O Colecionador de Ossos
Claro, vamos mergulhar na atmosfera densa e misteriosa de "O Colecionador de Ossos".
por Thiago Barbosa
Claro, vamos mergulhar na atmosfera densa e misteriosa de "O Colecionador de Ossos".
Capítulo 1 — O Sussurro do Passado na Serra
A névoa, traiçoeira e fria, rastejava pelos vales da Serra da Mantiqueira como um sudário úmido. Despertava os segredos mais antigos, os medos mais profundos, e para a delegada Helena Costa, trazia consigo o cheiro pungente de terra molhada e algo mais… algo metálico, que ela sabia, de corpinho gelado, pertencia ao sangue.
O jipe da polícia, desajeitado como um elefante num salão de baile, abriu caminho pela estrada de terra esburacada. Os faróis cortavam a escuridão espessa, revelando troncos retorcidos de araucárias e a silhueta fantasmagórica de montanhas adormecidas. Helena apertou o volante, os nós dos dedos brancos. Cada curva parecia um convite à desgraça, e ela, teimosamente, a aceitava.
“Mais cinco quilômetros, delegada”, a voz de Marcos, seu braço direito, soou rouca pelo rádio. Marcos era a rocha em sua vida profissional: leal, eficiente, e com um faro para o crime que beirava o sobrenatural. Mas hoje, até ele parecia tenso, a urgência em sua voz ecoando a apreensão que a própria Helena tentava reprimir.
A notícia chegara por volta das duas da madrugada. Uma chamada anônima, um sussurro desesperado que falava de um “achado horrível” na propriedade afastada dos Almeida, uma família tradicional da região, conhecida tanto por suas terras extensas quanto por sua reclusão. O chamador não dera mais detalhes, apenas o endereço e o peso da angústia.
“Alguma coisa, Marcos?” Helena perguntou, a voz firme, apesar do tremor interno.
“Nada. Estamos a poucos metros. A luz está acesa na varanda. Parece que o Sr. Almeida está nos esperando.”
A propriedade dos Almeida era um daqueles lugares que pareciam saídos de um quadro antigo. Uma casa colonial, imponente e um tanto decadente, com varandas de madeira escura e janelas que pareciam olhos vazios na noite. Ao se aproximarem, um homem alto, de ombros curvados e olhar perdido, emergiu da escuridão. Era Ricardo Almeida, o patriarca. Seus cabelos, antes negros, agora eram salpicados de fios prateados, e o rosto marcado por uma ruga profunda de preocupação.
Ele se aproximou do jipe, os olhos arregalados fitando Helena com uma mistura de alívio e pavor. “Delegada Costa. Obrigada por vir tão rápido. É… é terrível.” A voz dele embargava, mal conseguia articular as palavras.
Helena desceu do jipe, o corpo em alerta máximo. O ar estava impregnado de um odor forte, terroso, que se intensificava à medida que se aproximavam da casa. “Sr. Almeida, o que aconteceu?”
Ricardo engoliu em seco, o pomo de Adão saltando em sua garganta. “Meu filho, Miguel. Ele… ele estava cavando perto do galinheiro. Acharam… acharam um corpo.” Ele estremeceu, as mãos tremendo enquanto tentava acender um cigarro, falhando na primeira tentativa.
Helena trocou um olhar rápido com Marcos. Um corpo. Naquele lugar isolado, no meio da noite. O pressentimento de que aquilo não seria um simples achado se confirmou. “Onde exatamente, Sr. Almeida? Podemos ver?”
Ricardo assentiu, a cabeça baixa. “Por aqui. Eu tentei não tocar em nada. Fiquei em choque.” Ele os conduziu pela grama úmida, o silêncio da noite quebrado apenas pelo som de seus passos e o zumbido distante de insetos.
O local era um pequeno cercado, parcialmente destruído, onde antes ficavam algumas galinhas. Uma pá de pedreiro estava caída no chão, ao lado de uma cova rasa e irregular. E ali, parcialmente exposto pela terra revirada, estava o que restara de um ser humano.
Helena sentiu um nó se formar em seu estômago. Não era um corpo fresco. A decomposição já estava avançada. A pele, escura e ressecada, a ossada aparente em alguns pontos. Era a cena que a assombraria em seus pesadelos, a que a faria questionar a sanidade da humanidade.
“Santo Deus”, sussurrou Marcos, o rosto pálido sob a luz fraca da lanterna de Helena.
Helena se agachou, a cautela definindo cada movimento. As roupas, ou o que delas restava, eram antigas, de um tecido que ela não reconhecia de imediato. A posição do corpo era antinatural, como se tivesse sido enterrado às pressas, sem o mínimo cuidado. “Miguel Almeida, certo? Seu filho?”
Ricardo assentiu, os olhos vidrados fixos na cova. “Sim. Ele… ele estava limpando aquela parte do terreno. Disse que viu algo fora do lugar.”
Helena iluminou o rosto do corpo. Ou melhor, o que restava dele. A mandíbula estava parcialmente exposta, os dentes descoloridos. Era impossível identificá-lo visualmente. “Quando foi que ele começou a cavar?”
“Hoje à tarde. Ele disse que não pararia até terminar. Estava preocupado com os animais.”
“E você não o chamou para dentro?” Helena perguntou, a voz suave, mas incisiva.
“Ele é teimoso, delegada. Como eu. Quando ele coloca algo na cabeça…” Ricardo suspirou, o peso da culpa e do choque visível em seus ombros. “Eu fui ver como ele estava e… e ele me chamou. Disse para eu vir ver o que ele tinha achado. Quando eu vi… eu não sabia o que fazer. Liguei para o senhor, o caseiro, ele que me disse para chamar a polícia.”
Helena observou a terra ao redor. A cova era rasa demais. Alguém queria que aquele corpo fosse encontrado. Ou, talvez, que fosse descoberto por acaso. “Quantos anos estima a morte, Sr. Almeida?”
“Não sei, delegada. Difícil dizer com essa terra úmida. Mas as roupas… não são atuais. Parecem antigas.”
Helena iluminou as vestes do corpo. Uma camisa de algodão desbotada, calças de brim surradas. Não havia sapatos. Ela pegou uma luva de dentro do kit de investigação e gentilmente tocou a terra ao lado do crânio. “Vamos precisar chamar a perícia. Eles vão coletar amostras, determinar a causa da morte e, esperançosamente, a identidade.” Ela olhou para Ricardo. “Por favor, não toque em mais nada. Mantenha tudo como está.”
Ricardo apenas acenou, o rosto uma máscara de dor e confusão. O sussurro do passado, exumado pela terra molhada da serra, agora ecoava na propriedade dos Almeida, trazendo consigo um crime que prometia ser tão sombrio quanto a noite que os envolvia. Helena sentiu o frio subir pela espinha, um prenúncio dos horrores que estavam por vir. O Colecionador de Ossos, o nome que ela ainda não sabia, mas que ressoava em sua intuição como um trovão distante, estava prestes a começar sua sinistra obra.