ao local de onde veio o grito.

Ela o encontrou perto do portão de ferro, caído no chão. Ele segurava o braço, com uma expressão de dor. Ao lado dele, no chão, estava o pé de cabra.

“Você está bem?”, Mariana perguntou, ajoelhando-se ao lado dele.

Rafael respirou fundo, tentando recuperar o fôlego. “Eu… eu acho que sim. Alguém me atingiu pelas costas. Foi rápido. Sumiu na escuridão.”

Mariana olhou ao redor freneticamente, procurando por qualquer sinal do agressor, mas não viu nada. A escuridão era total, apenas pontuada pela luz fraca que emanava das janelas da casa.

“Ele disse alguma coisa?”, ela perguntou, sua voz trêmula.

Rafael balançou a cabeça. “Não. Apenas me atacou e fugiu. Mas eu vi… por um instante… ele estava usando uma máscara. Algo sombrio, com um símbolo gravado.”

“Um símbolo?”, Mariana perguntou, o coração apertado. “Que símbolo?”

Rafael hesitou. “Parecia… as espirais do medalhão. A mesma forma que Arthur usava em seus desenhos.”

O medo se intensificou. A pessoa que atacou Rafael era a mesma que estava lá fora sussurrando. Alguém que se identificava com a arte de Arthur, alguém que estava ligado ao seu legado.

Eles voltaram para dentro da casa, Rafael mancando ligeiramente. A adrenalina e o medo os mantinham alertas. Mariana trancou a porta da varanda novamente, sentindo-se mais vulnerável do que nunca.

“Precisamos ir embora daqui, Rafael”, Mariana disse, sua voz firme, apesar do medo. “Essa casa não é segura.”

Rafael a encarou, seus olhos verdes transmitindo uma mistura de dor e determinação. “Eu não posso, Mariana. Eulália me pediu para te proteger. E o que quer que esteja acontecendo aqui, eu preciso descobrir. Não podemos deixar que eles ganhem.”

“Mas quem são ‘eles’?”, Mariana perguntou, desesperada.

Rafael pegou o medalhão da mesa. “Alguém que está interessado no legado de Arthur. Alguém que quer o que ele deixou para trás. E essa pessoa está disposta a machucar quem estiver em seu caminho.” Ele olhou para Mariana. “Talvez o que Arthur deixou não seja apenas um objeto, mas algo mais… algo que alguém poderoso quer controlar.”

Enquanto falavam, um barulho sutil, mas persistente, começou a vir do andar de cima. Um som de algo sendo arrastado, seguido por um rangido. Parecia que alguém estava se movendo pelos quartos superiores.

“Eles estão dentro da casa”, Rafael sussurrou, sua voz tensa.

Mariana sentiu o pânico tomar conta dela. Estavam presos em uma casa onde um intruso se movia pelas sombras, e a única saída parecia estar guardada por essa mesma pessoa.

“O que faremos?”, ela perguntou, sua voz quase inaudível.

Rafael olhou para o medalhão em sua mão, depois para Mariana. Havia uma decisão em seus olhos. “Precisamos sair daqui. Pela porta dos fundos. Mas antes… precisamos pegar a chave.”

Ele se referia à chave antiga que Dona Eulália guardava em um pequeno cofre na biblioteca da casa. Uma chave que, segundo ela, abria um segredo ainda maior.

Enquanto se moviam silenciosamente em direção à biblioteca, cada rangido do assoalho parecia um trovão em seus ouvidos. A casa amarela, com seus sussurros noturnos e sua presença ameaçadora, parecia estar viva, observando cada movimento deles. O legado de Arthur, antes um mistério a ser desvendado, agora se tornava um campo de batalha, e Mariana e Rafael estavam no centro dele, cercados por um perigo invisível, mas palpável. O eco do amor, como o próprio Arthur havia dito, não podia ser silenciado, mas seu ressoar trazia consigo uma escuridão que ameaçava consumi-los.

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