O Colecionador de Ossos

O Colecionador de Ossos

por Thiago Barbosa

O Colecionador de Ossos

Autor: Thiago Barbosa

Capítulo 11 — O Sussurro das Sombras

A noite caía sobre São Paulo como um véu pesado e úmido, engolindo os arranha-céus em sua escuridão faminta. No apartamento luxuoso, mas assustadoramente silencioso de Helena, o ar parecia mais denso, carregado de uma tensão quase palpável. O champanhe, outrora um símbolo de celebração e conquista, agora repousava intocado sobre a mesa de centro de vidro, um lembrete amargo da promessa quebrada e do perigo iminente. Helena, com os olhos fixos no vazio, sentia o peso de cada segundo que passava. A lembrança do rosto de Ricardo, a forma como seus olhos brilharam com uma mistura perigosa de obsessão e desespero, assombrava seus pensamentos.

Ela havia escapado por um triz. A fuga do museu, a adrenalina pulsando em suas veias, a sensação gélida do metal frio da arma em suas mãos – tudo isso parecia um sonho febril agora. Mas a realidade era cruel e implacável. Ricardo estava lá fora, um predador invisível, e ela era a presa. A polícia estava no caso, claro, mas ela sabia que o detetive Matias, por mais competente que fosse, lidava com um inimigo que se movia nas entrelinhas, nas sombras, na própria essência da mente humana.

Um barulho sutil, quase inaudível, rompeu o silêncio. Um arranhar leve na porta da varanda. O coração de Helena disparou, um tambor frenético contra suas costelas. Ela se levantou devagar, seus movimentos calculados, cada músculo tenso. A varanda dava para um jardim de inverno interno, um oásis de verde em meio ao concreto da cidade, mas naquela noite, as plantas pareciam retorcidas, espectrais. O som se repetiu, mais insistente.

Com a respiração suspensa, Helena caminhou até a porta de vidro. A lua, uma fatia pálida e indiferente no céu, projetava sombras dançantes através das folhas. Ela viu um vulto, uma figura esguia e ágil deslizando entre os vasos de samambaia. Não era um ladrão comum, não era um animal. Havia algo deliberado, quase elegante, na forma como a figura se movia. Era Ricardo.

Um arrepio percorreu sua espinha. Como ele a havia encontrado? Como ele sabia que ela estaria ali? A segurança do prédio era de ponta, inacessível. A menos que…

“Ricardo?”, ela sussurrou, a voz trêmula, quase inaudível.

A figura parou. Um silêncio tenso pairou no ar, preenchido apenas pelo farfalhar das folhas e pelo batimento acelerado do coração de Helena. Lentamente, Ricardo se virou. A luz fraca filtrava-se através do vidro, revelando seu rosto. Não era o rosto do homem que ela conhecera, o antropólogo fascinado por ossos antigos. Havia uma loucura contida em seus olhos, uma obsessão que transcendia a razão.

“Helena”, ele disse, a voz rouca, um murmúrio que parecia ecoar de um abismo. “Você sabia que viria.”

Ele não parecia surpreso ao encontrá-la. Pelo contrário, havia uma satisfação sombria em seu olhar, como se estivesse cumprindo um roteiro macabro.

“Como você chegou aqui, Ricardo?”, Helena perguntou, tentando manter a voz firme, mas a apreensão era palpável. “Este lugar é seguro.”

Ricardo deu um sorriso lento, um movimento sutil dos lábios que não alcançou seus olhos. “Seguro para quem? Para você? Ou para ele?” Ele olhou em volta, como se procurasse por algo, ou alguém. “Os ossos nunca mentem, Helena. Eles contam histórias. E a sua história… a sua história está incompleta.”

Ele deu um passo à frente, deslizando pela varanda com uma graciosidade perturbadora. Helena recuou, seus olhos fixos nos dele, buscando uma rachadura na fachada de loucura. Ela sabia que confrontá-lo diretamente era perigoso, mas a alternativa era ser consumida pelo medo.

“O que você quer, Ricardo?”, ela perguntou. “Por que você está fazendo isso?”

“Quero as peças que faltam”, ele respondeu, seus olhos fixos nela com uma intensidade avassaladora. “A história do colecionador. A minha história. E você, Helena, é a peça central. A chave para desvendar tudo.”

Ele estendeu a mão, não para ela, mas para uma pequena mesa onde repousava uma caixa de madeira antiga. Uma caixa que Helena reconheceu instantaneamente. A mesma caixa que ela vira no laboratório de Ricardo, a mesma que ele usava para guardar seus achados mais preciosos.

“Você acha que pode esconder a verdade para sempre?”, Ricardo disse, sua voz ganhando um tom febril. “Acha que pode simplesmente apagar o passado? Eu não sou um homem que esquece, Helena. Eu coleciono. E eu recupero o que me pertence.”

Ele abriu a caixa. Dentro, sobre um forro de veludo escuro, repousava um fragmento ósseo, polido e escuro, com inscrições quase apagadas pela ação do tempo. O mesmo tipo de fragmento que ela vira nas fotos antigas, que a levaram até o museu.

“Este é um pedaço de mim”, Ricardo declarou, seus dedos acariciando o osso. “E você é a guardiã de outros pedaços. Pedaços que me foram roubados. Pedaços que me pertencem por direito. Pela dor.”

O olhar de Helena se arregalou. Ele estava falando sobre a coleção de ossos. Não apenas como um estudo acadêmico, mas como algo pessoal, visceral.

“Você está louco, Ricardo”, Helena disse, a voz mais firme agora, impulsionada por uma onda de raiva e repulsa. “Isso não é seu. Isso pertence à história, à ciência.”

“Pertence àqueles que entendem o verdadeiro valor”, ele rebateu, seus olhos brilhando com uma luz febril. “A dor, a perda, a obsessão. Você não entende, Helena. Você nunca entendeu. Você viu apenas artefatos, eu vi a vida que foi arrancada. Eu vi a justiça que precisa ser feita.”

Ele fechou a caixa com um clique decisivo. O som reverberou no silêncio, um presságio sombrio. Helena sentiu um aperto no peito. Ele não estava apenas obcecado com os ossos; ele estava obcecado com o que eles representavam para ele, com a dor que eles podiam evocar.

“Você não pode fugir de mim, Helena”, Ricardo disse, sua voz voltando a ser um sussurro perigoso. “Eu sou o colecionador. E você… você é o meu próximo troféu.”

Ele se virou e, com a mesma agilidade com que apareceu, desapareceu nas sombras do jardim de inverno. Helena ficou parada, o coração martelando, o eco de suas palavras ressoando em seus ouvidos. O sussurro das sombras. A ameaça era real, palpável. Ela estava presa em uma teia intrincada de obsessão e vingança, e Ricardo, o colecionador de ossos, estava determinado a completar sua coleção, com ela como a peça final e definitiva. A noite, antes apenas escura, agora parecia viva, repleta de ameaças invisíveis, e Helena sabia que a caçada estava apenas começando.

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