O Colecionador de Ossos
Capítulo 22 — O Labirinto de Carlos
por Thiago Barbosa
Capítulo 22 — O Labirinto de Carlos
O pânico de Sofia não se dissipou com o passar das horas. A noite caiu sobre São Paulo, e com ela, uma escuridão que parecia espelhar o abismo que se abriu em sua alma. O caderno, ainda caído no chão da cozinha, parecia um artefato amaldiçoado, um portal para um pesadelo do qual ela não conseguia despertar. Ela o pegou novamente, as mãos firmes agora, impulsionadas por uma necessidade desesperada de entender.
A entrada “Sofia Almeida, 18/10/2023. Aguardando” não era apenas uma data. Era uma sentença. Uma ameaça. Mas de quem? De Carlos? Ela se recusava a acreditar. Ele a amava. Ele nunca a machucaria. Ou… ele nunca mais a machucaria? A dúvida se instalou como um parasita em sua mente, corroendo a confiança que ela depositara nele.
Ela começou a analisar as outras entradas com uma nova perspectiva, buscando um padrão que fosse além da simples cronologia. As descrições: “Sem pulso”, “frio”, “respiração ausente”, “silêncio”. Eram termos médicos, mas com uma frieza que sugeria algo mais do que observação clínica. Pareciam o registro de um colecionador, de alguém que catalogava suas presas.
E as sequências numéricas. Ao lado de cada nome, havia um número. As primeiras entradas tinham números baixos, que aumentavam gradualmente. Carlos estava numerando as pessoas? Ou seria um código? Ela olhou para a entrada de Mariana: “03/09/2021. Silêncio. 789”. E a sua própria: “18/10/2023. Aguardando. 1024”. O que aqueles números significavam?
A mente de Sofia, acostumada a lidar com números e planilhas em seu trabalho como contadora, começou a trabalhar freneticamente, buscando conexões. Ela pegou papel e caneta, anotando os nomes, as datas e os números. Ela tentou cruzar as datas com eventos públicos, notícias de mortes, mas nada parecia se encaixar perfeitamente. Era como se Carlos tivesse seu próprio índice de fatalidades, um registro secreto e macabro.
Um pensamento a atingiu: o que se Carlos não era o autor dessas mortes, mas sim um observador? Um documentarista sombrio? E se ele estivesse apenas… registrando? Mas por quê? E por que ela mesma estaria na lista?
Ela lembrou-se de uma conversa com Carlos semanas antes de seu desaparecimento. Ele estava estranhamente evasivo, falava em “missão” e em “proteger pessoas” de uma forma que ela não compreendeu na época. Ele parecia atormentado, mas atribuíra o estresse ao trabalho. Agora, as peças começavam a se encaixar de uma maneira aterradora.
Ela decidiu vasculhar o apartamento dele, algo que não fizera até então, por receio de invadir sua privacidade. Talvez lá houvesse algo que explicasse aquele caderno sinistro. Com a chave que ele havia lhe dado, Sofia entrou no apartamento de Carlos, um espaço que, até então, representava para ela um refúgio de amor e segurança. Agora, parecia um covil.
O apartamento, no bairro nobre dos Jardins, era impecável, quase clínico. O oposto do seu, mais aconchegante e desorganizado. Carlos era conhecido por sua discrição, por sua vida reservada. Sofia sempre achara isso charmoso, uma aura de mistério que a atraía. Agora, esse mistério parecia esconder um horror inimaginável.
Ela começou pelo escritório. Pilhas de livros sobre história, filosofia, mas também alguns sobre medicina forense e criminologia. Sofia sentiu um nó na garganta. Ela vasculhou as gavetas, os armários. Nada parecia fora do lugar, nada de extraordinário, até que ela encontrou um compartimento secreto atrás de uma estante. Um painel de madeira que se abria com um clique quase inaudível.
Dentro, não havia ouro nem joias. Havia um laptop diferente do que ele usava em casa, mais antigo, e um conjunto de pen drives. E, envolto em um pano escuro, um objeto que a fez ofegar. Era uma pequena peça de osso polido, delicadamente esculpida em forma de um pequeno pássaro. Era lindo, mas ao mesmo tempo macabro. E ela reconheceu. Vira algo parecido em uma das páginas do caderno, perto de uma entrada sem nome, apenas um número.
Sofia ligou o laptop. A tela acendeu com o logo de uma empresa de segurança que ela não reconheceu. Era protegido por senha. Ela tentou a data de aniversário de Carlos, o nome dela, o nome de seus pais. Nada funcionou. Frustrada, ela pegou os pen drives. O primeiro continha documentos de trabalho genéricos. O segundo, vídeos.
Os vídeos a deixaram chocada. Eram gravações de vigilância, mas não de ruas comuns. Eram de locais desertos, de becos escuros, de armazéns abandonados. Em todos eles, havia figuras humanas. E em alguns, algo mais. Algo que se movia com uma agilidade sobrenatural, algo que atacava com uma ferocidade animalesca. Em um dos vídeos, um vulto escuro ataca uma pessoa, e quando a câmera foca, a vítima está caída no chão, sem vida. Sofia sentiu o estômago revirar.
Ela abriu o terceiro pen drive. Este continha arquivos codificados. E um programa. Ao abri-lo, uma interface complexa apareceu na tela. Eram mapas. Mapas de São Paulo, com pontos marcados. Pontos vermelhos. Ao clicar em um ponto vermelho, uma janela se abria, exibindo informações. Nomes. Datas. E uma sequência numérica. Eram as mesmas informações do caderno.
Um ponto vermelho brilhava intensamente, piscando. Era no centro de São Paulo, na região da Avenida Paulista. Ao clicar, a informação que surgiu a fez tremer: “Próximo alvo. Verificação pendente. Data prevista: 18/10/2023.”
Sofia fechou os olhos, a cabeça latejando. O caderno, os vídeos, o programa no pen drive… tudo apontava para Carlos. Ele não era apenas um colecionador de ossos. Ele era um observador de mortes, talvez um facilitador. E ela estava na lista. “Aguardando.”
Ela lembrou-se de um detalhe: o número 1024 ao lado de seu nome. Ela voltou ao programa no pen drive, à lista de pontos vermelhos. Ela começou a somar os números das entradas anteriores. 1 + 2 + 5 + 10 + 23 + 45 + 78 + 112 + 150 + 201 + 276 + 355 + 440 + 532 + 640 + 758 + 890 + 1001. Ela não conseguia chegar a 1024. Era algo mais complexo. Uma sequência que ela não conseguia decifrar.
Um som distante a tirou de seus pensamentos. Um barulho de chave na fechadura do apartamento. Seu coração parou. Ela não havia trancado a porta ao entrar. Estava segura. Quem poderia ser?
Ela correu para a porta, o corpo tenso. A maçaneta girou. E o homem que entrou, com um sorriso cansado, mas familiar, a fez hesitar entre o alívio e o terror. Era Carlos. Vivo.