O Colecionador de Ossos
O Colecionador de Ossos
por Thiago Barbosa
O Colecionador de Ossos
Capítulo 21 — O Sussurro das Sombras
O ar em São Paulo pesava como chumbo naquele fim de tarde. O crepúsculo, que deveria trazer um alívio bem-vindo do calor sufocante, parecia apenas intensificar a sensação de opressão que se instalara na vida de Sofia. Sentada à mesa da cozinha de seu apartamento modesto em Pinheiros, ela observava o reflexo do céu alaranjado nas gotas de chuva que começavam a salpicar a vidraça. Cada pingo parecia ecoar o tamborilar de seu próprio coração, ansioso, temeroso.
Os dias se arrastavam desde o desaparecimento de Carlos. A polícia, com sua burocracia fria e promessas vazias, já tinha reduzido o caso a um mero arquivo empoeirado. Mas para Sofia, era uma ferida aberta, uma dor constante que a impedia de respirar, de viver. A esperança, antes uma chama vibrante, agora tremeluzia como uma vela prestes a se apagar.
Seu olhar, perdido no horizonte cinzento, pousou sobre uma caixa de papelão desgastada em um canto da cozinha. Era tudo o que restara de Carlos, além das memórias torturantes. Objetos que ele deixara para trás, sem sequer se despedir. Uma camiseta com o cheiro dele ainda pairando, um livro de poemas que ele lia em voz alta para ela nas noites de insônia, e… aquela caixa. A caixa que ele insistira em guardar, com um mistério que ela nunca compreendeu.
Com as mãos trêmulas, Sofia se aproximou. A caixa exalava um aroma levemente mofado, uma mistura de papel antigo e algo indescritível, quase metálico. Ela a abriu com cuidado, como quem desenterra um segredo perigoso. Dentro, encontrou o usual: cartas antigas, fotografias desbotadas, alguns relatórios de trabalho. Mas, enterrado sob tudo isso, havia um pequeno caderno de capa preta, desprovido de qualquer identificação.
A curiosidade a venceu. Ela o pegou, sentindo o couro desgastado sob os dedos. Ao abri-lo, um arrepio percorreu sua espinha. As páginas estavam repletas de uma caligrafia elegante e precisa, a de Carlos. Mas não eram pensamentos românticos ou anotações do dia a dia. Eram nomes. Nomes de pessoas, acompanhados por datas e breves descrições. E, o mais perturbador, uma sequência numérica.
“Ana Clara Mendes, 15/03/2018. Sem pulso.” “Roberto Silva, 22/07/2019. Frio.” “Juliana Costa, 01/11/2020. Respiração ausente.”
Sofia sentiu o estômago revirar. Aquelas não eram anotações de um diário comum. Pareciam… listas. Listas de mortos. Uma onda de pânico a envolveu. Quem era Carlos para registrar essas informações? Seria ele um legista? Um detetive particular? Ou algo muito, muito pior?
O celular tocou, estridente, tirando-a de seu transe mórbido. Era a mãe de Carlos, Dona Elza. A voz embargada de quem tenta manter a compostura, mas falha miseravelmente.
“Sofia, meu amor… alguma notícia?”
Sofia engoliu em seco. Como explicar o que acabara de encontrar? Como confrontar a imagem do homem que amava com a frieza sinistra daquelas anotações?
“Não, Dona Elza. Nada ainda. A polícia… eles não estão fazendo muito.” A voz dela falhou.
“Eu sei, meu bem. Eu sei. Mas não podemos perder a fé. Carlos… ele é um homem forte. Ele vai voltar.” As palavras de Dona Elza eram um bálsamo tênue em meio à tempestade que assolava Sofia.
Após desligar, Sofia voltou ao caderno. A paranoia começou a se instalar. Ela folheou as páginas com dedos trêmulos, a cada novo nome, a cada nova data, uma pontada de terror. Parecia que cada pessoa ali listada era um fantasma sussurrando em seu ouvido, contando uma história que ela não conseguia ouvir.
Havia um padrão. As datas estavam espaçadas, mas não aleatoriamente. Pareciam seguir um ciclo. E as descrições, embora breves, eram perturbadoramente clínicas. “Sem pulso”, “frio”, “respiração ausente”. Eram os sintomas da morte, descritos de forma quase científica.
De repente, um nome saltou aos seus olhos. Um nome que ela conhecia.
“Mariana Santos, 03/09/2021. Silêncio.”
Mariana. Sua amiga de infância, que morrera de forma misteriosa há pouco mais de um ano. A polícia havia classificado como um acidente doméstico, mas sempre houve um véu de incerteza sobre o caso. Sofia se lembrou da angústia daquela época, da dor que sentiu ao perder Mariana, e agora, a possibilidade de Carlos ter tido algum envolvimento, mesmo que indireto, a deixava enjoada.
O que mais aquele caderno guardava? Ela virou mais algumas páginas, o coração batendo descompassado. E então, ela viu. Um nome escrito com uma caligrafia ligeiramente diferente, mais apressada, quase frenética.
“Sofia Almeida, 18/10/2023. Aguardando.”
O sangue gelou em suas veias. Sofia Almeida. Seu próprio nome. A data… era o dia seguinte. O dia seguinte.
Ela deixou o caderno cair no chão, o som surdo ecoando na cozinha silenciosa. As gotas de chuva agora batiam com mais força na janela, transformando a paisagem em borrões de luz e escuridão. Ela sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo, um medo primordial que a paralisou. Ela não estava apenas diante de um mistério, estava no centro dele. E o homem que ela amava, o homem que ela acreditava conhecer, parecia ser a chave, ou talvez a causa, de seu próprio destino sombrio. O sussurro das sombras se tornara um grito ensurdecedor em sua mente.