A Dama de Vermelho
Capítulo 5 — A Teia de Vargas e a Fuga Inesperada
por Felipe Nascimento
Capítulo 5 — A Teia de Vargas e a Fuga Inesperada
A luz do sol da manhã, antes tímida, agora banhava São Paulo em um brilho dourado, prometendo um dia claro e promissor. Contudo, dentro do casarão Montenegro, a atmosfera estava longe de ser serena. A descoberta de Arthur Vance, o filho secreto de Carmela Montenegro, e de seu pai, Elias Vance, havia lançado uma nova e perturbadora luz sobre o legado sombrio da família. Helena, ainda abalada pelas revelações, sentia o peso de mais um segredo desvendado, mas a constatação de que não estavam sozinhos na biblioteca a deixava em estado de alerta.
Gabriel Vargas, o homem que prometera desvendar os mistérios de sua família, agora se movia com uma cautela redobrada. Seus olhos, sempre atentos e analíticos, varriam os corredores e recantos da mansão, como se estivesse desarmando uma bomba-relógio. A porta da biblioteca selada, agora aberta e exposta, parecia um convite para sombras que eles prefeririam deixar adormecidas.
“Precisamos ser discretos, Helena”, Gabriel disse, sua voz baixa e firme, enquanto caminhavam de volta para a sala principal. “Se alguém soube que entramos naquela ala, podemos ter nos exposto mais do que imaginávamos.”
Helena concordou, apertando o broche verde em sua mão. Aquele objeto, encontrado na biblioteca, parecia vibrar com uma energia sutil, diferente do medalhão. “Quem seria esse alguém, Gabriel? E por que se importaria com os segredos de minha família?”
Gabriel parou, virando-se para ela. Havia uma expressão pensativa em seu rosto, algo que Helena não havia visto antes. Era como se ele estivesse conectando os pontos de uma equação complexa.
“Helena”, ele começou, hesitando por um momento. “Nem tudo que se apresenta como um mistério familiar é apenas isso. Às vezes, os segredos de uma família podem se entrelaçar com os de outras, ou com forças externas que buscam manipulá-los.”
Helena franziu a testa. “O que o senhor quer dizer?”
“Quero dizer que a família Montenegro teve um passado de poder e influência. E poder, Helena, atrai atenção. E, muitas vezes, inimizades. O fato de seu avô ter sido omitido da história oficial, e o de Elias Vance ter sido apagado, sugere que houve um esforço deliberado para esconder essa parte da sua linhagem. Um esforço que pode ter tido consequências.”
Gabriel tirou o celular do bolso e discou um número. “Preciso fazer uma verificação. Algo sobre o nome Vance. E sobre a propriedade de certos bens na região, que podem ter sido associados a Elias ou a Arthur.”
Enquanto Gabriel falava ao telefone, com sua voz calma e profissional, Helena sentiu uma pontada de desconforto. Havia algo em Gabriel que ela ainda não compreendia completamente. Ele era eficiente, perspicaz, mas parecia ter um conhecimento prévio sobre a família Montenegro que ia além do que ele próprio admitia.
“Obrigado, Doutor”, Gabriel disse ao final da ligação. “Sim, essa informação pode ser crucial. Manterei você atualizado.” Ele desligou o telefone e se virou para Helena. “O nome Vance não é completamente desconhecido em certos círculos. Elias Vance era um médico renomado na época. E, segundo as informações que consegui, ele possuía propriedades consideráveis, que após sua morte, foram misteriosamente vendidas para uma empresa de investimentos. Uma empresa que, curiosamente, tem laços indiretos com uma das minhas próprias empresas de consultoria no passado.”
Helena arregalou os olhos. “O senhor… o senhor sabia disso? Que Elias Vance tinha ligações com sua empresa?”
Gabriel suspirou. “Eu não sabia dos detalhes, Helena. Apenas que meu nome, ou o nome da minha empresa, foi associado a transações que envolviam a venda de bens da família Vance. Uma coincidência que, admito, agora me parece muito mais significativa. Talvez a busca por Arthur, o filho de Carmela, não tenha sido apenas uma questão de honra familiar, mas também de controle de um patrimônio que alguém desejava. Alguém que se beneficiou da exclusão de Arthur da linha sucessória.”
A revelação atingiu Helena como um raio. Gabriel Vargas, o homem que ela contratara para desvendar seus segredos, parecia ter suas próprias conexões com o passado de sua família. Ela sentiu uma pontada de desconfiança, mas a urgência da situação a fez reprimir o questionamento.
“Então, a exclusão de Arthur foi orquestrada? E a venda das propriedades de Elias Vance também?”
“É uma forte possibilidade, Helena. Alguém se beneficiou do desaparecimento de Arthur e da venda de suas posses. E a família Montenegro, por motivos que ainda desconhecemos, cooperou com isso, ou pelo menos, não se opôs. Talvez para manter a fachada de uma linhagem ‘pura’ e poderosa.”
De repente, um grito ecoou do andar de cima. Um grito agudo, de puro terror.
“O que foi isso?”, Helena exclamou, assustada.
Gabriel reagiu imediatamente, tirando uma arma pequena e discreta do bolso de seu paletó. “Fique atrás de mim, Helena. Mantenha o broche e a carta de Arthur. São importantes.”
Eles correram em direção à escada, o coração de Helena martelando no peito. O grito parecia ter vindo de um dos quartos no andar superior, um dos que estavam desocupados há anos. Ao chegarem ao topo da escada, viram uma porta entreaberta, de onde emanava uma luz fraca.
Gabriel se aproximou com cautela, a arma apontada. Helena o seguia, o broche e a carta firmemente em suas mãos. Ao abrir a porta, encontraram um quarto que parecia ter sido invadido. Móveis revirados, papéis espalhados pelo chão. E no centro, uma figura encolhida em um canto, tremendo de medo. Era Dona Clara, a antiga governanta da mansão, uma senhora idosa que vivia em uma pequena casa nos fundos da propriedade, mas que ocasionalmente vinha ajudar em tarefas mais delicadas.
“Dona Clara!”, Helena exclamou, correndo até ela. “O que aconteceu?”
A governanta, com os olhos arregalados e o rosto pálido, apontou com a mão trêmula para a janela. “Ele… ele entrou. Um homem. Alto… com um capuz. Ele… ele estava procurando por algo. Perguntou sobre o que a senhorita encontrou na biblioteca.”
Gabriel se aproximou da janela, examinando a área externa. Havia marcas de pegadas na terra úmida. “Ele fugiu. Não está mais aqui.”
Helena olhou para Dona Clara, a compaixão misturada com um novo tipo de medo. “Ele sabia que estávamos na biblioteca? Ele sabia o que encontrámos?”
“Ele… ele disse que o Doutor Vance e a última Montenegro não deveriam mexer em coisas que não lhes pertencem”, Dona Clara murmurou, a voz embargada. “Ele me ameaçou. Disse que se eu contasse alguma coisa… ele voltaria.”
O Doutor Vance. Elias Vance. A menção ao nome parecia confirmar que havia algo mais profundo em jogo.
“Precisamos ir, Helena”, Gabriel disse, sua voz carregada de urgência. “Agora. Não podemos arriscar que essa pessoa retorne, ou que alguém mais saiba que você tem esses documentos.”
Helena sentiu um frio na espinha. A segurança de Dona Clara era sua prioridade, mas ela também sabia que a verdade que ela buscava estava em perigo. “E a senhora, Dona Clara? Não podemos deixá-la sozinha.”
“Eu ficarei bem, minha querida”, Dona Clara insistiu, ainda trêmula. “Apenas vá. Proteja-se. E proteja o que você encontrou.”
Helena olhou para Gabriel, a incerteza estampada em seu rosto. Ele estava agindo de forma protetora, mas também parecia estar escondendo algo. A ligação com a empresa de investimentos, a sua relação com o nome Vance… tudo apontava para uma teia mais complexa do que ela imaginava.
“Para onde vamos?”, Helena perguntou, enquanto desciam apressadamente as escadas.
“Para um lugar seguro”, Gabriel respondeu. “Um lugar onde você poderá analisar esses documentos com calma e onde eu poderei investigar quem é o homem que invadiu sua casa. Precisamos descobrir quem está interessado no destino de Arthur Vance e quem quer manter isso em segredo. E precisamos fazer isso antes que a pessoa que te ameaçou decida resolver o problema de outra forma.”
Enquanto saíam do casarão Montenegro, deixando para trás a governanta assustada e o fantasma da biblioteca, Helena sentiu que sua vida havia dado uma guinada dramática. A busca pela verdade sobre sua família a havia lançado em um mundo de perigos e segredos que ela jamais imaginara. E Gabriel Vargas, o homem misterioso que surgira como seu aliado, agora parecia ser a chave para desvendar essa teia intrincada, mas também, talvez, parte dela. A Dama de Vermelho estava em fuga, carregando consigo os segredos de gerações, e um futuro incerto que se desdobrava a cada passo.