O Colecionador de Ossos
Capítulo 23 — O Retorno do Colecionador
por Thiago Barbosa
Capítulo 23 — O Retorno do Colecionador
O silêncio que se seguiu à entrada de Carlos foi mais pesado do que qualquer palavra. Sofia o encarou, o corpo ainda em alerta, a mente girando em mil direções. Carlos, ali, parado na porta de seu apartamento, como se nada tivesse acontecido. Seus olhos, antes cheios de calor e ternura para ela, agora pareciam carregar um peso que ela nunca vira antes. Havia uma ferida superficial em sua testa, e suas roupas estavam sujas, como se ele tivesse passado dias na rua.
“Sofia… o que você está fazendo aqui?”, a voz dele soou rouca, mas carregada de uma surpresa que parecia genuína. Ele olhou ao redor do apartamento, seus olhos pousando na cozinha aberta, na cadeira virada onde ela estivera sentada. “Você… você esteve aqui?”
Sofia não conseguia falar. Cada palavra que ela tentava formular se perdia em sua garganta. Ela apenas o encarou, o caderno preto de Carlos ainda em sua mão, o pen drive misterioso ainda conectado ao laptop em cima da mesa.
Carlos deu um passo à frente, seus olhos fixos no caderno. Um tremor quase imperceptível percorreu seu corpo. Seu semblante mudou, a surpresa dando lugar a uma expressão de apreensão calculada. “Sofia… você não deveria ter mexido nisso.”
“Mexido nisso?”, a voz dela finalmente encontrou saída, um fio de fúria misturado à dor. “Carlos, o que é isso? ‘Sofia Almeida, 18/10/2023. Aguardando.’ Você ia… você ia fazer alguma coisa comigo?”
O rosto de Carlos empalideceu. Ele se aproximou lentamente, como quem se aproxima de um animal ferido. “Não, Sofia. Nunca. Você entende tudo errado.”
“Entendo tudo errado?”, ela riu, uma risada amarga e sem alegria. “Eu encontrei seus vídeos, Carlos. As gravações. Os mapas. Eu vi os pontos vermelhos. Eu vi o meu nome piscando. O que você é, Carlos? Um assassino? Um monstro?”
A dor em seus olhos era palpável. Carlos fechou os olhos por um instante, como se a acusação o atingisse profundamente. Quando ele os abriu, havia uma resignação sombria em seu olhar. “Eu sou… eu sou o que preciso ser, Sofia. Pelo bem de todos.”
“Pelo bem de todos? Você lista pessoas para morrer e chama isso de ‘bem de todos’?”, ela deu um passo para trás, o medo crescendo em seu peito. Ela o via agora com outros olhos. O homem que ela amava, o homem com quem planejava um futuro, era um enigma sombrio, envolvido em algo que ela não conseguia compreender.
“Não é tão simples”, ele disse, sua voz baixa e tensa. “Você não entende o perigo. Eles… eles não são pessoas comuns. Eles são a causa de tudo. Eles… eles se alimentam.”
“Se alimentam? De quê, Carlos? De vida? De esperança? De nós?”, Sofia estava à beira do desespero. As palavras dele soavam como delírios, mas a frieza em seu olhar, a tensão em seus ombros, a ferida em sua testa… tudo indicava que algo muito real estava acontecendo.
Carlos se aproximou novamente, tentando segurar as mãos dela. Sofia as retirou abruptamente. “Não me toque!”
“Sofia, por favor. Eu não queria que você soubesse assim. Mas eu não tive escolha. Eu preciso que você confie em mim. Eu estou tentando proteger você. Protegê-los.”
“Protegê-los de quê? E quem são ‘eles’?”
Carlos hesitou, olhando para a porta como se esperasse que algo a arrombasse a qualquer momento. “Existe uma… uma linhagem. Um grupo de indivíduos que manipulam os eventos, que causam desgraças, que se alimentam do caos e da dor das pessoas. Eles são como parasitas. Eu os chamo de ‘Sombras’.”
“Sombras? Você está falando de teorias da conspiração, Carlos?”
“Não são teorias, Sofia! Eu vi. Eu provei. Eu tenho acompanhado eles há anos. O caderno… ele é o meu registro. Um registro de quando eles agem, de quem eles afetam. E os números… os números são códigos de identificação. E o seu número, 1024… é porque você está na mira deles. Eles planejam te usar. Te quebrar. Te consumir.”
Sofia sentiu a vertigem. A ideia era tão absurda quanto aterrorizante. Mas a forma como Carlos falava, a intensidade em seus olhos, a evidência que ela própria encontrara… a verdade era um borrão confuso entre o amor que sentia por ele e o horror que ele parecia encarnar.
“E por que você está me contando isso agora? Por que você desapareceu?”
“Eu fui… eu fui forçado. Eles sabem que eu sei. Eu preciso estar um passo à frente. Eu preciso neutralizá-los antes que eles te alcancem. Eu fui atrás de uma pista… uma pista que me levaria a um deles. O cara que me feriu.” Ele tocou a testa. “Eu estava perto, mas eles são astutos. Eu sabia que viria para você. E eu precisava ter certeza de que você estaria segura enquanto eu tentava acabar com isso de uma vez por todas.”
Ele pegou o caderno de sua mão, folheando-o rapidamente. “Veja, Mariana. O número dela era 789. Ela… ela estava prestes a descobrir algo. Eles a silenciaram. Assim como fariam com você se eu não intervisse.”
Sofia sentiu um arrepio. A morte de Mariana, sempre envolta em mistério, ganhava um contorno sombrio e terrível. “Você está dizendo que Carlos… não, que essas ‘Sombras’ mataram Mariana?”
“Sim”, a voz de Carlos era um sussurro de certeza. “E elas vão atrás de você amanhã. Por isso eu voltei. Para te tirar daqui. Para te manter viva.”
Ele estendeu a mão para ela. “Sofia, confie em mim. Temos que ir. Agora.”
Sofia olhou para a mão dele, depois para o rosto dele. O homem que ela amava, que a assustava, que a protegia. Ela estava presa entre dois mundos: o mundo do amor e da confiança que ela conhecia, e o mundo sombrio e perigoso que Carlos parecia ter descoberto. Ela não sabia mais em quem acreditar.
De repente, um ruído sutil vindo da rua a fez estremecer. Um carro parando. Luzes se apagando. Ela olhou pela janela, a cortina apenas entreaberta. Dois vultos escuros, parados na calçada em frente ao prédio. Eles não estavam olhando para o prédio de Sofia. Estavam olhando para o prédio de Carlos.
Carlos seguiu seu olhar. Seu corpo travou. “Eles sabem que eu voltei. Eles sabem que eu estou aqui.” Seus olhos encontraram os dela, um brilho de desespero misturado a determinação. “Temos que sair. AGORA!”
O som de vidro quebrando vindo do andar de baixo ecoou pelo apartamento. Não era o barulho de uma tentativa de invasão. Era algo mais… violento. Mais direto. As “Sombras” não estavam ali para brincar.