Noites de Enigma em Ouro Preto

Noites de Enigma em Ouro Preto

por Felipe Nascimento

Noites de Enigma em Ouro Preto

Romance: Felipe Nascimento

Capítulo 11 — A Sombra do Passado em Vila Rica

O crepúsculo caía sobre Ouro Preto, pintando as ladeiras de um dourado melancólico, um espetáculo que, em tempos normais, faria o coração de Sofia bater mais forte de admiração pela beleza da sua cidade natal. Mas naquela noite, a beleza era apenas um véu fino sobre uma escuridão crescente, uma escuridão que parecia emanar não das nuvens carregadas que se adensavam no céu, mas das profundezas da sua própria alma atormentada. O corpo de Professor Antunes, o renomado historiador, jazia frio e sem vida no chão empoeirado da sua biblioteca, um santuário de saberes agora manchado de sangue.

Sofia, com as mãos ainda trêmulas pela adrenalina e pelo horror, observava a cena com uma mistura de descrença e uma familiaridade gélida. As luzes das lanternas dos policiais criavam um jogo de sombras dançantes nas estantes repletas de livros antigos, cada volume parecendo sussurrar segredos sombrios. O cheiro de mofo e de papel velho misturava-se com o odor metálico e pungente do sangue. Era um cenário que, de certa forma, parecia ter sido extraído de um dos romances policiais que ela tanto amava ler, mas a realidade era infinitamente mais brutal.

O Delegado Matias, um homem de poucas palavras e um olhar penetrante que parecia ler a alma de quem o encarava, ajoelhou-se ao lado do corpo. Ele era uma figura imponente, com a sua gabardine escura e o chapéu que lhe cobria parcialmente o rosto, conferindo-lhe um ar de mistério ainda maior. Ele examinou a ferida fatal, um golpe preciso e impiedoso na nuca. "Um profissional", murmurou ele, mais para si mesmo do que para Sofia. "Ou alguém que sabia exatamente o que estava fazendo."

Sofia sentiu um arrepio percorrer a sua espinha. Profissional. A palavra ecoou na sua mente como um sino fúnebre. Quem poderia querer a morte de um homem tão gentil e apaixonado pelo passado de Ouro Preto? Antunes era um pilar da comunidade, um farol de conhecimento. A ideia de que sua morte tivesse sido calculada, orquestrada por alguém com motivos tão sombrios, era quase insuportável.

"Delegado," a voz de Sofia saiu rouca, um sussurro que lutava para se fazer ouvir. "Há algo que eu precise saber? Alguma coisa que possa ter sido deixada para trás?"

Matias ergueu o olhar para ela, seus olhos escuros fixos nos dela. Havia uma intensidade ali que a desarmava. "Sofia, você está abalada. Por favor, tente se lembrar de tudo. Qualquer detalhe, por menor que seja, pode ser crucial." Ele fez uma pausa, seus olhos percorrendo a biblioteca, como se buscasse pistas nas próprias paredes. "O professor tinha inimigos? Alguém com quem ele pudesse ter tido desentendimentos recentes?"

Sofia pensou. Antunes era um homem de poucas paixões fora dos livros e da história, mas era um homem que defendia suas convicções com unhas e dentes. Ela se lembrou de uma discussão acalorada que ele tivera na semana anterior com o Dr. Valdir, um empresário influente que desejava construir um moderno centro comercial no local de um antigo casarão colonial, um projeto que Antunes lutava veementemente contra. "Ele teve um desentendimento com o Dr. Valdir", disse Sofia, a voz ganhando um pouco mais de firmeza. "O Dr. Valdir queria demolir um casarão histórico para construir um shopping. Professor Antunes era contra, claro."

Matias anuiu lentamente, a testa franzida em concentração. "Interessante. E o que mais?"

Sofia vasculhou sua memória, as imagens da noite anterior invadindo sua mente como fantasmas. A festa na casa de Dona Eulália, as conversas, as risadas… e depois, o silêncio perturbador. Ela se lembrou de ter visto um homem estranho, um vulto que parecia observar a todos de longe, com um olhar que parecia carregar um peso insuportável. Um homem com um chapéu de feltro, com uma aura de mistério. Ela não o conhecia, e ele parecia deslocado em meio à alta sociedade ouropretana. "Havia um homem… um desconhecido. Eu o vi perto do jardim, observando. Ele parecia… fora do lugar."

"Descreva-o", ordenou Matias, o tom de sua voz indicando que aquele detalhe era de particular interesse.

"Ele usava um chapéu escuro, daqueles de feltro. Não vi seu rosto com clareza, mas ele parecia alto e… sombrio. Tinha uma postura que me chamou a atenção, uma espécie de… rigidez, como se estivesse em alerta." Sofia fechou os olhos, tentando evocar a imagem com mais nitidez. "Ele estava perto da roseira, onde o Professor Antunes costumava ficar para fumar seu charuto."

Um brilho de algo que poderia ser reconhecimento, ou talvez apenas profunda reflexão, passou pelos olhos de Matias. Ele se levantou, o barulho das suas botas no assoalho ecoando na sala silenciosa. "Obrigado, Sofia. Você foi muito útil." Ele se dirigiu a um dos policiais. "Procurem por qualquer coisa fora do comum, impressões digitais em locais inesperados, qualquer coisa que não pertença à rotina do Professor Antunes."

Enquanto os policiais continuavam o trabalho meticuloso de vasculhar a cena do crime, Sofia sentiu o peso da investigação cair sobre seus ombros. Ela não era uma detetive, mas se sentia inextricavelmente ligada a essa tragédia. O Professor Antunes era mais do que um amigo; ele era um mentor, um confidente. A ideia de que ele pudesse ter descoberto algo perigoso, algo que o levara à morte, a consumia.

Ela caminhou até a janela, observando as luzes de Ouro Preto que começavam a piscar na escuridão. Cada luz parecia um segredo, cada viela um caminho para o desconhecido. A cidade, que ela sempre amou por sua beleza histórica e seu charme pacato, agora parecia um palco de mistérios macabros. A morte do Professor Antunes não era um evento isolado; era um prenúncio, um aviso de que algo muito maior e mais perigoso estava se desenrolando nas entranhas de Vila Rica. E Sofia sentia, com uma certeza gélida, que ela seria puxada para o centro desse enigma, quer quisesse, quer não. O passado, com seus segredos enterrados e suas paixões ardentes, parecia ter retornado para assombrar o presente, e a sombra da morte pairava sobre tudo. A busca pela verdade apenas começara, e o caminho seria tortuoso, repleto de perigos que ela ainda não conseguia sequer imaginar.

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