A Dama de Vermelho
Capítulo 4 — O Labirinto da Biblioteca e o Sussurro do Fantasma
por Felipe Nascimento
Capítulo 4 — O Labirinto da Biblioteca e o Sussurro do Fantasma
A luz fraca da manhã espreitava pelas janelas empoeiradas do casarão Montenegro, pintando os móveis cobertos de lençóis com tons pálidos de cinza e dourado. A chuva havia cessado, deixando para trás o cheiro de terra molhada e um céu limpo, que parecia ironicamente otimista diante da atmosfera carregada que pairava dentro da mansão. Helena e Gabriel Vargas estavam diante de uma porta maciça de madeira escura, no final de um corredor esquecido, a entrada para a ala selada da biblioteca.
A porta, reforçada com barras de ferro e um cadeado antigo, emanava uma aura de abandono e mistério. O ar ao redor dela parecia mais frio, e um silêncio sepulcral a envolvia, como se o tempo ali dentro tivesse parado. Helena sentiu um nó na garganta, uma mistura de apreensão e uma determinação férrea. A carta de Carmela, o código enigmático no medalhão, tudo apontava para este lugar.
“Você tem certeza que é por aqui?”, Gabriel perguntou, a voz baixa, mas firme. Ele observava a porta com a mesma cautela que usava para analisar um balanço financeiro arriscado.
Helena assentiu, segurando o medalhão em sua mão como um amuleto. “A data que encontramos, 18 de junho de 1923, é a mesma data em que a biblioteca foi selada após o incêndio. E o código parecia indicar este local. Carmela não deixaria um rastro para nada. Se há algo aqui, está escondido.”
Gabriel tirou de sua pasta um pequeno conjunto de ferramentas de precisão. “Vamos ver se conseguimos abrir isso sem fazer muito barulho. Não quero atrair atenção indesejada.”
Com habilidade surpreendente, Gabriel trabalhou no cadeado antigo. Seus dedos ágeis manipulam as chaves e pinças, o som metálico dos instrumentos quebrando a quietude do corredor. Helena observava, o coração batendo acelerado a cada clique, a cada giro. Ela sentia a presença do passado se intensificar, como se as paredes sussurrassem histórias esquecidas.
Finalmente, com um “clac” satisfatório, o cadeado cedeu. Gabriel empurrou a porta lentamente, revelando um corredor estreito e escuro. O cheiro de mofo e papel velho era avassalador, mais intenso do que em qualquer outro lugar da mansão. Um frio penetrante emanava da escuridão.
“Parece que o tempo realmente parou aqui”, Gabriel comentou, acendendo uma pequena lanterna.
Eles entraram, a porta se fechando atrás deles com um estrondo que fez Helena dar um pulo. O corredor levava a uma sala ampla, que antes fora a biblioteca principal. Pilhas de livros, alguns ainda em seus estantes, outros espalhados pelo chão em desordem, cobriam o espaço. Teias de aranha pendiam do teto como véus fantasmagóricos, e a poeira pairava no ar, dançando nos feixes de luz da lanterna.
“É… impressionante”, Helena sussurrou, maravilhada e aterrorizada. A dimensão do caos era assustadora. Era como um santuário profanado, onde o conhecimento fora deixado à mercê da destruição.
“O incêndio não atingiu esta seção principal, pelo visto”, Gabriel observou, examinando as estantes. “Talvez tenha sido apenas na ala adjacente, a que foi selada.”
Eles começaram a vasculhar os livros, procurando por algo fora do comum. Helena se sentia como uma arqueóloga em um sítio esquecido, cada objeto, cada página virada, uma pista para o passado. Ela pegou um livro de capa de couro, o título quase apagado. Ao abri-lo, um pequeno objeto caiu no chão com um barulho seco.
Era um broche antigo, feito de prata e com uma pequena pedra verde no centro. Uma joia discreta, mas elegante. Helena a pegou, sentindo um arrepio. Era diferente do medalhão, mas parecia carregar a mesma aura de mistério.
“O que é isso?”, Gabriel perguntou, aproximando-se.
“Não sei. Parece um broche. Não o reconheço como algo de minha família.” Helena o examinou. “Talvez pertencesse à Carmela. Ou a alguém que ela conheceu.”
Enquanto Gabriel continuava a procurar nas estantes, Helena sentiu uma sensação estranha. Um frio mais intenso em sua nuca, um sussurro quase imperceptível que parecia vir de lugar nenhum. Ela se virou bruscamente, mas não viu nada além das sombras dançantes.
“Você sentiu isso?”, ela perguntou a Gabriel, a voz trêmula.
Ele parou o que estava fazendo e a olhou. “Sentir o quê?”
“Um frio… e um sussurro. Pareceu uma voz.”
Gabriel deu um leve sorriso. “É a sua imaginação, Helena. Este lugar é assustador. É normal se sentir assim.”
Mas Helena não estava convencida. A sensação era real, e a sensação de estar sendo observada se intensificava. Ela olhou em volta, seus olhos percorrendo as estantes, as sombras. Em um canto mais escuro da sala, havia uma porta menor, também selada, com uma placa de madeira desgastada indicando: “Ala de Arquivos Pessoais – Acesso Restrito”.
“Aquela porta”, Helena apontou. “Parece ser a ala que foi selada pelo incêndio. Talvez seja lá que Carmela escondeu o que quer que tenhamos que encontrar.”
Gabriel seguiu a direção do seu dedo. “Parece mais difícil de abrir do que a principal. Mas vamos tentar.”
Desta vez, a tarefa foi mais árdua. O incêndio havia danificado a porta e o mecanismo de fechamento. Gabriel trabalhou com mais afinco, o suor começando a escorrer em sua testa. Helena observava, a angústia crescendo em seu peito. A sensação de que algo estava ali, escondido, a impulsionava a continuar.
De repente, um barulho distinto ecoou pela biblioteca. Não era um sussurro, mas um som claro de algo caindo. Vinha da ala selada.
“O que foi isso?”, Helena perguntou, assustada.
Gabriel parou de trabalhar e ficou em alerta. “Não sei. Parece que algo caiu lá dentro.”
Ele se aproximou da porta, pressionando o ouvido contra a madeira. “Silêncio.”
Helena sentiu um calafrio. Era como se o próprio passado estivesse se manifestando, tentando afastá-los. Ela pegou o broche que havia encontrado e o apertou em sua mão.
“Precisamos entrar”, ela disse, com uma determinação renovada.
Com um último esforço, Gabriel conseguiu forçar a porta da ala de arquivos. Ela se abriu com um rangido agudo, revelando um espaço ainda mais sombrio e desolado. O cheiro de queimado era mais forte aqui, misturado a uma fragrância adocicada e perturbadora.
No centro da sala, um grande armário de metal, parcialmente chamuscado, havia caído de um dos suportes na parede, espalhando caixas de documentos pelo chão. Era dali que viera o barulho.
“Parece que a gravidade decidiu fazer o trabalho por nós”, Gabriel comentou, iluminando a bagunça com a lanterna.
Eles começaram a examinar as caixas espalhadas. Eram documentos antigos, cartas, registros de família, fotos desbotadas. A história dos Montenegro estava ali, em pedaços, espalhada pelo chão. Helena pegou uma caixa marcada com as iniciais “C.M.”. Era a caixa de Carmela.
Com as mãos trêmulas, ela abriu a caixa. Dentro, havia um diário encadernado em couro, mais grosso do que a carta que haviam encontrado. E, em meio a papéis amarelados, um pequeno envelope lacrado.
“O diário de Carmela”, Helena sussurrou, sentindo uma conexão profunda com sua bisavó. E o envelope…
Gabriel olhou para o envelope. “Parece intacto. Sem rasuras, sem marcas. Mas o selo é diferente do que se usava na época.”
Helena pegou o envelope. Era pesado. Ela sentiu que ali estava a resposta para a questão da identidade do filho de Carmela. Ela o abriu com cuidado.
Dentro, havia um documento oficial. Uma certidão de nascimento. E, abaixo dela, uma carta, escrita em uma caligrafia diferente da de Carmela, mas igualmente elegante.
“Para meu filho, que um dia talvez encontre este legado. Nasceu na noite de 17 de junho de 1923, uma noite em que as estrelas brilharam mais forte, como um sinal do destino. Seu nome é Arthur. E ele é a prova de que o amor verdadeiro transcende todas as barreiras. Que ele cresça forte e corajoso, honrando a memória de sua mãe, que o amou mais do que tudo. – Seu pai, Doutor Elias Vance.”
Helena leu a carta em choque. Arthur. Elias Vance. Seu avô não era o único neto de Carmela. E o nome Vance… um nome que ela não reconhecia na árvore genealógica Montenegro.
“Arthur Vance”, Helena repetiu, a mente girando. “E Elias Vance. Um Doutor. Ele era o homem que Carmela amava?”
Gabriel pegou a certidão de nascimento. “Arthur Montenegro Vance. Ele tinha o nome do pai e da mãe. Interessante. O que significa que a família Montenegro sabia da existência dele, mas optou por apagá-lo da história oficial. Talvez por vergonha, talvez para proteger seu próprio poder.”
De repente, um vulto passou pela entrada da biblioteca, na penumbra. Um movimento rápido, quase imperceptível. Helena e Gabriel se viraram abruptamente.
“Quem está aí?”, Gabriel gritou, iluminando a área com a lanterna.
Apenas sombras e poeira responderam. Mas a sensação de que não estavam sozinhos se intensificou. O sussurro que Helena ouvira antes pareceu retornar, mais forte agora, um lamento fantasmagórico que ecoava pelas paredes antigas.
“Eu sinto isso de novo”, Helena disse, a voz tensa. “Não estamos sozinhos. Há algo aqui.”
Era como se o fantasma de Carmela estivesse presente, guardando os segredos de sua família, alertando-os sobre os perigos que os cercavam. Ou talvez, fosse outra coisa. Algo mais tangível. Alguém que não queria que eles descobrissem a verdade.
Gabriel fechou a caixa de Carmela com cuidado. “Precisamos sair daqui, Helena. E rápido. Acredito que encontramos o que viemos buscar. Mas também acredito que nossa descoberta não passou despercebida.”
Eles saíram da ala selada, fechando a porta atrás de si, deixando as sombras e os sussurros para trás. Mas a sensação de que algo os seguia pairava no ar. O passado dos Montenegro havia sido desenterrado, mas a descoberta de Arthur Vance e seu pai Elias abria um novo leque de mistérios. Quem era Elias Vance? E por que a família Montenegro o havia apagado da história? E, mais importante, quem estava tentando impedi-los de descobrir a verdade? A Dama de Vermelho, Helena Montenegro, sentia que sua jornada estava apenas começando, e que os perigos eram muito maiores do que ela imaginara.