O Colecionador de Ossos
Capítulo 3 — Ecos de um Crime Esquecido
por Thiago Barbosa
Capítulo 3 — Ecos de um Crime Esquecido
Os dias seguintes se arrastaram sob um céu cinzento e opressor, espelhando o estado de espírito de Helena. A perícia ainda trabalhava na propriedade dos Almeida, desenterrando não apenas a ossada da mulher, mas também evidências que pintavam um quadro cada vez mais perturbador. As análises preliminares do DNA confirmaram que a vítima era uma mulher, mas a comparação com qualquer banco de dados não trouxe resultados. Era como se ela tivesse sido apagada do mundo, exceto por sua presença macabra na terra fria da serra.
O Dr. Carvalho, com sua habitual seriedade, confirmou a perfuração no antebraço. Parecia um furo de agulha, mas feito com uma força incomum. “É muito peculiar, delegada”, ele disse, examinando a imagem ampliada em um monitor. “Não é um ferimento de arma de fogo, nem de faca. É um furo preciso, quase cirúrgico, mas com sinais de violência. Como se algo pontiagudo e fino tivesse sido forçado.”
Helena sentiu um arrepio. Algo pontiagudo e fino. Uma agulha? Um espeto? A mente dela vagou para os piores cenários, e ela os afastou com um esforço. Precisava de fatos, não de conjecturas.
A investigação nos registros da família Almeida e da região se tornou seu foco principal. Ela descobriu que, na década de 1970, um período que se alinhava com a estimativa de idade da ossada, a propriedade ainda era gerida pelo avô de Ricardo, o severo Sr. Sebastião Almeida. Havia poucas informações sobre ele, a maioria se resumindo a relatos de que era um homem de poucas palavras e um controle absoluto sobre sua família e empregados.
O nome Lurdes, a moça quieta que trabalhava na casa, apareceu em alguns registros antigos de pagamento. Ela e seu marido, Josué, pareciam ter trabalhado para os Almeida por alguns anos. O que aconteceu com eles depois? Helena enviou sua equipe para tentar rastrear qualquer informação sobre o casal. Era uma tarefa árdua, dada a falta de registros e o tempo decorrido.
Enquanto isso, em sua sala na delegacia, cercada por pilhas de documentos e o cheiro característico de café requentado, Helena revisava as fotos da cena do crime. A expressão de Ricardo Almeida, a solidão em seus olhos, a possível melancolia da falecida Dona Aurora… todos esses elementos começavam a formar uma tapeçaria complexa.
Ela decidiu revisitar a casa dos Almeida. A névoa já havia cedido, dando lugar a um sol tímido que lutava para perfurar as nuvens. A propriedade, agora sob a luz do dia, parecia menos sinistra, mas a aura de mistério permanecia. Ricardo a recebeu na varanda, o copo de uísque substituído por uma xícara de café fumegante. Seus olhos ainda carregavam o peso do que fora descoberto.
“Alguma novidade, delegada?” ele perguntou, a voz ainda marcada pela fadiga.
“Estamos trabalhando nisso, Sr. Almeida. Precisamos conversar mais sobre sua mãe, Dona Aurora. O senhor disse que ela guardava segredos. Que tipo de segredos?”
Ricardo suspirou, olhando para a paisagem verde e densa que cercava a casa. “Minha mãe… ela era uma mulher de muita fé, mas também muito apreensiva. Tinha medo do escuro, medo de trovoadas. E ela era extremamente ligada a essa terra. Diziam que ela falava com as plantas, com os animais. Que ela sentia a energia do lugar.” Ele riu, um som baixo e sem alegria. “Eu achava que era apenas o jeito dela. Mas agora… eu me pergunto.”
“Ela falava com alguém sobre alguma preocupação específica? Algum medo relacionado a pessoas que moravam ou trabalhavam aqui?”
“Não que eu me lembre diretamente. Mas ela tinha uma relação… peculiar com a empregada, Lurdes. Era uma moça muito jovem quando veio trabalhar aqui. Tinha um jeito doce, mas parecia sempre assustada.”
Helena sentiu um fio se puxar. “O senhor se lembra de alguma interação entre sua mãe e Lurdes que o tenha marcado?”
Ricardo franziu a testa, tentando reviver as memórias. “Lembro-me de uma vez, quando eu era criança. Eu devia ter uns sete, oito anos. Estava brincando no jardim e vi Lurdes chorando perto do estábulo. Ela estava escondida. Minha mãe a encontrou. Eu ouvi ela dizer, com uma voz firme, mas não cruel: ‘Não chore, minha filha. Tudo tem seu tempo. E os segredos da terra, um dia, virão à luz.’” Ele balançou a cabeça. “Na época, eu não entendi o que ela quis dizer. Agora… isso me assombra.”
“Os segredos da terra… E você acha que sua mãe sabia de algo sobre a pessoa enterrada?”
“Não sei, delegada. Mas ela era muito intuitiva. Sentia as coisas antes que acontecessem. E ela passava muito tempo sozinha, vagando pelos arredores da propriedade. Meu pai a advertia para não ir muito longe, para não se perder na mata. Mas ela sempre voltava.”
“E onde ficava o galinheiro, Sr. Almeida? Onde Miguel encontrou o corpo?”
Ricardo apontou para uma área mais afastada da casa, perto de um pequeno bosque. “Ali. Era onde ficavam as galinhas. Miguel decidiu reformar tudo. Estava preocupado com os predadores.”
Helena caminhou até o local, a terra ainda revolvida em alguns pontos. Era um local relativamente isolado, escondido entre a vegetação densa. A ideia de alguém ser enterrado ali, sem ser notado por anos, era perturbadora.
“E a marca no antebraço da vítima, Sr. Almeida, o senhor tem alguma ideia do que poderia ser?”
Ricardo empalideceu. “Não faço ideia. Nunca vi nada parecido. É… é horrível.”
De volta à delegacia, a equipe de investigação trouxe notícias promissoras. Um dos detetives mais experientes, um homem chamado Carlos, conseguira encontrar um sobrinho distante de Josué e Lurdes, um senhor de idade que vivia em uma cidade vizinha. Ele se lembrava vagamente dos tios. Lurdes teria desaparecido sem deixar rastro por volta de 1975. Josué, desolado, teria deixado a região pouco tempo depois, nunca mais sendo visto. O sobrinho não tinha mais informações, mas confirmou que Lurdes era uma moça muito quieta e reservada, que parecia carregar um grande peso em sua vida.
“O desaparecimento de Lurdes nunca foi registrado como um crime”, disse Carlos, sua voz carregada de frustração. “As pessoas naquela época não davam tanta importância. Acreditavam que ela tinha fugido com algum amante ou simplesmente retornado para sua família, que morava longe.”
A coincidência era chocante demais para ser ignorada. Lurdes, a moça quieta e assustada, desapareceu por volta de 1975. Quarenta anos depois, seu corpo é encontrado em uma cova rasa, com um ferimento peculiar no antebraço.
Helena sentiu a adrenalina percorrer seu corpo. O caso estava ganhando forma, mas a motivação por trás de um crime tão antigo e tão brutal ainda era um abismo insondável. Quem seria o autor? E por que aquele corpo, em particular, foi escondido ali, para ser redescoberto agora?
Ela olhou para a foto de Dona Aurora, a matriarca reclusa e misteriosa. “Os segredos da terra…”, ela murmurou. Se Lurdes estava assustada, se Dona Aurora sabia de algo, então o segredo não era apenas da terra, mas da própria casa, da própria família Almeida.
A pergunta que a atormentava era: por que agora? Por que aquele corpo, após décadas de silêncio, decidiu se revelar? O Colecionador de Ossos, quem quer que fosse, deixou sua marca. E Helena Costa estava determinada a desvendar cada um desses ecos de um crime esquecido, por mais sombrios que fossem os caminhos que a levassem.