A Dama de Vermelho
Capítulo 14 — A Emboscada na Fazenda e a Revelação do Corvo
por Felipe Nascimento
Capítulo 14 — A Emboscada na Fazenda e a Revelação do Corvo
O ar na antiga casa da fazenda tornou-se denso com a tensão. O homem diante deles, com o semblante sombrio e a espingarda em punho, exalava uma ameaça palpável. Sofia sentiu o medo tomar conta de si, mas a presença firme de Elias à sua frente, o olhar determinado em seus olhos, lhe deu uma centelha de coragem. Elias, com o atiçador em uma mão e os documentos do cofre na outra, sabia que não poderia mais fugir. A verdade, guardada por tantos anos, estava prestes a ser revelada à força.
"Quem é você?", Elias perguntou, a voz controlada, mas com um fio de aço. "E o que você quer?"
O homem deu um passo à frente, um sorriso cruel surgindo em seus lábios. "Eu sou o responsável por este lugar agora. E vocês dois são invasores. Invasores que viram mais do que deviam." Ele olhou para Sofia com um desprezo calculado. "A pequena Sofia. Tão crescida. Não se lembra de mim, não é?"
Sofia o encarou, tentando conectar seu rosto à memória nebulosa daquela noite. "Eu... eu não sei quem você é."
"Claro que não", o homem zombou. "Vocês eram apenas crianças. Mas eu me lembro de você, Elias. O filho do agrônomo. Você sempre foi curioso demais. E essa curiosidade custou caro para o seu pai, não é?"
As palavras atingiram Elias como um golpe. Ele sabia que aquele homem estava ligado à morte de seu pai. A referência ao "corvo" na carta de seu pai, a investigação que ele estava conduzindo... tudo se encaixava. "Você matou meu pai", Elias acusou, a voz embargada pela raiva e pela dor.
"Seu pai era um intrometido", o homem retrucou, sem demonstrar remorso. "Ele estava mexendo onde não devia. Tentando desenterrar coisas que deveriam ter ficado enterradas." Ele fez um gesto com a espingarda na direção de Sofia. "E você, minha cara, herdou a mesma curiosidade imprudente. Achando que podia vir aqui e revirar o passado. Mas o passado tem seus guardiões."
Elias avançou um passo. "O que você fez naquela noite? O que aconteceu com os meus pais?"
O homem riu, um som seco e desagradável. "Seus pais... eles eram fracos. Seu pai era um idealista. Sua mãe... bem, ela apenas se casou com o homem errado. E você, Sofia, nasceu de um erro." Ele apontou a espingarda para Elias. "E agora, você veio para o lugar errado, na hora errada. Aquele medalhão que você carregava, aquele pedaço de tecido vermelho... vocês não sabem com quem estão lidando."
De repente, a porta se abriu com um estrondo e um grupo de homens armados invadiu a sala. Eram capangas do homem, com semblantes rudes e olhar selvagem. Sofia sentiu o pânico subir. Eles estavam cercados.
"Ora, ora, parece que o Sr. Vargas enviou reforços", o homem zombou, um brilho de inteligência maligna em seus olhos. "Mas vocês não vão sair daqui vivos. Ninguém vai. Eu sou conhecido como o Corvo. E tudo o que eu vejo, eu controlo."
O "Corvo". Era ele. A figura sombria que Elias e Sofia tentavam desvendar. A peça final do quebra-cabeça, mas também o pesadelo mais temido.
"Corvo...", Elias murmurou, sentindo um frio percorrer sua espinha. "Você é o Corvo. Vargas estava certo."
O Corvo riu novamente. "Vargas era um tolo. Acreditava que poderia deter o progresso. Mas o progresso exige sacrifícios. E o progresso me trouxe aqui, me deu poder. E agora, eu vou garantir que ninguém mais interfira nos meus negócios."
Um dos capangas agarrou Sofia pelo braço, puxando-a para perto do Corvo. Ela lutou, mas a força do homem era esmagadora. Elias tentou avançar, mas foi contido por outros dois capangas.
"Deixe-a em paz!", Elias gritou, a voz rouca de fúria e impotência.
"Ela é apenas uma moeda de troca", o Corvo disse, com um sorriso frio. Ele olhou para Elias. "Você tem os documentos, não é? O que seu pai deixou. Aquilo me pertence. Entregue-os, e talvez a garota saia ilesa."
Elias hesitou. O diário e os papéis do cofre continham a verdade sobre seu pai, sobre a família de Sofia, sobre o Corvo. Entregá-los significava deixar que ele escapasse impune. Mas o olhar de terror nos olhos de Sofia o fez tomar uma decisão.
"Onde está meu pai?", Sofia implorou, a voz embargada. "O que aconteceu com ele naquela noite?"
O Corvo se aproximou de Sofia, seu rosto a centímetros do dela. "Seu pai foi um homem honrado. Tinha princípios. E princípios não pagam as contas. Ele tentou me trair. Ele achou que poderia me denunciar. E foi punido por isso." Ele olhou para Elias. "Assim como o seu. Mas eu dei a eles uma escolha. E ambos escolheram o caminho errado."
Um lampejo de memória surgiu na mente de Sofia. Uma sombra alta, um homem com um sobretudo escuro, a voz grave e ameaçadora. Era ele. O Corvo. Ela o tinha visto naquela noite, escondida no armário de seu quarto.
"Você...", Sofia sussurrou, os olhos arregalados de horror. "Você estava lá. Você... você matou meu pai."
O Corvo deu uma risada seca. "Eu apenas cumpri o meu dever. E agora, vocês dois cumprirão o de vocês. Entreguem os documentos, Elias. Ou a garota sofrerá as consequências."
Elias olhou para os papéis em sua mão. A verdade sobre seu pai, a esperança de justiça. Mas ele também viu o desespero nos olhos de Sofia. Ele não podia deixá-la.
"E se eu não entregar?", Elias perguntou, a voz desafiadora.
O Corvo ergueu a espingarda. "Então vocês dois morrem aqui. E o segredo fica enterrado comigo."
De repente, um barulho de tiro ecoou do lado de fora da casa. Um, depois outro. O caos irrompeu. Os capangas se dispersaram, alguns saindo para investigar, outros em pânico. O Corvo, pego de surpresa, hesitou por um instante.
"Quem está aí?", ele gritou, a voz cheia de fúria.
Nesse momento, uma figura familiar surgiu na porta dos fundos. Era o homem que Elias e Sofia encontraram ferido na mata. Ele estava mancando, mas em sua mão, uma pistola.
"Você não vai escapar, Corvo", disse o homem, a voz fraca, mas determinada.
O Corvo se virou para ele, surpreso. "Você... como você chegou aqui?"
"Eu não sou um homem que desiste fácil", o homem respondeu. "E eu sabia que ele viria atrás de vocês." Ele olhou para Elias. "O nome dele é Jonas. Ele é um antigo sócio do seu pai, Elias. Ele ouviu falar do seu pai, sobre a investigação dele. E quando soube que você estava em perigo, ele veio ajudar."
Jonas disparou novamente, acertando a espingarda na mão do Corvo, que a deixou cair com um grito de dor. Os capangas restantes, vendo a situação mudar, começaram a recuar.
"Agora!", Elias gritou, puxando Sofia para si. Eles correram em direção a Jonas, o único aliado naquele inferno.
O Corvo, furioso, pegou uma pistola de sua cintura. "Vocês não vão fugir de mim!"
Um tiroteio eclodiu. Elias, com a agilidade que a adrenalina lhe proporcionava, tentava proteger Sofia enquanto se movia em direção à saída. Jonas, ferido, mas com coragem redobrada, disparava contra os capangas que tentavam barrar o caminho.
Em meio ao caos, Sofia viu algo cair do bolso do Corvo. Um pequeno objeto, um chaveiro com um símbolo. Uma águia estilizada. O mesmo símbolo do medalhão que ela encontrou com Jonas.
"O medalhão!", Sofia gritou. "É o mesmo símbolo!"
O Corvo, distraído pela fala de Sofia, hesitou por um instante crucial. Elias aproveitou a oportunidade. Ele jogou os documentos no chão e avançou sobre o Corvo, em uma luta corpo a corpo.
A batalha foi feroz. O Corvo era forte e brutal, mas Elias lutava com a força de quem não tinha nada a perder. Sofia, vendo a luta, agarrou o medalhão que caiu no chão. Ela se lembrou de uma porta escondida no escritório de seu pai, uma porta que ela nunca havia notado antes, camuflada na estante. Ela sabia que precisava abrir.
Enquanto Elias e o Corvo se engalfinhavam, Sofia correu para o escritório. Ela abriu o medalhão e viu que havia um pequeno botão na lateral. Ela o pressionou. Um clique sutil soou, e a estante se moveu, revelando uma passagem secreta.
"Elias! Jonas!", ela gritou. "Aqui! Temos uma saída!"
Elias conseguiu se desvencilhar do Corvo por um momento, empurrando-o para longe. Ele viu a passagem secreta. "Vamos!", ele gritou, puxando Sofia em direção à abertura. Jonas, cambaleando, seguiu-os.
O Corvo, vendo que sua presa estava escapando, gritou de fúria. "Vocês não vão escapar de mim!"
Elias, Sofia e Jonas entraram na passagem secreta, fechando a porta camuflada atrás de si. O som dos tiros e dos gritos do Corvo diminuíram à medida que eles se aprofundavam na escuridão. Eles haviam escapado por um triz, mas a verdade sobre o Corvo e o passado sombrio de suas famílias acabara de ser revelada, deixando um rastro de perigo e um futuro incerto.