O Colecionador de Ossos
Capítulo 24 — A Fuga sob o Véu da Noite
por Thiago Barbosa
Capítulo 24 — A Fuga sob o Véu da Noite
O som do vidro se estilhaçando ressoou como um tiro, quebrando a tensão que pairava no apartamento de Carlos. Sofia e ele se viraram instintivamente para a porta, os corações martelando em uníssono. As luzes da rua, antes fracas e distantes, agora projetavam sombras dançantes através das frestas da cortina, realçando a urgência da situação.
“Droga!”, Carlos praguejou, a voz tensa. “Eles nos acharam. E vieram com tudo.” Ele correu para a janela, espiando a rua com uma agilidade surpreendente. Os dois vultos escuros que ele vira antes haviam sumido, mas agora um carro preto, sem placa visível, estava estacionado em frente ao prédio. “Não perca tempo, Sofia! Pega sua bolsa. Temos que ir!”
Sofia, em choque, mal conseguia processar a velocidade com que tudo estava acontecendo. A teoria de Carlos sobre as “Sombras” parecia se materializar diante de seus olhos, em uma velocidade assustadora. Ela correu para o quarto, pegando a pequena mochila que sempre deixava pronta para emergências, com documentos e um pouco de dinheiro. Ao voltar para a sala, Carlos já estava abrindo a porta dos fundos, que dava para uma pequena área de serviço que levava a um corredor escuro de serviço do prédio.
“Por aqui, Sofia! Rápido!”, ele sussurrou, a urgência em sua voz a impulsionando para fora do perigo iminente.
Eles desceram pelas escadas de serviço, um ambiente escuro e empoeirado, longe dos olhares curiosos. O cheiro de mofo e umidade pairava no ar, um contraste gritante com a sofisticação dos apartamentos. A cada degrau, Sofia sentia o perigo se aproximando, como um predador invisível em seu encalço.
Ao chegarem ao térreo, Carlos abriu uma porta metálica que dava para um beco nos fundos do prédio. A noite estava fria, e uma garoa fina começava a cair, deixando o asfalto brilhante e escorregadio. O barulho distante de sirenes indicava que alguém havia ouvido o alarme do prédio, mas Sofia sabia que a polícia, quando chegasse, não encontraria nada que explicasse o terror que ela sentia.
“O carro deles está lá na frente. Precisamos de um transporte”, Carlos disse, seus olhos varrendo o beco em busca de uma saída. “Tem uma estação de metrô a algumas quadras. Se chegarmos lá sem sermos vistos, podemos nos misturar à multidão.”
Eles correram pelo beco, o som de seus passos ecoando no silêncio da noite. Sofia sentia a adrenalina correr em suas veias, o medo a impulsionando para frente. Ela tentava acompanhar o ritmo de Carlos, que parecia conhecer cada viela, cada atalho da cidade. Ele era um fantasma em seu próprio labirinto.
Chegaram a uma rua lateral, menos movimentada. Carlos parou abruptamente, puxando Sofia para trás de uma lixeira enferrujada. “Espere.” Ele olhou para os dois lados da rua. Um carro preto, idêntico ao que estava em frente ao prédio, passou lentamente, os faróis varrendo a rua. Não era o mesmo carro.
“Eles estão nos caçando”, Carlos murmurou, a voz baixa e rouca. “Não podemos ir para o metrô. É muito previsível. Precisamos de outro plano.”
Ele puxou Sofia para um lado, entrando em uma rua estreita ladeada por prédios antigos. A arquitetura de São Paulo se revelava em sua dualidade, do moderno ao decadente, um cenário perfeito para a fuga que se desenrolava.
“Onde você acha que eles nos levaram, Carlos?”, Sofia perguntou, a voz embargada pelo medo e pelo cansaço.
Carlos a olhou, seus olhos escuros refletindo a pouca luz da rua. “Eu não sei ao certo. Mas se eles sabem sobre o seu número, sobre a sua ‘espera’… eles querem você. Querem te quebrar antes que eu possa te proteger.” Ele apertou o passo. “Eu preciso te tirar de São Paulo. Para um lugar onde eles não possam te encontrar. Pelo menos por enquanto.”
“E você? O que vai acontecer com você?”
“Eu preciso dar um jeito neles primeiro. Precisamos eliminar a ameaça. Eu não posso te deixar se eu não tiver certeza de que eles não vão mais te perseguir.” Ele parou por um instante, olhando para ela com uma intensidade que a fez tremer. “Sofia, eu te amo. Mais do que tudo. E eu não vou deixar nada acontecer com você. Ouça o que eu digo. Confie em mim.”
As palavras dele, proferidas em meio ao caos e ao perigo, soavam como uma promessa desesperada. Sofia, apesar do medo, sentiu uma faísca de esperança. Talvez, apenas talvez, Carlos pudesse salvá-la.
Eles continuaram a se mover pelas sombras da cidade, cada esquina um novo perigo, cada ruído uma potencial ameaça. Carlos parecia antecipar cada movimento de seus perseguidores, guiando-os por caminhos tortuosos e inesperados. Ele a levou até uma estação de trem de carga abandonada nos arredores da cidade, um lugar desolado e esquecido.
“Aqui”, ele disse, apontando para um velho trem de carga parado nos trilhos. “Este é o nosso transporte. Eu tenho… contatos. Pessoas que me devem favores. Essa carga está indo para o interior. É a única forma de sair de São Paulo sem sermos notados.”
Eles subiram em um dos vagões de carga, escondendo-se entre as caixas e sacos. O interior era escuro e apertado, com cheiro de poeira e metal. Sofia sentiu o coração afundar. Seria essa a sua nova realidade? Fugindo na escuridão, escondida como um animal acuado?
Carlos se sentou ao lado dela, puxando-a para perto. “Fique aqui. Não saia por nada. Eu vou ver se consigo acelerar as coisas.” Ele beijou sua testa. “Eu volto para você. Eu prometo.”
E ele desapareceu na escuridão do vagão, deixando Sofia sozinha com seus medos e as incertezas do futuro. Ela fechou os olhos, tentando encontrar conforto no abraço imaginário de Carlos, na promessa de que ele voltaria. O trem começou a tremer, rangendo os trilhos, anunciando o início de uma nova e perigosa jornada. O colecionador de ossos estava em movimento, e ele levava consigo a sua mais preciosa, e talvez a mais ameaçada, coleção.